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1980 I SÉRIE - NUMERO 52

A dinamização cultural falhada foi exactamente um artifício compensatório, a nível ideológico, da falta de vontade em apoiar e dirigir os assalariados e o campesinato do Norte na sua luta concreta contra a exploração dos senhores das quintas, dos grandes, arrendatários e dos intermediários. Por isso o Norte foi, durante, bastante tempo, a reserva da contra-revolução, o apoio dos partidos reaccionários, o coito dos bombistas, o reforço do controle reaccionário dos caciques apoiados na estrutura hierárquica da Igreja.
Sem transformações democráticas e revolucionárias ao nível da estrutura económica e da propriedade, era utópico e extremamente contraproducente pretender impor por cima uma nova visão do mundo sem contrapartida na vivência prática das transformações reais e materiais que permitissem esse novo mundo. Naturalmente que ganhou não a tradição popular, mas a exploração e o enquadramento reaccionário dessa mesma tradição, que foram polarizados pelo facto de a própria tentativa de dinamização cultural, imbuída de preconceitos pequeno-burgueses pretensamente progressistas, ter desprezado e violentado as raízes profundas da vida do povo, ignorando estupidamente que é essa mesma vida de luta, sacrifício e exploração, que desenvolve os elementos e factores democráticos e socialistas, na sua consciência.
O padre Max compreendia isso, pelo seu grande amor ao povo, pela visão transformadora e progressista que tinha de doutrina essencial de Cristo, pela sua ligação aos revolucionários, nomeadamente a UDP. O padre Max era amado e a sua companhia, os seus ensinamentos - que mais não eram do que a - síntese dos mais profundos sentimentos populares de liberdade e justiça -, eram disputados e queridos. A sua coragem e a sua ousadia, próprias de quem decidiu dedicar a sua vida ao bem-estar do povo e à transformação das suas condições de vida, permitiam-lhe falar com clareza e simplicidade da revolução lá, onde imperava a mais odiosa opressão e onde faziam lei os caciques fascistas e o obscurantismo da hierarquia religiosa.
O seu exemplo e a sua palavra espalhavam-se e encontravam um terreno fértil no povo ávido de uma nova vida na terra, nesta terra onde era violentado, explorado e espezinhado, enquanto os nababos lhe falavam na necessidade de continuar no vale de lágrimas para conquistar um céu, que o seu trabalho e miséria facultavam antecipadamente aos grandes senhores ricos e poderosos.
Portanto Max era subversivo e não podia celebrar missa, assim decidiu o bispo, de acordo com os fascistas, com os ricos e os partidos políticos de direita. Mas o padre Max não precisava da missa, porque as suas palavras não precisavam do enquadramento místico para serem impostas. Elas eram poderosas e eficazes, porque vivas e reais. A sua palavra era dada à luz do sol, nos campos, nas fábricas e nas escolas, era a palavra da transformação da sociedade, era a liberdade para o povo e a repressão para os fascistas, era a revolução democrática e popular. Por isso os grandes senhores tiveram de o matar, servindo-se das estruturas do ELP e do MDLP, aproveitando a libertação dos pides e a compreensão das policias. A ele e à Maria de Lurdes, uma jovem do povo,- também ela disposta o servi-lo e não a servir-se dele. Foi o primeiro atentado contra a Constituição de Abril, jovem de 1 dia, perpetrado por aqueles mesmos que hoje a querem queimar. Um atentado que por estar ligado e ter sido promovido pelos todo-poderosos permanece por esclarecer e por punir.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Todo o desenvolvimento do processo contra-revolucionárío se tem caracterizado pela afrimação dá necessidade de acabar com a Constituição de Abril, o que advém do facto de esta ser, pela consagração das amplas liberdades conquistadas em 1974-1975, um colete-de-forças para a política da direita e para a «liberalização» da exploração capitalista, para a actividade dos monopólios e do imperialismo.
A política do governo AD, mais do que a de qualquer, outro, em consequência do seu carácter antinacional e antipopular, precisa de facto de se apoiar num cada vez mais forte e refinado aparelho repressivo. Um aparelho repressivo multifacetado que impeça a revolta do povo face à carestia, ao desemprego, aos despedimentos, ao roubo nos salários, aos ritmos de trabalho brutais impostos em nome da produtividade, aos lucros cada vez mais escandalosos dos capitalistas, ao desprezo total pelas condições de vida de quem trabalha, pelo futuro e pelo presente dos jovens, pelo merecido bem-estar dos idosos, tratados realmente como trapos velhos. Um aparelho repressivo centralizado, mas com muitas ramificações, oficiais e privadas. Que tem como factores importantes a disciplina interna imposta nas empresas, os processos disciplinares aos trabalhadores, os despedimentos selectivos e colectivos, os contratos a prazo, as polícias privadas, as estruturas paramilitares como a Associação dos Comandos, as estruturas clandestinas fascistas como o ELP e o MDLP, pára além da actuação de facto das instituições desde o 25 de Novembro, quer a nível do executivo e das polícias, quer a nível dos tribunais. E basta neste âmbito citar as mortes de Luís Caracol e José Jorge Morais, os julgamentos de Andrade e Silva, de Isabel do Carmo, Carlos Antunes e Fernanda Fráguas e o actual julgamento dos 3 militares do Ralis. Entretanto as polícias invadem as ruas como se estivéssemos em estado de sítio, interrogam e identificam os cidadãos, quando não os matam friamente, como aconteceu há dois dias no Bairro da Liberdade.
Assiste-se, efectivamente, a uma tentativa de instalar a repressão como coisa natural e habituar os cidadãos à sua presença, convencendo-os de que é necessária. Assiste-se à lenta, mas crescente fascização do quotidiano não só pela actuação dos aparelhos repressivos específicos, oficiais e privados, mas também através de uma forte campanha ideológica, tendo como suportes fundamentais os meios de comunicação social e os programas das escolas. O discurso dos Ministros sobe de tom e para além do acervo de asneiras e de mentiras, a que já nos habituaram nas suas centrais de propaganda, enveredam pelo terrorismo político, pela intimidação, pela provocação, de que foram exemplos altos o Ministro da Indústria e Energia, a propósito da greve da Petroquímica, e o Ministro da Reforma