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29 DE ABRIL DE 1981 2145

A Sr.ª Natália Correia (PSD):-Sr. Presidente, Srs. Deputados: Gostaria de assinalar o contentamento, a satisfação do Grupo Parlamentar do PSD pelo facto de ser aqui homenageado o nome de um grande escritor português o que, aliás, era nossa intenção fazer no próximo dia 3 de Maio para comemorar o acto solene, pois é nesse dia que Rodrigues Migueis regressa à sua Pátria, infelizmente num punhado de cinzas, mas cinzas ilustres que por isso mesmo merecem toda a nossa consideração.
Desde já, gostaríamos de nos solidarizar com as palavras do Sr. Deputado José Manuel Mendes, às quais juntamos ainda a recordação muito breve dessa figura extraordinária de romancista e de lutador que, juntando-se ao grupo da Seara Nova, lutou pela liberdade em Portugal e que maravilhosa, sentida e construtivamente, muito à forma de Dostoievski - como o Sr. Deputado muito bem disse-, focou o drama dos emigrantes, o drama do português no exílio e o drama do Alentejo, de cujo Pão não Cai do Céu, para usar o título de um dos seus livros.
Portanto, reservamos a nossa mais sentida homenagem para o momento que apontei nestas minhas breves palavras.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Srs. Deputados, o uso da palavra sob a forma que está a ser feito não é inteiramente regimental. Naturalmente a Sr.ª Deputada Natália Correia podia ter usado da palavra pedindo esclarecimentos e ter dito o que disse. Contudo, como permiti à Sr.ª Deputada que usasse da palavra nos termos em que usou e nas condições em que o fez, vou permitir também a outros Srs. Deputados de outros grupos parlamentares usarem da palavra.
Tem a palavra a Sr.ª Deputada Helena Cidade Moura.

A Sr.ª Helena Cidade Moura (MDP/CDE): - Sr. Presidente, tenho a agradecer a sua alta compreensão pela figura de Rodrigues Migueis mais do que pelo nosso pedido de palavra um pouco extemporâneo.
Penso que o Sr. Deputado José Manuel Mendes deu a figura literária de José Rodrigues Migueis e como estamos numa assembleia política em que julgamos que a cultura tem de ser enquadrada no seu contexto social, chamaria a atenção para o facto de José Rodrigues Migueis ter sido, no seu tempo, uma voz e uma escrita capaz de quebrar a dicotomia entre o social e o psicológico, visto que foi ele dos primeiros que fez romances em que essas duas linhas se harmonizaram e se compatibilizaram e viveram uma da outra. Isto quer dizer que ele era um homem profundamente empenhado no social, e eu permitia-me lembrar aqui alguns aspectos da sua vida que também fazem parte da sua personalidade literária, mas que têm assento na sua personalidade cívica.
Assim, lembrava que ele foi colaborador e fundador da segunda liga da Mocidade Republicana, com Bento de Jesus Caraça, foi director do Globo e no grupo da Seara Nova, sendo um dos mais jovens, foi também com Raul Brandão e Câmara Reys um dos organizadores das Leituras Primárias. Isto levou-o a um facto pouco conhecido e que é o seguinte: conseguiu licenciar-se em Ciências Pedagógicas em Bruxelas.
O facto de José Rodrigues Migueis se expatriar, sendo grande pensador, grande pedagogo e grande activista social ou político - como lhe queiramos chamar -, mostra realmente a incapacidade do nosso país nessa época de poder assimilar e aproveitar as pessoas que com inteligência e com dedicação se dedicavam à causa do nosso povo.

Aplausos do MDP/CDE, do PS, do PCP, da ASDI, da UEDS, da U DP e da Sr.ª Deputada Natália Carteia (PSD).

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado João Lima.

O Sr. João Lima (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: É com grande contentamento que também nos associamos a esta evocação e homenagem ao grande escritor português que foi José Rodrigues Migueis.
Na Primavera do ano de 1977 tivemos o privilégio de com ele nos encontrarmos em Nova Iorque onde ele residia, escrevendo sempre, e perguntámos-lhe então porque é que ele não regressava ao Portugal democrático, à sua Pátria. Ele respondeu-nos que vivia sofrendo com a ausência da sua Pátria, sendo um exilado como sempre foi no tempo do fascismo, continuava exilado com a democracia mas com um terrível medo de não ter tempo de vida suficiente para escrever tudo o que brotava do seu coração e da sua cabeça para o povo português e do povo português.
Estas palavras que não são minhas, mas que foram ideias profundas, embora singelas, proferidas por José Rodrigues Migueis, bem retraiam a sua personalidade forte de português que nos Estados Unidos teve uma única preocupação: produzir cultura, produzir cultura portuguesa para a sua própria dignificação e para honra do seu povo, que ele com tanto orgulho invocava na sua vida quotidiana.
Por isso, penso que este é mais um momento de nos criticarmos a nós próprios por abrirmos mão dos nosso grandes poetas e prosadores, fazendo-lhes homenagens póstumas, trazendo os mortos e nunca lhes dando ajuda, prestígio e apoio em vida. Esta é uma triste realidade cultural portuguesa que vem desde há séculos e que é a de nós continuarmos a prestar homenagem aos nossos poetas, aos nossos prosadores e aos nossos artistas depois de mortos. Será cómodo para nós, mas é uma vergonha para a cultura nacional.

Vozes do PS: - Muito bem!

O Orador - José Rodrigues Migueis que vai regressar em cinzas não vem morto, vem com a sua obra, vem com toda a sua projecção cultural, e é essa a homenagem que ao menos lhe temos de fazer mesmo com o seu corpo transformado em cinzas num pequeno caixão de madeira.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Barrilaro Ruas.