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2148 I SÉRIE - NUMERO 67

O Sr. Presidente: - Para pedir esclarecimentos: tem a palavra o Sr. Deputado Mário Tomé.

O Sr. Mário Tomé (UDP): - Sr. Presidente. Srs. Deputados: Acabámos de ouvir a intervenção do Sr. Deputado do PSD.
Pelos vistos, o PSD e o Governo estão muito preocupados com a situação da Setenave, mas parece estarem ainda mais preocupados com a situação dos seus trabalhadores. Por isso, esta intervenção destinou-se no fundo a pedir aos partidos da oposição - pois são eles que têm representividade entre os trabalhadores em geral e, em particular, entre os trabalhadores da Setenave.

Risos do PSD.

...que prescindam da sua actividade de consciencializar esses trabalhadores para o estatuto de exploração e de repressão, de ritmos de trabalho e do risco da própria vida, para o qual a Setenave, tal como as grandes empresas capitalistas, não tem a mínima atenção.
Como tal, sugere-se que os trabalhadores colaborem com o Governo e com a AD no desenvolvimento das actuais estruturas, que não são colocadas, tal como até aqui tem acontecido, ao serviço dos trabalhadores. Quando o Sr. Deputado diz que eles estão conscientes das dificuldades e dos problemas, devo dizer-lhe que isso é verdade, mas num outro sentido: é que eles percebem que as nacionalizações não têm sido postas ao seu serviço, seja dos trabalhadores da Setenave ou de outros em geral.
Com efeito, a Setenave tem servido no fundo à acumulação capitalista concentrada no próprio Estado e não num capitalista individual, apesar das dificuldades que têm sofrido. Os trabalhadores estão absolutamente decididos - é isso que se sente e percebe - a defender a Setenave e outras empresas nacionalizadas, mas no sentido de preservarem os seus interesses de trabalhadores e de operários, os seus direitos e os seus salários justos, a que eles têm direito e que não podem ser escamoteados à custa da salvação das empresas.
Era isto o que eu gostaria de dizer ao Sr. Deputado do PSD. Com efeito, os trabalhadores vão continuar a sua luta, cada vez mais firme e mais lúcida; ligados aos trabalhadores do sector da construção naval, bem como de outros sectores, para conseguirem fazer vingar as suas reivindicações justas.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Cardoso Ferreira, se assim o desejar.

Ò Sr. Cardoso Ferreira (PSD): - Sr. Presidente, não sei se a intervenção do Sr. Deputado Mário Tomé foi um protesto ou antes um pedido de esclarecimento.

O Sr. Mário Tomé (UDP): - Foi um comentário à sua intervenção.

O Orador: - Depois de ter ouvido tudo aquilo que o Sr. Deputado acabou de dizer cheguei à conclusão de que o Sr. Deputado não disse nada.
Eu percebo perfeitamente o problema do Sr. Deputado, cuja implantação na empresa a que me referi é cada vez menor. Assim, a sua intervenção foi uma intervenção de recuperação.
Apesar disso, queria dizer-lhe que o PSD cada vez mais, se preocupa com os trabalhadores e estes sentem isso. A prova está na implantação neste momento, com grande credibilidade, aceitação e movimentação, de um núcleo social-democrata de trabalhadores na Setenave.
Posso dizer-lhe ainda que quando se refere aqui a consciência que os trabalhadores actualmente têm dos problemas que a empresa apresenta neste momento, essa consciência traduz-se na extrema dificuldade com que a UDP e o PCP, nomeadamente nos últimos dias em Setúbal, conseguem manipular as populações trabalhadoras. Aliás, seria bom que o Sr. Deputado Mário Tomé, que costuma frequentar zonas de ponta da cidade de Setúbal ponta eleitoral, como é óbvio- tivesse estado lá, com alguns dos seus colegas do PCP quê estão aí ao lado, para poder ver como o PCP consegue neste momento reunir trezentas e tal pessoas numa grande manifestação, que durou cerca de vinte e dois. minutos, uma vez que se também eu fosse orador teria tido vergonha de estar a falar para trezentas e tal pessoas, naquilo que tem sido denominado como a cidade vermelha.

Vozes do PSD: - Muito bem!

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Mário Tomé, para formular um protesto.

O Sr. Mário Tomé (UDP): - Sr. Presidente. Srs. Deputados: Protesto porque o Sr. Deputado do PSD disse que, nomeadamente, a UDP manipulava os trabalhadores. Ora, ninguém acredita que a UDP, falando em nome de reivindicações que os próprios trabalhadores sentem, exigem e impõem, manipulem os trabalhadores. O que a UDP faz é dar expressão política a essa vontade e a esse desejo.
Quem manipula os trabalhadores é quem pretende arregimentá-los em nome da defesa dos interesses do grande patronato. Isso é óbvio, é evidente e qualquer pessoa o percebe. Manipula-se quando se pretende puxar os trabalhadores para o lado do patrão, que os trabalhadores sentem perfeitamente como sendo o inimigo, o homem que os explora. Não se manipula quando se está a dar expressão política aos interesses concretos dos trabalhadores.

O Sr. Presidente: - Também para um protesto, tem a palavra o Sr. Deputado Veiga de Oliveira.

O Sr. Veiga de Oliveira (PCP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Eu não quis intervir mais cedo porque o Sr. Deputado Cardoso Ferreira portou-se muito bem na sua intervenção inicial.

O Sr. Cardoso Ferreira (PSD): - Obrigado!

O Orador: - O Sr. Deputado portou-se muito bem porque disse uma série de disparates políticos, de inverdades. Mas, como é natural, fez o seu papel e defendeu as cores do seu partido.
Contudo, não se conteve. O seu verniz durou pouco tempo, e estalou quando menos se esperava.