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3764 I SÉRIE - NÚMERO 91

Carlos de Oliveira morreu. Que melhor epitáfio para a sua vida do que aquele que há trinta e tal anos ele próprio escrevia na sua Terra de Harmonia: •

Mais vivo porque sofreste
a morte não veio, foi-se:
a eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.

Aplausos do PS, do PSD, do CDS, do PCP, do PPM, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra a Sr.ª Deputada Natália Correia.

A Sr.ª Natália Correia (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Apanhados de surpresa pela morte de Carlos de Oliveira, o que nos cabe dizer é mais de comoção do que ensaiar avaliações da sua obra. Impõe-se ela singularmente na ficção e na poesia do 3.º modernismo português. Impõe-se estética e moral: mente. O inesquecível autor de Abelha na Chuva foi simultaneamente um solidário e um solitário. Solidário na sua comunhão com todos os que sofreram os efeitos funestos do libérticídio que obscureceu as letras portuguesas num tempo em que a ditadura as queria de joelhos no altar da repressão. Carlos de Oliveira foi dos que não se vergaram. E esse aprumo moral é a coluna vertebral da sua obra.

O Sr. Moura Guedes (PSD): - Muito bem!

A Oradora: - Mas, como disse o poeta, foi também um solitário, foi-o por esse sagrado direito à diferença, à distância questionadora que é a fonte de criação. Foi-o pelo apelo interior de uma subjectividade em que se cumpre essa vivência universal, lapidarmente apreendida por Lean Triamont na sua famosa frase: «a poesia é feita por todos.»
É deste extracto arquetípico que brota a última poesia de Carlos de Oliveira, tão rica de metamorfoses, de sortilégios e de metáforas que abrem mais mundos ao mundo dos homens.
Carlos de Oliveira morreu. No firmamento estreito de uma grande literatura sequestrada pela falta de incentivos e de dignificações que lhe dêem as asas que merece apagou-se uma vida animada pela grandeza moral e pelo sopro da criação poética. Comovidamente diremos: mais uma noite sem lua na literatura portuguesa.

Aplausos do PSD, do PS, do CDS, do PCP, do PPM, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Barrilaro Ruas.

O Sr. Barrilaro Ruas (PPM): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Pela minha voz o Partido Popular Monárquico vem associar-se sinceramente a este voto de pesar pela morte de um grande escritor.
Meu contemporâneo em Coimbra, Carlos de Oliveira ficará na história da literatura portuguesa como um dos fundadores de uma grande escola literária, embora filosófica e esteticamente discutível como tudo quanto é humano. Carlos de Oliveira fica bem marcado nessa história como representativo de valores sociais antes de tudo respeitáveis, porque são respeitadores do povo que pretende servir.
O PPM associa-se também à homenagem prestada à figura ímpar desse homem austero e simples que soube viver numa época entrecruzada de ideologias e de confusas perspectivas do homem e dos destinos, como um exemplo claro de simplicidade, de grandeza, de dignidade e de espírito de serviço ao bem comum.

O Sr. Moura Guedes (PSD): - Muito bem!

O Orador: - São apenas estas as minhas palavras, desejando que elas fossem ditadas por um sentimento profundo não apenas de humanidade, mas de portugalidade, porque Carlos de Oliveira é bem o representante de alguma coisa que é eterna no espírito português e a literatura portuguesa não pode deixar de ser no mundo inteiro uma representante e um monumento exemplares.

Aplausos do PPM, do PSD, do PS, do CDS, do PCP, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Gomes de Pinho.

O Sr. Gomes de Pinho (CDS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: São nestes momentos mais íntimos, quando descemos ao íntimo das coisas pela voz dos poetas e dos artistas, que nos sentimos mais solidários e menos divididos. É por isso que às palavras se sobrepõe muitas vezes os sentimentos.
O meu partido associa-se, com plena convicção, à manifestação de pesar pelo falecimento de Carlos de Oliveira. Ainda ontem tivemos oportunidade de nesta cidade propor e aprovar uma homenagem ao que foi, indiscutivelmente, um dos vultos mais significativos da literatura portuguesa contemporânea.
Personalidade multifacetada de artista e de cidadão, a sua obra constitui para a minha geração uma janela aberta sobre uma sociedade, cuja crise e transformação ele se apercebeu e traduziu de forma admirável.
Sobre ela, sobre o seu percurso como homem e como intelectual, sobre a sua intervenção cívica, já quase tudo aqui foi dito.
Resta-me formular o desejo e a convicção de que a sua morte física se não traduza no seu afastamento do nosso convívio quotidiano. Que a sua obra viva!

Aplausos do CDS, do PSD, do PS, do PCP, do PPM, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado Magalhães Mota.

O Sr. Magalhães Mota (ASDI): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Também nós queremos juntar a nossa voz a todos quantos nesta Assembleia já exprimiram o seu pesar pela morte de Carlos de Oliveira.
Nem sempre é fácil distinguir entre a sua poesia e a sua obra, porque em ambas Carlos de Oliveira está inteiro como homem vertical que sempre foi.
Quem admira o rigor, a limpeza da sua escrita, o espírito de contenção sabe também que o homem comprometido que sempre foi, sabia que o seu compromisso era maior quando a dádiva que esse compromisso representava era o esforço permanente e inter-