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8 DE JULHO DE 1981 3763

nós, tantas vezes, senão abelhas vergastadas pela chuva dos constrangimentos a confiança na marcha da história, que o fez proclamar, não raro, tal como no discurso poético:

Nunca o fogo dos faseias nas cegou
e esta própria tristeza não é minha:
fi-la das lágrimas que Portugal chorou
para fazer maior a luz que se avizinha.

Carlos de Oliveira, o homem discreto & simples, adverso aos galarins mundanos e aos aparelhos de fabricar os «pequenos deuses caseiros», mortos na mesma efemeridade estridente do aplauso de um dia, o companheiro disponível, afável e comedido de quantos fruíram do seu convívio fraternizador e radicularmente culto, o camponês que lavoirou os barros da escrita com o apego, a pertinácia e o empenho dos grandes, o antifascista sem claudicações, que, embora doente, descia à rua em cada jornada popular do 25 de Abril e do 1.º de Maio, o co-fundador do neo-realismo e o autor desse admirável romance que é Finisterra, decerto uma nova síntese no trajecto vital de uma arte empenhada e sem conformismos formais, que alguém já qualificou como um dos maiores que se escreveram entre nós, sabia bem que «não é lícito ignorar que [as palavras] podem ser uma arma de força terrível», «podem apoucar as verdades ou revelar-lhes os gumes finos e luminosos». Por isso, sem deixar de ousar a descida às cercanias enigmáticas do subjectivo, sem recusar (bem pelo contrário) o fascinante apelo da aventura estética, fez da sua obra um momento inesquecível de criatividade combativa, de lucidez interventora e de inteligência solidária. Um momento de fecunda libertação, ávido de devir, de força elementar e necessária na emancipação do homem português.
Tais razões, Sr. Presidente e Srs. Deputados, aqui enunciadas de passagem, bastam para recortar as dimensões da perda que a Pátria sofreu. E, sendo certo que a obra profundamente humana e bela, de invulgaríssima altura, de Carlos de Oliveira pendurará, assim se repercutindo e germinando na inenarrável cadeia produtora da nossa cultura viva, a verdade é que, nesta hora, que é a hora da saudade e da dor, não poderá esta Assembleia, representativa de todos os portugueses, eximir-se a exprimir, em nome do povo, o seu pesar. É o que, pelo Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português, aqui proponho. De voz toldada, mas confiante.

Aplausos do PCP, do PSD, do PS, do CDS, do PPM, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra o Sr. Deputado António Reis.

O Sr. António Reis (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: A rotina dos votos em que esta Assembleia da República vem sendo pródiga ameaça banalizar a evocação de um homem de que não podemos falar sem um tremor de incontida emoção e profundo respeito.
Mas, já que esta é a forma entre nós acordada de prestarmos homenagem aos grandes que nos vão deixando, não tenho dúvidas em associar-me, em nome do Grupo Parlamentar do Partido Socialista, ao voto aqui apresentado pelo Grupo Parlamentar do Partido Comunista Português.
A memória de Carlos de Oliveira é demasiado rica e pura para caber no acto evocativo de uma Assembleia hoje bem mais preocupada com outros rasteiros e decerto menos puros afazeres. Sejamos, porém, capazes de abrir um breve parêntesis no afã da nossa vida política, rasgando, por uma vez, o horizonte de um quotidiano cada vez mais estreito, para retermos a lição de um poeta-escritor que sempre soube viver no e para o essencial e o grande, nunca para o mesquinho e o acidental.
Tive o privilégio de privar com Carlos de Oliveira em várias ocasiões, mais regularmente antes do que depois do 25 de Abril, nos tempos duros da resistência, em que os seus versos eram «achas no lume da esperança». Raramente terei conhecido um autor tão adivinhado pela sua obra, ou uma obra tão adivinhada pelo conhecimento do seu autor. Vida e obra, homem e escrita, foram ambos um longo e doloroso, um exigente e rigoroso trabalho poético, sem concessão alguma à comodista facilidade com que outros tecem as suas vidas sem trabalho e sem poesia.
Viveu como morreu: «sobre o lado esquerdo». Ouçamo-lo:

De vez em quando a insónia vibra com
a nitidez dos sinos, dos cristais. E então,
das duas uma: partem-se ou não se partem
as cordas tensas da sua harpa insuportável.
No segundo caso, o homem que não
dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o
lado esquerdo e assim, deslocando todo o
peso do sangue sobre a metade mais gasta
do meu corpo, esmagar o coração.

Sobre o lado esquerdo, assim viveu e assim morreu Carlos de Oliveira. Ele que tão bem soube perscrutar as estrelas, o amor, as dunas, os camponeses, a gândara, a floresta, as bruxas dançando, o centro da Terra, o vento, a infância e «essas praias de cal, desertas, verticais».
Dele nos fica um sentido da dignidade que não se confundia com fúteis honrarias, antes exigia a feroz indignação perante a hipocrisia, a injustiça e a insuportável opressão de

Esses
que talharam
a imagem da ignomínia
na pedra da própria alma.

porque a verdadeira dignidade constrói-se nesta feroz indignação perante

Esses,
que amam escuramente
pelo coração dos revólveres
e pisam as estrelas
em nome dois direitos estelares,
depois de imaginarem para o sonho
calabouços polares.

Carlos de Oliveira morreu. Aprendamos com ele o sentido da verdadeira dignidade. Recuperemos a capacidade de nos indignarmos. E trabalhemos com rigor para varrermos da face da Terra tudo aquilo que nos deve indignar.