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quanto significa de intimidade a presença em França de centenas de milhares de emigrantes portugueses que trabalham, decerto, para o seu proveito e de Portugal, mas também para o progresso, o desenvolvimento e a prosperidade da França.

Quando Portugal se reencontra como país europeu e, no caminho da Europa, se empenha com todas as suas possibilidades, contando, ao enfrentar este grande desafio, com a compreensão e ajuda dos povos mais chegados a nós, ciente de que tem muito - em termos económicos, sociais e políticos - a esperar da integração europeia, mas que também a Europa alguma coisa tem recebido e pode esperar das possibilidades portuguesas, a presença em Portugal do Presidente da República Francesa não pode deixar de ser momento de uma reflexão. Nós esperamos que as comunidades europeias entendam que, sem Portugal, a Europa ficaria sempre mutilada, quer na economia, quer na política, quer nas potencialidades humanas ou estratégicas, quer na cultura, em suma, na sua integridade.

Quer se queira, quer não, é assim, e assim teremos de encarar as realidades, abrir os caminhos, correr os riscos, assumir as responsabilidades, aceitar os desafios.
Falando da Europa, mas também de França e de Portugal no contexto europeu, entre as pátrias como entre os homens, não há valor maior que a amizade. Portugal e França nasceram e são amigos. Evocar essa realidade e confiar nela penso que é uma saborosa imposição do realismo e um sinal de esperança, a que a inteligência e o afecto nos vinculam.

A liberdade conquistada e reconquistada em Portugal, em 1974-1975, foi também libertação da Europa Ocidental. A evolução da ciência e a permeabilidade cultural tornam hoje possíveis modelos de cooperação que antes o não eram. Tudo isto eu creio que nos exige a vontade política e a capacidade executiva necessárias para fazermos muito mais coisas em comum, bilateralmente e no caminho da Europa, para concretizar novos projectos, em factos, em realizações, em progresso, em justiça, em juventude, em aposta no futuro.
Sr. Presidente da República Francesa, sejam-me permitidas mais algumas palavras para explicitar que nos é grato prestar homenagem ao Presidente dos Franceses, mas que o é também fazê-lo à pessoa de François Mitterrand, o político e o lutador, independentemente da pluralidade de opções, que são legítimas e naturais entre os homens e são salutar sintoma de vitalidade dos povos.
Penso, Sr. Presidente, que é justo sublinhar aqui a capacidade rara que V. Ex.ª demonstra de lutar por um ideal, de recomeçar e de persistir até vencer, sempre pelo mesmo ideal. Muito daquilo que em V. Ex.ª hoje nos merece mais apreço é o valor, a fidelidade e a coragem nos momentos que lhe terão sido mais difíceis.

Nesta jovem democracia portuguesa, Sr. Presidente, mais do que imagens de fáceis ganhadores - se é que os há -, é-nos necessário e útil o exemplo daqueles que, como V. Ex.ª, no respeito por si próprio, pela vontade do povo e pelo seu ideal, sabem ser fiéis àquilo a que se comprometem e que assumem.

Para além de tudo o mais eu creio que, num país em que a vida e a experiência democráticas estão ainda numa fase de consolidação, em que as raízes

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populares e a estabilidade das instituições democráticas estão ainda por aprofundar, em que a reflexão e a coerência foram muitas vezes esquecidas nas conjunturas difíceis e em que a fuga para o domínio da irrealidade ou dos sonhos messiânicos não está ainda fora dos hábitos de alguns, eu creio que o exemplo maior que V. Ex.ª nos dá é o da vivência das regras da democracia e, adentro delas, o da tenacidade na luta pelo seu ideal, vivendo plenamente o princípio da alternância no Poder, de acordo com a vontade do eleitorado e com todas as suas consequências. A demonstração, enfim, de que a vitória é a hora mais alta de responsabilidade e do serviço do povo.
Sr. Presidente, o regime e as instituições democráticas portugueses precisam de ser fortalecidos e são-no, com certeza, quando a Assembleia da República recebe e vai ouvir um homem como François Mitterrand.
Portugal caminha para o futuro livre e justo que merece e conta com os amigos. É uma hora grande, nessa caminhada, aquela em que nos visita o Presidente da República Francesa.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

Aplausos do PSD, do PS, do CDS, do PPM, da ASDI, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Vai agora usar da palavra o Sr. Presidente da República Francesa.

O Sr. Presidente da República Francesa proferiu em francês o seu discurso, cuja tradução em português a seguir se apresenta.

O Sr. Presidente da República Francesa (François Mitterrand): - Sinto-me feliz e lisonjeado, Sr. Presidente da Assembleia da República, Srs. Responsáveis dos grupos parlamentares, Sr.ªs e Srs. Deputados, por poder fazer-vos esta visita, apesar da brevidade da minha estadia.
Experimento também nesta visita o prazer pessoal de reencontrar uma assembleia parlamentar. Pertenci às assembleias do meu país durante 35 anos. E uma das particularidades dos nossos usos faz com que o único sítio em França onde eu agora não posso ir seja precisamente o Parlamento Francês. Reencontro-me, assim, comigo próprio noutro país, uma vez que quiseram ter a amabilidade de me receber. Encontrar noutros países democráticos os eleitos do povo é para mim ocasião de sentir de um modo diferente as minhas origens. Ia dizer-vos, meus caros colegas, que é num parlamento - e eu conheço-lhe as dificuldades, as contradições, as morosidades, os defeitos, por eu próprio os ter vivido - que se formam os responsáveis do Estado, é aí que vivem os defensores da democracia, é aí que têm assento constante e se empenham os que amam e servem o povo. Seja qual for a vossa opinião política - e um parlamento é feito para isso, ou seja, para respeitar a representação do pluralismo -, cada um é igual ao outro nos seus direitos - e é bom que assim seja. Compete depois às maiorias e às oposições cumprir o seu dever.
Eis por que, depois dos encontros que tive ontem - tal como o que terei ,dentro de momentos, com o Presidente Eanes e os dirigentes do vosso país -, posso dirigir-me agora, através dos seus representantes, ao próprio povo português. Sinto-me também feliz por trazer a este povo as saudações do povo francês,