O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

14 DE DEZEMBRO DE 1981

bem como o testemunho da sua amizade fraterna e activa.
Os nossos dois países - já o dissemos várias vezes, mas é bom repeti-lo, fazendo-nos eco das palavras do Sr. Presidente da Assembleia da República, a quem agradeço tudo o que acabou de dizer, porque vai direito, para além da minha própria pessoa, ao coração do meu país -, os nossos dois países, dizia, têm múltiplas razões históricas, geográficas e culturais para manterem e reforçarem entre si relações privilegiadas. Queria acrescentar outra não menos fundamental e não menos imperiosa: Portugal escolheu, como a França, o sufrágio universal, símbolo da democracia, fonte de legitimidade. Escolha que podíamos, verdade seja dita, pressentir desde há muito. Lembro-me que já no decurso do século passado a monarquia constitucional em Portugal tinha permitido a expressão e, por vezes, a prática de ideias liberais, algumas delas avançadas relativamente à sua época, como a abolição da pena de morte, mais de um século antes de nós (pensemos o que pensarmos a este respeito). E a instituição da república confirmou, através de perigos que acabaram por ser ultrapassados, a evolução neste sentido.
Mas há alguns anos atrás, em 1974, rompendo deliberadamente com as forças do passado, vós juntastes-vos ao movimento que por toda a Europa - como eu gostaria de dizer e por todo o mundo! (Mas nós sabemos que assim não é) - faz erguer os povos em direcção à liberdade.
Tal escolha não era fácil, imagino. Vivi, como amigo e como vizinho, tentando compreender cada um dos momentos que marcaram a passagem para a democracia. Esta escolha não era fácil, dizia eu, e era necessária coragem para empreender ao mesmo tempo a transformação das instituições e das práticas sociais, adaptar a economia às exigências da era industrial e reconstruir sobre estas bases uma política nacional e internacional digna do grande povo que vós sois. Mesmo se cada um de vós, como acontece em todos os países livres, vê melhor o que há ainda para fazer do que aquilo que já foi feito, aí estão os resultados a demonstrar que tínheis, colectivamente, razão. Portugal, senhor de si próprio, construindo o seu futuro, é hoje - posso testemunhá-lo perante este parlamento - reconhecido, respeitado e apreciado por todos. É como amigo que me encontro esta manhã entre vós - espero que já o tenhais sentido. Representante de um povo que conhece e sente como nenhum outro a vossa vontade de progresso e de emancipação, é em nome desse povo que asseguro ao Portugal democrático a solidariedade da França - solidariedade nas nossas relações mútuas e, em primeiro lugar, através de 1 milhão, ou quase, de compatriotas vossos que vivem e trabalham em França. É graças a eles que o vosso país é conhecido, a maior parte das vezes, entre nós. É graças a eles que é estimado, não apenas porque o seu trabalho contribui para a nossa riqueza - mais ainda do que para a sua própria -, mas antes de mais e sobretudo porque esses homens, essas mulheres, essas crianças, são nossos hóspedes. Nós queremos - e tudo faremos nesse sentido - que em solo francês eles se sintam em casa, embora continuando profundamente ligados ao seu país natal. O primeiro acto do primeiro governo que formei, em Maio último, expressa esta vontade. O nosso secretário de Estado encarregado dos imigrantes, por vós convidado, já vo-lo afirmou na semana passada. Não forçaremos nem incitaremos nenhum imigrante a regressar, tal como respeitaremos o direito que cada um deles tem de enviar as suas economias, fruto do seu labor, para a sua terra.

Aplausos do PSD, do PS, do CDS, do PPM, da ASDI e da UEDS.

Se a situação do emprego em França não nos permite, infelizmente, acolher cada vez mais imigrantes, porquanto devemos guiar-nos pela apreciação das nossas próprias necessidades, isso não nos impedirá de velarmos por que aqueles que se encontram já entre nós continuem livres de ficar. Debateremos convosco, com o vosso governo responsável, o problema, a fim de sabermos, no quadro da futura Comunidade, de que modo agir no sentido de respeitar, nas melhores condições, o direito de cada um a circular, sem que isso seja causa de perturbação ou de desequilíbrio em qualquer dos nossos países. Tirando este problema, desejamos que se reforcem as nossas relações económicas, que se renovem os nossos laços culturais.
No sector industrial, em particular nos sectores mais avançados, em que se deve afirmar uma cooperação à escala europeia, os nossos interesses respectivos, bem compreendidos, impõem-nos que congreguemos esforços. Esta cooperação, baseada em projectos de desenvolvimento susceptíveis de beneficiarem de ajudas financeiras internacionais, poderá despontar amanhã. Ela existe já, mas deveria ser incrementada nos domínios da agricultura e do turismo. Do mesmo modo, no campo intelectual e artístico poderíamos desenvolver, no seio ou em torno do futuro Instituto Francês de Lisboa, que se transformaria, na realidade, num instituto franco-português, assim como em torno de todas as iniciativas culturais tomadas por Portugal, poderíamos desenvolver, dizia eu, um novo diálogo. Isso permitir-nos-ia tirar melhor partido das nossas capacidades de reflexão, de imaginação, de criação, por forma a adaptarmos aos tempos modernos, às formas modernas e ao estilo e às necessidades da geração em ascensão a nossa velha e comum cultura, sem esta correr o risco de perder a alma que a caracteriza.
Quantas vezes me acontece dizer em França aos meus concidadãos: existirá tentativa mais nobre para um responsável político do que tudo fazer para libertar as forças criadoras? Isto é talvez ainda mais válido no domínio do espírito do que no domínio das trocas e da produção «libertada» das forças produtoras, o que significa - porque todos sabem aqui quais são as minhas opções políticas - que a palavra «libertada» tem de ser entendida na óptica das necessidades modernas, passados quase dois séculos de sociedade industrial, com a consciência que todos temos de que a liberdade não se encontra sempre exactamente onde habitualmente a colocam.
Esta solidariedade não deve, de modo nenhum, limitar-se ao campo, mesmo alargado, das nossas relações mútuas, devendo estender-se às nossas relações internacionais e, em primeiro lugar, ao nosso espaço natural, quero dizer, a Comunidade Europeia.
Dou-me conta agora de que eu disse «e, em primeiro lugar, ao nosso espaço natural». Nosso quer dizer vós e nós. Não se trata aqui exactamente, parece-me, da Comunidade Europeia, mas do espaço natural, a