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10 DE MARÇO DE 1982 2613

atirar autarca contra autarca, interior contra litoral, Governo contra província. E afirmo, e repito, «ridícula guerra» porque, na realidade, ela apenas, existiu na cabeça de alguns frustrados autores dessa montagem e nas suas infelizes penas, ávidas de escândalos políticos e alheadas do dever ético de levar ao grande público os elementos essenciais que permitissem formar conscientemente um juízo de valor sobre a oportunidade da construção da nova ponte ferroviária.
Só a ânsia de desencadear divisões dentro da AD explica o facto de se ter omitido gravemente a circunstância de a nova ponte ferroviária ser condição essencial do desenvolvimento de todo o interior nortenho e, por consequência, condição do cumprimento do próprio projecto da Aliança Democrática.
Perguntar-me-ão agora qual o motivo por que novamente trago a es:a casa tal assunto. Muito simples. Neste momento, ainda não tomaram posse os elementos du respectivo gabinete e, inexplicavelmente, os que tentaram protelar o início da construção, invocando a defesa de interesses locais, estão agora quedos e mudos, revelando à saciedade a mesquinhez do seu egoísmo político e a falia de visão para a realização dos projectos nacionais que o governo AD pretende levar a cabo.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: A ponte ferroviária de D. Maria Pia, inaugurada em 1877, ultrapassou há muito os limites temporais de bons e eficientes serviços normalmente admitidos para este tipo de estruturas.
Apesar do carinho que os ferroviários lhe devotam na sua cuidada conservação, a Ponte de D. Maria Pia caminha, naturalmente, para a ruína, atendendo ao que dela se exige.
A necessidade de se garantir o mínimo de segurança para as circulações vai tornando cada vez mais cara e complexa essa conservação, aumentando, por sua vez, o risco de avarias, com consequências desastrosas na qualidade do tráfego.
Estes factos desde há muito impunham, logicamente, a sua substituição, mais que não fosse pelas anti-económicas limitações de cargas e velocidades exigidas para garantir um mínimo de segurança.
Apesar do conhecimento destes factos, o projecto da nova ponte ferroviária foi sendo empurrado de Administração para Administração, no desfiar burocrático do centralismo do anterior regime e da falta de vontade política dos governos que antecederam o da AD.
Finalmente, em 1981, o VII Governo veio dar satisfação às aspirações do homem do interior nortenho, nomeando uma comissão que num breve espaço de tempo apresentaria uma proposta de implantação do traçado da nova ponte ferroviária, de via dupla, que ligará as estações das Devezas e de Campanhã.
Parecia que as populações esquecidas do Douro, do Minho e de- Trás-os-Montes iriam passar a ter, a breve trecho, circulações ferroviárias em número suficiente e em condições que constituíssem motivo de progresso e de desenvolvimento das suas regiões, acabando u estrangulamento causado pelo garrote injusto da alquebrada Ponte de D. Maria Pia.
Mas assim não aconteceu. Todos os que por desinteresse, por incompetência, por falta de participação, entravaram ao longo de dezenas de anos o projecto da nova ponte acordaram do sono letárgico em que se encontravam, dando alimento a questiúnculas políticas, logo aproveitadas para o brandir de interesses locais vesgos e de bairrismos tolos que apenas prejudicam o interesse do todo nacional.
E, para completar este quadro, omitiram-se tomadas de posição dos próprios autarcas, para que aos olhos do público aparecesse um irremediável conflito entre o Governo e o poder local AD que adiasse mais uma vez a construção da nova ponte do Douro e satisfizesse os apetites saloios da baixa política.
Convém recordar que a Assembleia Municipal do Porto, em reunião realizada em Março de 1981, aprovou uma proposta do Partido Popular Monárquico, com votos da maioria AD e de parte dos deputados municipais socialistas, que propunha ao Governo a construção de uma nova ponte ferroviária sobre o Douro, cujo início devia ter lugar no mais curto espaço de tempo, sem contudo ser inviabilizada a construção de uma nova travessia rodoviária de cota alta, nem devendo ser suspensos os estudos necessários a este último projecto.
Os responsáveis autárquicos de um órgão com u importância da Assembleia Municipal do Porto viam com natural apreensão a saturação a curto prazo das pontes rodoviárias existentes, mas sabiam, realisticamente, que os estudos sobre a colocação de um novo atravessamento e os estudos sobre a própria circulação rodoviária dentro da cidade do Porto estavam ainda muito longe de ser ultimados, não sendo possível, por consequência, que a construção da nova ponte ferroviária adormecesse, mais uma década, à espera de uma ideal ponte mista.

O Sr. Lemos Damião (PSD): - Muito bem!

O Orador: - Mas essa proposta do PPM, bem como a ulterior decisão da Assembleia Municipal, eram certamente elementos incómodos para os fins que ÁS propunham as «sócias» e os «peraltas» desta nova versão da guerra do «Judeu», razão por que foram esquecidas ao canto da gaveta e substituídas, com um descaramento sem limites, por uma ridícula comparação do número de passageiros que diariamente faz a travessia do rio Douro por meios ferroviários com o que através dele viaja por outros meios, tirando-se daí a bizarra fundamentação para a não construção da ponte ferroviária.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: O governo AD prometeu ao eleitorado rasgar rapidamente o acesso do interior ao litoral, removendo obstáculos, o burocratismo e a teimosia de gerações.
A sua actuação fez renascer a esperança ao homem da província. Ora, é em nome dessa esperança que venho protestar contra o inexplicável silêncio que recaiu sobre a construção da ponte ferroviária do Porto. Assim, exijo saber a data em que toma posse o gabinete da ponte, a data em que se inicia a sua construção e, igualmente, pretendo saber quando são postos à discussão pública os estudos que viabilizem a construção do terceiro atravessamento rodoviário sobre o rio Douro.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: A cidade do Porto, através da história, tem sido o sujeito colectivo e a legítima representante das regiões mais esquecidas do País na luta contra o centralismo e contra as assimetrias existentes.