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3228 I SÉRIE -NÚMERO 77

pobres, qualquer que seja a origem dessa pobreza. Bastaria esta regra fundamental da cruzada vicentina para que todos nos sentíssemos arrebatadamente atraídos para essa obra: todos aqueles que lutam contra a massificação de todas as expressões da sociedade actual e, apesar de declararem defender os direitos fundamentais do homem, assoberbados como estão com os problemas colectivos, com as grandes iniciativas de fomento que prosseguem a resolução da problemática planetária que afecta a comunidade inteira, acabam por, nas suas formas de actuação cultural, social e económica, perder não poucas vezes de- vista os dramas individuais que contorcem o vizinho do lado, fechando-se cada um, egoísticamente, dentro de si próprio e observando a miséria como simples laboratório, ponto de partida das grandes soluções universais, das grandes correntes filosóficas ou então de simples tema para manifestações culturais cujo fundo se desvanece rapidamente.
Ora, Sr. Presidente e Srs. Deputados, quando a principal forma de actuação de uma sociedade como as conferências de S. Vicente de Paulo é a visita domiciliária da indigência material e moral, não podemos deixar de considerar que essa fecunda actuação - para além do seu fundamento especificamente teológico ou espiritual - tem, nos tempos actuais, um significado essencial, demonstrativo de que o homem não perdeu os valores que o empurraram para os grandes empreendimentos do passado e de que, no silêncio do anonimato, no meio dos néons, dos engarrafamentos de trânsito, dos horários rígidos da semana de trabalho, ainda há quem reserve um instante para valer aos seus irmãos mais infelizes, a quem a falta de saúde e a privação da liberdade, de instrução e de fé bateram à porta de maneira mais marcada.
É esse espírito de dádiva total que não posso deixar hoje de evocar.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Por iniciativa de 3 movimentos de inspiração vicentina, Congregação da Missão, Filhas da Caridade e Sociedade de S. Vicente de Paulo, estão a realizar-se em Portugal as comemorações do IV Centenário de S. Vicente de Paulo.
O Partido Popular Monárquico entende que a figura ímpar de S. Vicente de Paulo, tão grata aos Portugueses em geral e aos cristãos em particular, e o espírito e amor fraternal de que sempre soube imbuir as suas actividades, e que ainda hoje permanecem em tantas das suas obras, nos impunham, neste Parlamento, umas breves palavras evocativas da sua luminosa figura e da sua extraordinária obra.

A Sr.ª Amélia de Azevedo (PSD): - Muito bem!

O Orador: - S. Vicente de Paulo nasceu em Pouy, perto de Dax, em França, em 24 de Abril de 1581. Mal foi ordenado sacerdote, apenas com 19 anos de idade, pôs a sua vida inteiramente ao serviço dos mais desprotegidos, doando-se integralmente à comunidade onde vivia. Com um poder de iniciativa raro, e tantas vezes sofrendo de incompreensões e injustiças dos seus coevos, fundou, em 1617, as Caridades em Chatillon-les-Dombes, organizando, em âmbito paroquial, os cristãos para auxiliarem os seus vizinhos pobres e doentes. Com uma firmeza inexcedível, organizou socorros às vítimas das guerras da Fronda e dos Trinta Anos e conseguiu melhorar significativamente as condições de vida dos forçados das galés. Igualmente fundou uma obra de recolha e protecção de crianças abandonadas.
Além da dimensão assistêncial da vida de S. Vicente de Paulo, não se pode deixar de evocar igualmente a sua acção missionária e de evangelização, quer junto das populações rurais do seu país, quer na Polónia e na Itália, através da Congregação da Missão dos Padres Lazaristas, quer no continente africano, através de missões constituídas em Argel e em Madagáscar.
A sua obra foi perpetuada no tempo pelas comunidades cristãs. Assim, sob a inspiração da sua vida, ainda existem actualmente numerosos movimentos e congregações, dos quais se destacam a Congregação da Missão, fundada em 1625, a Companhia das Filhas da Caridade, fundada em 1633 por S. Vicente de Paulo e por Santa Luísa de Marillac, e as já referidas Caridades. Mais tarde, Frederico Ozanam, em 1833, fundou as conferências de S. Vicente de Paulo, que em todo o mundo mobilizam uma legião de mais de l milhão de pessoas, sacerdotes e leigos, que, desinteressadamente, ajudam os elementos mais pobres e doentes da comunidade, levando o conforto às prisões e aos bairros de lata, sob a bandeira da obra de S. Vicente de Paulo.
S.S. o Papa João Paulo II, na carta dirigida ao superior geral da Congregação da Missão, na sessão de abertura das comemorações centenárias, referia-se a S. Vicente de Paulo como um santo moderno que encontra hoje o caminho dos novos pobres nas concentrações urbanas do nosso tempo.
Na realidade, cerca de 12000 vicentinos das conferências de S. Vicente de Paulo portuguesas praticam quotidianamente o bem, levando socorros aos seus irmãos mais infelizes, cumprindo corajosamente o velho preceito de dar com a mão direita sem que a esquerda o saiba.
E é a essa legião de homens bons e de espírito esclarecido, que calcorreiam as zonas mais pobres das grandes cidades, levando a ajuda material e moral a todos os necessitados, sem distinção de credos políticos ou religiosos, que eu saúdo efusivamente quando evoco, no IV Centenário, a figura, riquíssima de conteúdo, de S. Vicente de Paulo.

Aplausos do PPM, do PSD e do CDS.

O Sr. Presidente: - Ficam inscritos para intervir acerca da anterior declaração política, e de acordo com o anteriormente estabelecido, os Srs. Deputados Adriano Rodrigues e Portugal da Fonseca.
Também para uma declaração política, tem a palavra, pelo Grupo Parlamentar do PCP, a Sr.ª Deputada, Ilda Figueiredo.

A Sr.ª Ilda Figueiredo (PCP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Antes de iniciar a minha intervenção, queria referir que ela foi preparada pelo meu camarada Lino Lima, que, por se encontrar doente, não pode estar presente. Por esse motivo, vou produzi-la eu.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: O Grupo Parlamentar do PCP tem muitas vezes denunciado a acção governamental de restrição das liberdades e o seu significado na actual situação política. Essa acção desenvolve-se em todos os planos e não se circunscreve ao Governo. Ela repercute-se na Administração Pública aos mais diversos níveis. E o caso dos governadores civis. Eles são nos distritos o retrato do Governo, reflectem as suas orientações, usam os mesmos métodos, visam os mesmos objectivos e provocam idênticos conflitos. Ora é o governador civil de Aveiro que põe em funcionamento mecanismos pidescos e informação sobre a actividade de organizações