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23 DE ABRIL DE 2982 3231

Será que com o pagamento das taxas moderadoras os Transmontanos irão passar a viver melhor e a ver minimizadas todas as suas carências no campo da saúde? Como povo de largas tradições na fé e na esperança, ele aguarda sempre melhores dias.
Porque não foi ainda criada e não funciona a Escola de Ensino de Educação, já tantas vezes anunciada?
Não terão os jovens transmontanos o direito de se formarem na sua terra, para aí se fixarem e desenvolverem todas as potencialidades que ela possui?
Será necessário abandoná-la desde sempre, para virem beber a cultura aos grandes centros litorais, onde mais tarde, e dadas as circunstâncias, se vêm a radicar?
E já que falei em cultura, que se tem feito pela cultura do Nordeste, região riquíssima e oriunda das mais nobres origens culturais?
Que ajuda se tem dado aos centros culturais para que estes engrandeçam o seu património?
Apoie-se mais a cultura nordestina, pois saber-se-á algo mais da história rica do nosso povo.
No sector agrícola existem potencialidades no Nordeste que de modo algum estarão a ser aproveitadas. Antes, porém, a vida da agricultura no Nordeste torna-se cada vez mais degradada e tudo porque não existe um apoio correcto neste campo.
Por exemplo, como é que se permitiu uma certa adulteração do vale da Vilariça, zona com capacidades sem limites, quer no campo hortícola, quer no campo frutícola?! Talvez para aumentar ainda mais as importações dos produtos alimentares!
Falo da adulteração de uma região rica onde foram instalados vários milheiros de vinha pelos colonialistas ingleses que mais não visam senão o lucro abastado em troca da exploração racional de produtos mais adequados àquela região. O desenvolvimento florestal está a conhecer maior arranque no Nordeste, sucesso este que se poderá vir a perder se a actual lei dos baldios sofrer grandes alterações.
Na agro-pecuária o desenvolvimento está muito longe de ser satisfatório, pois o agricultor não tem nenhum apoio dos serviços, sente-se só, entregue ao seu fatalismo. Urge apoiá-lo cada vez mais.
E o que se fez já para melhorar as vias de acesso? Foi, por exemplo, o encerramento da linha do Sabor?
Não se compreende, Sr. Presidente e Srs. Deputados, que o Sr. Director-Geral de Transportes Terrestres e o Ministério dos Transportes tenham prometido, há três anos, às autoridades municipais do distrito que iria fazer um relatório sobre a viabilidade ou inviabilidade da linha e que o mesmo relatório até agora não tenha chegado!
Será por falta de transportes?...
Com isto, as populações utentes e os agricultores vêem o seu dia-a-dia agravado em termos económicos; o transporte dos adubos, por exemplo fica, mais caro, o das sementes, rações, etc., porque é preciso estar a encher o bolso aos empresários de camionagem, que cobram grandes sobretaxas de transportes.
A forma como são escoados os produtos dessa grande zona agrária é colocá-los nas mãos dos grandes intermediários que os compram por uma tuta-e-meia, vindo depois comercializá-los aos grandes centros a preços de ouro.

O Sr. António Arnaut (PS): - Muito bem!

O Orador: - Apelo desde já para que rapidamente se viabilizem os transportes na linha do Sabor, indo assim contribuir para a melhoria de vida de habitantes que tiveram por destino viver numa região quase ignorada pelo Terreiro do Paço.
Não pode continuar a ser um castigo nascer e viver em Trás-os-Montes!
Que este 8.º aniversário do 25 de Abril constitua, de facto, uma réstea de esperança de melhores dias para o povo do Nordeste que nem sequer ainda sentiu a força e a garantia da democracia, alcançadas no 25 de Abril de 1974.
Termino com uma nota de optimismo: que o futuro seja mais pródigo, mais compensador para Trás-os-Montes do que foi o passado e tem sido o presente.

Aplausos do PS e do PCP.

O Sr. Presidente: - Ficam inscritos para a próxima sessão, para pedir esclarecimentos ou formularem protestos, os Srs. Deputados João Gonçalves e Daniel Bastos.
Tem a palavra, igualmente para uma declaração política, o Sr. Deputado Raúl Rêgo.

O Sr. Raúl Rêgo (PS): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: No Porto vai ser prestada homenagem no sábado ao sr. D. António Ferreira Gomes, bispo resignatário que, dentro de dias, abandonará o governo da diocese.
Essa homenagem deveria revestir-se de carácter nacional, na altura mesma em que o País comemora o oitavo aniversário da reconquista das liberdades e dos direitos humanos. Porque, com efeito, D. António Ferreira Gomes foi a única voz do prelado português no continente a erguer-se, enfrentando o tirano e chamando a atenção de todos, não só para a grande miséria dos campos, numa pastoral, mas para o abafamento das liberdades públicas e para os atentados constantes aos direitos humanos em Portugal.
De 1926 a 1958, não houve um bispo português que tivesse a coragem de denunciar o totalitarismo e seus métodos desumanos. Pelo contrário, apareciam por toda a parte a enaltecer o ditador e louvar-lhes as virtudes. Esse compromisso danado rompeu-o D. António Ferreira Gomes, em atitude de grande coragem. A sua carta foi cortada pela censura; tentaram abafá-la; mas correu de mão em mão, como uma mensagem de esperança. A verdadeira mensagem evangélica.
Já o P. Joaquim Alves Correia havia sido exilado para os Estados Unidos, em 1946; já o P." Abel Varzim, depois de deputado à Assembleia Nacional, fora relegado para a paróquia da Encarnação, primeiro e depois se lhe fixará residência na sua aldeia minhota de Cristelo. O silêncio era denso, de cortar à faca e a hierarquia só o rompia para cantar o Te Deum nas catedrais, nos dias solenes do regime.
O bispo do Porto descomprometeu a Igreja com a sua atitude. Por isso se lhe trancavam as fronteiras da pátria em 1959. E os seus colegas no episcopado não reagiram, nem os jornais católicos desafiaram a censura uma só vez. Como não tinham reagido com os casos de Alves Correia e Abel Varzim, como não reagiriam com o P." Pio, de Arroios, nem sequer com o caso do cónego Manuel das Neves, enterrado de noite, pela Pide, no cemitério de Soutelo, junto a Braga.
Em 1967, o Papa Paulo VI vinha a Fátima e recebia o beija-mão de Américo Tomaz e de Oliveira Salazar.
O bispo do Porto, porém, continuava exilado. E continuou.