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312 I SÉRIE - NÚMERO 10

E verdade que não estava quantificado esse subsídio mas, de qualquer modo, previa-se um subsídio. A ANOP viria a receber cerca de metade do que habitualmente recebia nos anos anteriores, perdeu grande parte dos seus trabalhadores e hoje é um belo caos. É um belo caos administrativo e organizativo, sendo também hoje uma agência que claudica e que agoniza. O problema é o de saber se queremos que ela continue a ser ANOP ou se queremos decretar-lhe a «sentença de morte».
Se lhe decretarmos a < sentença de morte» ficaremos dentro em breve exclusivamente nas mãos de uma agência noticiosa dominada pelo sector privado da informação - disso não tenho dúvidas- que vive, na quase exclusividade ou numa percentagem de cerca de 80 %, de subsídios ou de pagamentos de serviços ao Estado ou ao sector público da comunicação social, o que não é uma situação, a meu ver, que pareça exaltante.
Não valia a pena ter-se feito esta guerra para se substituir uma coisa que, provavelmente, vai funcionar pior ou que, então, só funciona bem porque o Estado, na verdade, resolve custear o preço dos serviços que ela lhe presta, quaisquer que sejam. '
A ANOP tem, contudo, ela própria problemas terríveis. Tinha 261 trabalhadores de que não carecia, pois não precisava de tantos trabalhadores. A percentagem entre jornalistas e trabalhadores de carácter administrativo era relativamente má, ou seja, devia ter muito mais jornalistas do que trabalhadores do sector administrativo.
Essa proporção é ainda má e, neste momento, a ANOP tem cerca de 200 trabalhadores- enquanto a NP bem apenas 80.
Cada trabalhador custa à empresa qualquer coisa parecida com 55 contos per capita, entre salários, encargos saiais, serviços extraordinários, etc. Há, na verdade, uma certa anarquia em termos de horários, isto é, praticamente ninguém está sujeito a horário e os serviços são maus.
Isto é um pouco fruto de um pecado original porque a empresa foi crescendo, ano a ano, em trabalhadores. Devo dizer que, fundamentalmente, nos anos de 1979/80/81, a empresa cresceu terrivelmente em número de trabalhadores.
Por todas essas razões a ANOP é hoje uma empresa que só se for objecto de um profundo esforço de saneamento financeiro e de uma profunda reorganização, com sacrifício de alguns trabalhadores, aceite ou imposto, é que pode ser viabilizada.
Entendo que, pessoalmente, apesar de tudo, deve ser feito um esforço de saneamento e de viabilização da ANOP. Entendo também que os seus trabalhadores compreenderão que a situação se agravou de tal maneira que hoje terão de ser sacrificados alguns para a empresa não ter de sê-lo.
Isso, no entanto, são problemas a discutir com os trabalhadores. Estamos neste momento a encará-los. Em breve levarei ao Governo uma proposta. Eu ou o Sr. Secretário de Estado de quem directamente depende a ANOP, já que ele, sim, depende de mim.
Parece que não se vêem muitas soluções: quando se fala com gente do lado da NP a proposta é de extinção da ANOP; quando se fala com trabalhadores do lado da ANOP o que se diz é que se extinga a NP.
Há alguns que sendo um pouco menos apaixonados dizem para se fundirem as duas agências, o que é impossível já que não pode impor-se uma fusão a uma empresa que é privada. Há outros que dizem para se manterem em exploração as duas agências, mas em igualdade de condições proporcionadas pelo próprio Estado.

Não sou dos que se apavoram por pouco e devo dizer que não há nenhuma agência no estrangeiro que não seja fortemente financiada pelo Estado, salvo talvez a Reuter, que tem outro tipo de actividades. São os casos, por exemplo, da France-Press e da EPI espanhola.
A EPI espanhola recebeu em 1982 1 200 000 contos do Estado e no fim do ano, normalmente em Setembro, recebe do Estado um acréscimo de dotação.
Todos os países compreendem que para haver um serviço noticioso de que o principal beneficiado é o próprio Estado - sobretudo em casos como este em que não interessa à ANOP explorar comercialmente uma delegação no Maputo ou em Angola, que só é rentável em termos políticos para o Estado português seja normal que, exactamente por ser o principal beneficiário desses serviços, o Estado os pague.
O mesmo se diga do funcionamento junto das comunidades. Estas não rendem comercialmente para a ANOP o que ela gasta com essas comunidades mas rendem para o Estado vantagens enormes. O Estado não deve, portanto, ser mesquinho, a meu ver, na maneira como encara aquilo com que financia os défices de uma empresa deste género.
Devo dizer que a ANOP, no decurso de todos estes anos, somou de défices menos de 900 000 contos. Como já disse, só no ano de 1982 o Governo espanhol fez uma dotação para a EPI de 1 200 000 contos, embora a Espanha seja um país maior do que é Portugal - mas talvez não tenha exigências junto das comunidades emigrantes e das ex-colónias tão grandes como tem Portugal.
Não me impressiona muito, portanto, que possam existir 2 empresas em igualdade de condições, concorrendo entre si, depois de um saneamento financeiro e após uma reorganização dos serviços da ANOP, como se impõe.
Será porventura, sem me comprometer, mais ou menos nesse sentido que me vou orientar.
Devo dizer que isso significará que o Estado dispenderá por ano qualquer coisa parecida com 280 000 contos com os serviços de 2 agências concorrentes e a concorrência decerto criará estímulo entre elas, até que possivelmente ambas coexistam ou uma delas extinga a outra, depois se vê aquela que tiver «mais unhas saberá tocar melhor viola».
Penso que um subsídio desta ordem cabe perfeitamente nos serviços que essas empresas prestam, ou podem prestar, ao Governo português. Não me impressiona nada um subsídio anual de 240 000 contos para um serviço deste género. Portanto, pessoalmente, estou aberto à hipótese, inclusive, da coexistência das duas empresas, até porque àqueles que dizem «mate-se a NP», respondo que o Governo não tem neste momento nenhuma possibilidade de fazer - outra coisa que não seja respeitar honradamente o contrato que estipulou com a NP. Em relação à ANOP tem compromissos de outra ordem. E uma empresa cuja situação se deve em parte à culpa do próprio Estado, quer porque deixou de financiar o ano de 1982 - tal como estava previsto nos seus estatutos -, quer porque mandou