17 DE NOVEMBRO DE 1964 953
Procedeu de maneira avisada ao fazê-lo, e as justificações que apresenta são absolutamente convincentes.
De facto, não só em Portugal mas em quase todo o mundo civilizado o turismo é hoje uma das actividades mais desenvolvidas, e numa fase de enorme expansão nos países onde tal actividade é incipiente. Está nesta posição Portugal.
Embora há muitos anos numerosas pessoas procurassem para gastar os seus sócios ou descansar de uma vida muito activa o excelente clima da Madeira e da Gosta do Sol, a verdade é que não havia em Portugal turismo propriamente, dito. E nem é de admirar que assim acontecesse. E ainda hoje, apesar de tudo o que se tem feito, Portugal está longe de ser um país de turismo propriamente dito.
Quando na Suíça, França e Itália já o turismo era uma verdadeira indústria, e rendosa, o nosso país preocupava-se apenas com os problemas de «baixa política», vivendo numa verdadeira «balbúrdia sanguinolenta».
Restabelecida a ordem, iniciado o período de progresso financeiro, económico e- social em que temos vivido nos últimos 35 anos, foi possível voltar os olhos para o turismo, que poderia constituir uma fonte de divisas para um país que tanto delas necessitava.
Alguns particulares, sem olharem a sacrifícios e apenas desejando o progresso das regiões onde viviam (a secção lembra os nomes de Fausto de Figueiredo e Alexandre de Almeida), investiram grandes somas de capital para dotarem o País com alguns hotéis e amenidades que chamassem os estrangeiros ansiosos de ver as nossas belas paisagens e monumentos e de gozar o nosso clima e sol. Mas as comunicações eram difíceis e caras, dada a distância entre nós e os países fornecedores de maiores contingentes para o turismo.
As estradas em Portugal e Espanha eram más, os comboios poucos, caros e com linhas péssimas ao atravessarem a vizinha Espanha e a primeira parte do percurso em Portugal. Apenas a via marítima podia trazer turistas, mas mesmo assim encontrando inúmeras dificuldades.
Depois tudo mudou. Com o aparecimento da aviação comercial, com a reparação das estradas e vias férreas, com o embaratecimento e popularização dos automóveis, que se tornaram acessíveis a pessoas de médios e até de pequenos recursos, as vias de acesso a Portugal simplificaram-se imenso e o fluxo de turistas começou. De princípio timidamente, depois com maior vigor e actualmente em pleno desenvolvimento.
Apesar de ser uma indústria a dar os primeiros passos, constitui já a nossa maior fonte de divisas, ultrapassando as receitas obtidas por quaisquer das mercadorias por nós exportadas.
E, como bem se nota no projecto de Plano Intercalar, a indústria de turismo necessita, para se estabelecer e manter, pequeno concurso de mercadorias estrangeiras, o que se reflecte favoravelmente na balança de pagamentos. Quer isto dizer que a grande maioria das divisas obtidas não precisa de sair do País ao serviço da actividade que as obteve.
2. No projecto do Governo nota-se que a taxa média anual de entrada de estrangeiros no País é de 13 por cento, embora com grande irregularidade. A secção, porém, não apreendeu a razão pela qual se foi buscar a média do decénio, neste caso tão pouco significativa. De facto, o grande crescimento apenas começou depois de 1958. Os 13 por cento são, pois, muito inferiores à realidade dos últimos anos, mesmo tendo em conta o progresso verificado no ano em curso.
Em 1963 entraram em Portugal 514 000 estrangeiros, dos quais 26 por cento espanhóis, 17 por cento franceses, 17 por cento americanos, 12 por cento oriundos do Reino Unido e 6 por cento alemães. Apenas contando com as dormidas em hotéis e pensões, a duração média da estada dos turistas estrangeiros foi de 3,7 dormidas.
No referido projecto afirma-se que a receita total derivada deste afluxo turístico foi de 2 142 000 contos, o que se explica pela boa proporção de visitantes americanos e ingleses. E diz-se em seguida, que a receita por turista orçou, em 1962, por 123 dólares, enquanto na Jugoslávia, em Espanha e na Itália as quantias correspondentes foram de apenas 32, 67 e 104 dólares, respectivamente.
Sem querermos pôr em dúvida a autenticidade dos números ou a seriedade dos métodos pelos quais foram obtidos, parecem-nos estes algarismos optimistas em demasia.
Conhecidos os poucos produtos que os estrangeiros podem comprar em Portugal, sabido que quase não temos actividades em que possam gastar o seu dinheiro (se exceptuarmos o jogo, onde exista, apenas temos o golf do Estoril e pouco mais), comparando com a Itália e Espanha, pensamos que, de facto, os números são elevados de mais. Não se terá tomado como receita do turismo certas remessas em espécie feitas por emigrantes portugueses às suas famílias e que vão procurar mais tarde as casas de câmbio? Sem querermos ser pessimistas, pensamos que os números citados devem ser tomados com reservas e talvez mereçam um exame mais cuidadoso.
Voltando aos elementos de informação do Governo: em 1963 o turismo interno repartiu-se regionalmente por 38 por cento no Norte, 46 por cento no Centro, 12 por cento no Sul e 4 por cento na Madeira, isto excluindo os hotéis de 3.ª classe.
3. Quanto à distribuição de dormidas, nota-se que tem havido um ligeiro desvio, da parte dos estrangeiros, das pensões e hotéis de 3.ª classe, em favor dos estabelecimentos de 2.ª, 1.ª e de luxo. Como se dirá mais tarde, a péssima qualidade dos hotéis e pensões de 3.ª classe explica, em grande parte, esta fuga para os de maior categoria.
Lisboa e arredores continuam a ser a maior atracção turística, talvez por serem a região mais bem apetrechada com hotéis e pensões, mas é de notar que aumenta o interesse pelas praias do litoral, sobretudo pelas do Algarve e Madeira.
4. Refere-se depois o projecto de Plano Intercalar às acentuadas flutuações estacionais de afluxo turístico. Como é lógico, visto coincidir em regra com as férias de grande quantidade de turistas, concentra-se nos meses de Julho, Agosto e Setembro (em 1963, 13,2 por cento, 18,2 por cento e 11,6 por cento, respectivamente). O «mês de ponta» é Agosto. Novembro, Dezembro e Janeiro são os meses mais fracos.
As flutuações do turismo interno são menores, o que se explica pelas menores distâncias a percorrer.
5. Como é natural nesta fase de crescimento, o aumento da capacidade hoteleira tem sido mais lento do que o do afluxo turístico. O maior crescimento tem sido em hotéis de luxo e de 1.ª classe, pensões de luxo e de 1.ª classe, estalagens e pousadas. No projecto afirma-se que, mesmo assim, é quanto aos estabelecimentos hoteleiros de maior categoria que a necessidade de aumento é mais notória, dado ser quanto a eles que se tem registado a maior procura.
Não se faz qualquer referência ao chamado turismo barato - o dos parques de campismo e das roulottes, albergues da juventude, aldeia de férias, etc. Mas ele