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66 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 56

ainda não reagimos militarmente para restabelecer o contacto com os territórios criminosamente usurpados. Outros classificarão de imprevidência a escassez verificada nesses dois pequenos enclaves de elementos de comunicação e de defesa.
Duas palavras rudes em resposta: Dadrá e Nagar Aveli foram males necessários. Males que vieram para bem. Males para a União Indiana, pois revelaram ao Mundo a perfídia da sua doutrina de pacifismo e não violência.
Borbulhas de origem suspeita na foce encantadora da Grande Índia. Espinhos, manchados de sangue e de lama, a desfearem para sempre uma política.
Dadrá e Nagar Aveli, isolados em território inimigo, cìnicamente bloqueados pela neutralidade, pelo pacifismo e pela não violência, não tinham defesa militar possível. A ingénua estratégia política da União Indiana a ninguém conseguiu enganar. Ao ferir-nos afrontosamente em Dadrá e Nagar Aveli, por meio de bandos armados de falsos voluntários, lavava as mãos como Pilatos e não se considerava agressora. Mas tentava-nos a reacção militar, que seria pretexto para nos atribuir as culpas da guerra. Em vez de cairmos no logro, apelámos para o direito internacional, e vimos colocarem-se a nosso lado grandes potências espirituais e materiais. Esclarecida a opinião internacional, ficou barrado, ao menos por algum tempo, o caminho ao invasor.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Depois de expostos os factos passados, Salazar veio dizer-nos aqui, com o realismo que constitui uma das razões da sua força, que não pode prever-se a evolução do infeliz caso da Índia:

A reflexão mais concentrada, a meditação mais profunda sobre os dados do problema, não me permitiram chegar a uma conclusão mesmo medianamente segura.
E, no entanto, tínhamos elementos para concluir, se as coisas devessem passar-se como o direito impõe, a razão aconselha e as normas de convivência internacional exigem.

Eis aqui, como realidade desoladora, a falta de confiança na aplicação das boas regras, quer do direito, quer da razão e da convivência internacional.
De um lado acha-se uma jovem república, forte de milhões de habitantes, frágil como agregado nacional e como exemplo de administração própria. Uma república que pretende adquirir as boas graças internacionais como fiel da balança entre o Ocidente e o Oriente, mas tenta afinal cortar as pontes de Goa, Damão e Diu, que a ligam a essa civilização. Proclama-se neutral e pacifista mesmo quando, pela calada da noite, deixa praticar actos de traição e pirataria. Afinal, é agente duplo, que trabalha em dois campos contrários, e a algum deles engana, com certeza.
Do outro lado encontra-se uma nação quase milenária, frágil em população, forte como agregado espiritual e como modelo de administração pública.
A União Indiana joga entre dois pratos da balança, e não se sabe de que lado porá os pesos falsificados. Portugal, ao contrário, como os seus reis de antanho, merece o título de fidelíssimo, não só à cristandade, mas também às suas alianças e amizades internacionais. Pioneiro na luta contra o comunismo; membro não irrequieto da Organização do Tratado do Atlântico Norte; aliado secular da Grã-Bretanha nas boas e nas más horas; fundador, com o Brasil, da comunidade entre pátrias irmãs; participante, com a Espanha, do bloco ibérico, filho do sangue derramado nas guerras contra os invasores da Península e alicerçado em legítimas aspirações comuns - Portugal pode apresentar ao Mundo credenciais seguras e pergaminhos honrados. Às nações portadoras da civilização ocidental perguntará com simplicidade:
Em quem confiais? Que escolha ides fazer?
Será necessário que Portugal reveja a sua política internacional?
Será preferível que, em vez de nos mostrarmos amigos e aliados firmes e desinteressados, façamos também namoro a Moscovo ou a Pequim?
Que ganhamos em participar da N. A. T. O., se a União Indiana pretende roubar-nos Goa, Damão e Diu, para que não venham a servir de bases americanas?
A resposta a esta série de perguntas talvez decida da sorte do Mundo.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Entretanto, Salazar avisou-nos de que o Primeiro-Ministro da União Indiana, em discurso de 26 de Agosto último, só via a alternativa de negociar ou fazer a guerra. O seu conceito de negociação é o acordo sobre transferência de soberania, inaceitável para nós. Portanto, resta ao Sr. Nehru o caminho da guerra.
A tal respeito, Salazar definiu magnìficamente o que deverá ser a atitude portuguesa:

Em duas coisas essencialmente nos temos que apoiar, e delas não podemos desprender-nos: força e paciência. Força suficiente para que uma pseudo-acção policial não possa ser-nos imposta; paciência que não se altere com a impaciência inimiga e dure tanto, pelo menos, como a sua pertinácia. Para tanto, precisamos de não nos exceder no nosso próprio esforço, cuidando antes de o manter proporcionado à capacidade normal da Nação.

É norma de conduta prudente e segura. Aquela que merecerá o apoio geral dos Portugueses. Não abandonaremos o Estado da Índia Portuguesa. Sozinhos, para vergonha do Mundo, ou acompanhados, para glória da civilização ocidental, defendê-lo-emos por todos os meios no nosso alcance.
O caminho está marcado nas palavras magníficas com que Salazar terminou a sua exposição a esta Assembleia:

Se a União Indiana levar a guerra ao pequeno território, o que podem fazer as forças que ali se encontram ou vierem a ser concentradas? Bater-se, lutar, não no limite das possibilidades, mas para além do impossível. Devemos isso a nós próprios, a Goa, à civilização do Ocidente, ao Mundo, ainda que este se sorria compadecidamente de nós. Depois de afagar as pedras das fortalezas de Diu ou de Damão, orar na Igreja do Bom Jesus, abraçar os pés do Apóstolo das Índias, todo o Português pode combater até ao último extremo, contra dez ou contra mil, com a consciência de cumprir apenas um dever. Nem o caso seria novo nos anais da Índia.

Sr. Presidente: depois de manifestar confiança absoluta no Governo, quer quanto à actuação já desenvolvida, quer relativamente ao futuro, pronunciarei agora algumas palavras, também de confiança completa e justificada, dirigidas aos nossos irmãos, civis e militares, voluntários ou mobilizados, que a mil léguas de distância defendem Portugal nas terras sagradas do Indostão lusíada. Deus quis que, nesta hora gravíssima,