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4 DE DEZEMBRO DE 1954 65

qualquer traço de união com a Europa, a América e a civilização ocidental - então colocar-se-ão, cìnicamente, fora da doutrina universalista que dizem preconizar.
Tenhamos fé em que não sucederá assim. Nós descobrimos, para glória e proveito da humanidade, o caminho marítimo para a Índia. A meditação serena sobre os ensinamentos de Gandhi, conjugada a maior experiência política da jovem república, há-de prevalecer sobre os irrequietismos, as ilusões e os ilógicos entusiasmos imperalistas das primeiras horas de autogoverno.
E o Sr. Nehru virá a descobrir o caminho espiritual para a universalidade completa, para a liberdade verdadeira dos povos, para a civilização moderna, para o progresso em vez do retrocesso, para a luz em vez da sombra, isto é, para um Ocidente que não termine em Moscovo ou na Polónia, para um Oriente que não acabe na Sibéria, ou em Xangai e Porto Artur.
Senão?
Senão, sim! O sonho imperialista transformar-se-á em pesadelo. Em vez de império, da Índia será satélite. Em vez dos Turcos, dominarão ali Russos ou Chineses. Goa, Damão e Diu, mais do que pomos de discórdia entre duas nações, são actualmente instrumentos preciosos de ensaio e de medida.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Conforme a atitude que a União Indiana assumir, demonstrarão ao Mundo o caminho geral futuro que ela virá a tomar: rumo a Moscovo ou rumo à liberdade; satélite ou nação livre; universalista ou comunista; Gandhi ou Molotov.
Dos Portugueses pode dizer-se que, além de aprenderem história, aprenderam, principalmente, a construir a história. Pelo saber de experiência feito não somos atreitos ao pânico. Contra nós, nação minúscula, se esmagaram ou começaram a derruir-se os maiores sonhos imperialistas do Globo. De nós deve dizer-se, talvez com mais antiga propriedade, o mesmo que se aclama na Inglaterra: perdemos muitas batalhas, mas acabámos sempre por ganhar as guerras.
Ignoro se os governantes da União Indiana são supersticiosos. Acredite, porém, o Sr. Nehru: damos enguiço aos imperialistas. Vencem enquanto não nos tocam; acabam por cair quando nos ofendem. Não vale a pena citar épocas recuadas no tempo, quando encontramos à mão, na memória de todos, o exemplo de Napoleão, pseudo-aliado da Espanha nas três invasões de Portugal. Elas marcaram (apesar do Príncipe da Paz, pioneiro de pacifismo igual ao indiano, e de todos os horrores que sofremos) o declínio do Grande Corso.
Estava escrito. Estão muitas coisas escritas no Livro dos Destinos. Uma delas pode dizer-se que constitui o final imutável dos ditadores: «Não tenho inimigos; matei-os todos!». Depois de os inimigos internos estarem mortos, física ou politicamente, os regimes ditatoriais, como a França democratíssima do Terror e do Consulado, ou como o nefasto nazismo, aliado de Moscovo e precursor do racismo indiano, são arrastados, por nada mais terem que combater polìticamente dentro da Nação, a fazerem a guerra ao estrangeiro. Assim desviam as atenções dos seus governados, de maneira a que não se apercebam das maleitas do regime. Assim tentam adquirir ou readquirir prestígio.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - A imprensa e a rádio da União Indiana tentam criar estado de espírito imperialista, de conquista e integração de mais territórios estrangeiros, para fazerem esquecer as misérias e defeitos da administração pública na União Indiana.
Depois de conquistados Goa, Damão e Diu, qual o senhor que segue? Chegaria a vez do Paquistão, em nome do espaço vital, da unidade geográfica e da lei da força.
Julgo ter demonstrado que o espírito universal da União Indiana deveria exemplificar-se respeitando os Portugueses, que abriram as portas do caminho marítimo para a Índia.
Entremos agora no capítulo segundo desta intervenção: as soluções preconizadas para o caso de Goa.
A este respeito tudo se acha dito pelo Presidente Salazar. Os aplausos unânimes e entusiásticos da Assembleia Nacional à exposição magistral que o Chefe do Governo aqui realizou não podem deixar dúvidas a tal respeito. E o voto que formularemos no final deste debate exprimirá, implícita ou explìcitamente, que:
a) As negociações com a União Indiana somente serão possíveis se não tiverem como base a renúncia, parcial ou integral, próxima ou remota, ao princípio indiscutível da continuidade da soberania portuguesa;
b) Estamos dispostos ao empenhamento militar de todas as nossas possibilidades razoáveis, mas sòmente se a União Indiana nos forçar à guerra;
c) Nem ao Estado da Índia Portuguesa, nem ao conjunto nacional, de aquém e de além-mar, interessam independências de parcelas ou desagregação de esforços.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Finalmente, o capítulo terceiro:
Em seguida à exposição do Sr. Presidente do Conselho, e em consequência do aviso prévio do Deputado Sr. Teófilo Duarte, pertence à Assembleia Nacional pronunciar-se sobre a atitude assumida pelo Governo Português durante o interregno parlamentar e sobre o caminho futuro.
Nada mais grato ao nosso sentimento lusíada que podermos proclamar ao Mundo: o Governo representa e interpreta o sentimento nacional e soube defender, digna e firmemente, em todos os pormenores e em todos os momentos, a honra e a segurança da Nação.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - A americana, ficaríamos contentes com dizer «100 por cento bem». Em estilo académico, «20 valores». Mas a causa em debate faz vibrar intensamente as fibras mais íntimas da nossa carne; faz pulsar nobremente os glóbulos mais rubros do nosso sangue. As almas portuguesas têm de encontrar termos de louvor e de agradecimento mais adequados que as secas expressões numéricas ou os vulgares padrões de medida.
E, afinal, nenhuma poderemos adoptar, tão perfeita e tão bela, como estas palavras singelas: «O Governo soube ser português».

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Português na calma, na prudência e na inteligência de actuação. Português na dignidade superior com que apresentou ao Mundo as nossas razões. Português na decisão com que se apresentou para a luta armada, se ela nos for imposta.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Alguns espíritos mais impetuosos dirão que perdemos os enclaves de Dadrá e Nagar Aveli e