O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 6 260

O Sr. Presidente: - Já ontem, por telegrama, felicitei, na pessoa do seu digno Presidente, a Câmara Corporativa. Renovo hoje, em nome da Assembleia, as nossas felicitações e exprimo os melhores votos por que as esperanças de que falou o Sr. Presidente daquela Câmara desapareçam por se transformarem em realidades.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Sr. Presidente:-Exprimo ainda os nossos desejos de que a vida corporativa se afirme e se intensifique. Sem espirito e sem vida corporativa não se vê como possam radicar-se na consciência do País instituições que tom de ser a sua expressão jurídica e constitucional.

Vozes: - Muito bera, muito bem!

O Sr. Presidente:-Pelos jornais deve a Câmara ter tido conhecimento de que faleceu, em S. Paulo, o antigo Deputado a esta Assembleia Sr. Dr. Indalêncio Froilano de Melo.
Porque a Câmara desejará assinalar na acta de hoje o falecimento daquele antigo membro desta Assembleia, dou a palavra ao Sr. Deputado Mendes Correia.

O Sr. Mendes Correia: - Sr. Presidente: muito me comoveu esta manhã a notícia da morte de Froilano de Melo no Brasil.

Desapareceu com ele uma grande figura indo-portuguesa, que foi também uma grande figura científica internacional.
Desapareceu, porém, igualmente um excelente amigo e companheiro meu, com quem desde os bancos da escola tive o mais cordial e grato dos convívios.
A sua permanência, mais tarde, na índia durante longos anos não nos afastou, porque mantivemos sempre um intercâmbio de trabalhos, e nenhum de nós esqueceu a afectuosa camaradagem escolar de 1911, quando eu finalizava o curso médico na Faculdade de Medicina do Porto e ele, diplomado pela Escola Médico-Cirúrgica de Nova Goa, vinha repetir naquela Faculdade os seus exames.
Nunca esfriou a nossa amizade, renovada, aliás, nalguns encontros por ocasião de visitas suas à metrópole, e, ainda na penúltima legislatura, quando nos encontrámos juntos nesta Câmara, onde não faltam hoje colegas que se recordam, com saudade, do convívio aberto e franco de Froilano de Melo, das suas intervenções numerosas, sempre inspiradas no seu dedicado amor pela cultura e pela indestrutível solidariedade entre os bons Portugueses da índia e os do Mundo inteiro.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Todos os que estivemos aqui com Froilano de Melo lembramos com saudade a sua personalidade, que se traduzia na claridade dos seus grandes olhos, na sua figura inconfundível, de tipo atarracado, de barbas ondeando e projectadas para a frente quando falava, erguendo o mento e lançando para trás a cabeça, a sua figura, repito, que era toda bonomia, confiança, galhardia, franqueza.
Não emudeceu, porém, de vez a sua palavra fluente e clara, sem antes, do Brasil - para onde fora viver com sua mulher e filhos e onde trabalhava no Instituto Biológico de S. Paulo -, fazer, a propósito dos recentes acontecimentos, nítidas e desassombradas afirmações a respeito da legitimidade e do valor da presença de Portugal na índia.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Foram as últimas notícias que tivemos de Froilano de Melo antes da inesperada informação do seu falecimento.
O antigo professor e director da Escola Médico-Cirúrgica de Goa, o antigo director do Instituto Bacteriológico da mesma cidade, o antigo director dos Serviços de Saúde da índia Portuguesa, o grande parasitologista e epidemiologista, o antigo Deputado pela índia e membro do respectivo Conselho de Governo, o delegado de Portugal em tantas reuniões científicas internacionais, consagrou simbólica e expressivamente as últimas palavras da sua vida à proclamação, na terra amiga do Brasil, dos direitos sagrados do elevado papel universalista e cristão de Portugal no Mundo, e especialmente na índia, nessa índia de fascinante beleza e pensamento transcendente, que só um trágico erro de visão política, só um desorientado e ambicioso ímpeto poderá ligar ao pan-asiatismo sino-soviético, em vez de aproximar efectiva e ideologicamente da alma ocidental, especialmente de Portugal o maior pioneiro da solidariedade dos povos, da fraternidade entre o Ocidente e Oriente, sobretudo desde a gloriosa expedição de Vasco da Gama.
É simbólico, eloquente, o facto apontado de, antes de cerrar definitivamente as pálpebras para a eternidade, Froilano de Melo ter, no país irmão, erguido a sua voz em favor de Portugal na índia.
Louvores a sua memória pelo seu expressivo e oportuno gesto de verdadeiro e nobre indo-português, de grande português da índia.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador:-Do cientista e do intelectual falarei com o vagar necessário noutra oportunidade.
Aqui direi hoje apenas que Froilano de Melo foi um autentico sábio, com as encantadoras ingenuidades e fantasias do cientista que só vê diante de si a verdade e não sabe o que é o erro, a intriga, a mentira.
Ligou a sua existência a uma senhora de origem alemã, que, como Propércio de Figueiredo, Germano Correia e outros, se ocupou proficientemente da condição social da mulher hindu.
Ele próprio mostrou como esta é vitima do patriarcalismo ária, que se substituiu ao matriarcalismo pré-ariano, porventura dravídico.
Há poucos anos, na então Escola Superior Colonial, hoje Instituto Superior de Estudos Ultramarinos, num ciclo de conferências sobre a índia, Froilano de Melo pôs em relevo a situação desfavorável da mulher hindu, falando do sati, ou da queima das viúvas, e doutros factos que, como aquele, encontraram na acção portuguesa na índia, no Cristianismo que ali levámos, a mais nobre e benemérita das oposições.
O fundador e redactor assíduo dos Arquivos Indo-Portugueses de Medicina e História Natural, dos Arquivos da Escola Médico-Cirúrgica de Nova Goa e doutras publicações deixou um nome científico de destaque universal.
Mas a sua acção de professor notabilizou-se por ter criado escola, ter estimulado e aglutinado jovens investigadores em torno e em seguimento da sua figura, que na Faculdade de Medicina do Porto foi, a seu turno, discípulo dilecto do também saudoso mestre, o anatomista Joaquim Pires de Lima, cujo espírito, cuja flama, ele, como outros ilustres médicos Indo-Portugueses, levou para a Escola Médica de Goa.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-A vida de Froilano de Melo polarizou-se em redor da investigação científica, do benemérito combate h doença (como à terrível lepra, a micoses, etc.),