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486 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 77

pois são do monos de metade dos valores adoptados pela Associação Francesa dos Médicos Amadores de Vinho.

O Sr. Paulo Cancella de Abreu: - Mas agora, lá, o Chefe do Governo Francês aconselha o leite em lugar do vinho...

O Orador: -Em parte, ele tem alguma razão, mas devo esclarecer que a minha opinião é a de que, em certos países, o consumo do leito nos adultos é excessivo, pela quantidade de gorduras que tem, o que contribui sensivelmente para a arteriosclerose, que tantas pessoas mata, a partir de determinada idade. O leite é indispensável para as crianças, mas os adultos devem consumi-lo moderadamente.
Pelo censo da população de 1950, o primeiro grupo de possíveis consumidores conta 4 658 410 indivíduos e o segundo grupo, dos adultos masculinos, 2 163 438. Fazendo as contas, apura-se que as mencionadas rações médias correspondem ao consumo diário de 26 962 hl, o que soma, na roda do ano, 9 842 016 hl. Quer dizer : o consumo interno devia ser superior a 9 000 000 hl, se todos, como convém, bebessem habitualmente vinho, nos termos ditados pela higiene. Ora o consumo efectivo, segundo os dados da Junta Nacional do Vinho, foi, no triénio de 1949-1951, de 7 121 642 hl. Há, pois, uma diferença de, pelo menos, 2 000000 hl.

O Sr. Manuel Vaz: - V. Ex.ª dá-me licença?
Desejava que V. Ex.ª fizesse a fineza de me dizer se os cálculos feitos por V. Ex.ª e agora apresentados incluem a totalidade da população ou se excluem as crianças.

O Orador: - Como já referi, o primeiro grupo compõe-se de adolescentes com mais de 10 anos e até aos 18 e as mulheres, com um consumo médio diário de 3 dl, e o outro grupo, de homens adultos, com o consumo diário de 6 dl. Portanto, excluí as crianças, se bem que estas, em proporções muito pequenas, possam beber vinho ùtilmente.

O Sr. Manuel Vaz : - Muito obrigado.

O Orador: - A que se deve esta diferença de consumo?
Vários factores intervêm para a pequenez do consumo. Indicarei alguns, pondo de lado a parte que cabe ao fraco poder de compra de uma parcela da população trabalhadora, mormente nos meios rurais, por se tratar de problema muito complexo, de difícil solução a curto prazo e, portanto, sem interesse para a presente situação de crise vinícola. Mas há outra categoria de consumidores, os que poderiam comprar vinho diariamente e não o bebem, ou o bebem excepcionalmente. Não é possível computar o número de componentes dessa categoria, mas a observação corrente tem-me mostrado que é de alguma importância.

Vozes : - Muito bem !

O Orador: - Os motivos de tal facto são principalmente os seguintes:

1.º A superstição de muita gente em crer que o vinho lhe faz mal, erro em parte devido a exageradas prescrições módicas, que, em vez de graduarem as doses convenientes a cada cliente, simplificam a questão aconselhando a não o beber.
Compete aos médicos rectificar esse procedimento, em benefício de muitos padecentes, pois poucos são os casos em que o vinho está contra-indicado de maneira absoluta ;
2.º A carestia do produto, devida ao desnível entre o custo no produtor e o preço da venda ao público, desnível que atinge a enormidade quanto ao vinho fornecido nos restaurantes.

Vozes: - Muito bem !

O Orador:-Impõe-se o estudo da influência dos intermediários, para redução daquele desnível, e a revisão do regulamento dos hotéis e restaurantes, obrigando a inserir nas emendas a proveniência do vinho que têm obrigação de fornecer aos hóspedes o nas refeições a preço fixo e a diminuir a percentagem sobre o preço no mercado dos vinhos engarrafados.

O Sr. Paulo Cancella de Abreu: - E dão vinho muita vez ordinário!

O Orador:-Tem V. Ex.ª razão, muita vez ordinário.
O barateamento, em geral, do preço do vinho terá por certo sensível influência para aumentar o consumo, porque há famílias apenas remediadas que consomem menos do que o devido, por o dinheiro não chegar para o uso habitual de vinho às refeições. O caso dos hotéis e restaurantes terá menor valor quantitativo, mas tem interesse por o estado actual de coisas ser contrário à propaganda dos nossos vinhos, dado que a maior parte Já freguesia é de população flutuante;
3.º A moda de em actos estivos se servirem Wiskeis e cocktails, desprezando os nossos vinhos licorosos, moda antipatriótica que ameaça alastrar para a classe média, pela tendência a imitar os de vida faustosa. Há que combater pelo ridículo esse snobismo, de efeitos tão nocivos para a saúde como para a economia nacional.

Vozes: - Muito bem !

O Orador:-Vai decaiado, até em actos oficiais, o clássico Porto de honra, magnifico meio de propaganda do nosso vinho licoroso for excelência, e já nos hábitos domésticos não é obrigatório, como dantes, em dias festivos, fazer as saúdes com Porto. O consumo interno pouco excede, segundo informação dada pelo Instituto do Vinho do Porto, 14 000 hl por ano; consome-se cá menos, por cabeça, do que nalguns países para onde o exportamos. Á propaganda tem do se intensificar e de se aplicarem à sua venda ao público as medidas apontadas para o vinho de mesa.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador:-Para o incremento do consumo que trariam as correcções destes factores de depressão poderia, com pequeno dispêndio para o Estado, concorrer também a concessão do vinho diariamente aos soldados, que só o recebem em dois dias por semana. Esta medida já aqui foi sugerida e, tendo eu conta que, além do vinho fornecido nos dois citados dias, o soldado o bobe na cantina, computei em cerca de 15 000 hl o aumento do consumo que assim se obteria.
Tudo isto junto não resolve a crise, evidentemente; mas contribuirá para a atenuar, com vantagem para a agricultura nacional e para a saúde pública. Não ó tudo, mas é alguma coisa, e lá diz o popular rifão: migalhas também são pão.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: -Finalmente, não quero deixar de aludir em poucas palavras a questão do consumo nas províncias do ultramar, aspecto que merece especial atenção, porque, segundo as informações que colhi, pode dar vazão a todo o excedente da nossa produção de vinho.