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10 DE DEZEMBRO DE 1955 129

praticadas, em relação a Aveiro, aquelas decisões irremediáveis que tolheriam o progresso da expansão portuária do Norte do País.

E a p. 8, depois de considerações a respeito de obras em projecto para o porto de Leixões:

A capacidade calculada para as duas docas nos projectos antigos era de l 000 000 t de mercadorias por ano.
Com os métodos actuais de trabalho podem movimentar-se cerca de 4 000 000 t e calculamos que a especialização e o desenvolvimento da técnica de exploração permitam no futuro atingir os 6 000 000 t. Sendo assim, e tendo em conta o ritmo de crescimento verificado até hoje, o crescimento demográfico, a expansão ultramarina e a industrialização, o porto de Leixões deve satisfazer inteiramente as necessidades do Norte do País, pelo menos até ao fim do século.

Teve o Sr. Deputado Antão dos Santos Cunha a protectora condescendência de, no fim do incidente, me procurar para me dizer, com a sua autoridade em matéria de portos, onde- residia o meu erro, para me evitar o tornar a cair em alçapões: eu não tinha tomado em conta que na previsão sobre o porto de Leixões já se entrara com o tráfego provável proveniente da instalação da siderurgia.
Agradeço publicamente a boa, direi mesmo, a generosa intenção do Sr. Deputado Antão dos Santos Cunha, mas a verdade é que aquilo que ele fez chama-se andar a esgrimir com moinhos de vento. Eu podia responder daqui que me limitei a evocar uma conclusão, sem qualquer tentativa exegética, pelo que não afirmei nem neguei que nos cálculos tivesse entrado este ou aquele elemento.
Eu podia responder daqui que é de boa ética quando se citam apenas textos sem comentários não lhes acrescentar o que eles não dizem.
Eu podia responder daqui que, apesar de toda a autoridade portuária do Sr. Deputado Antão dos Santos Cunha, é lícito formular uma dúvida metódica à sua informação, pois, sendo a implantação da siderurgia na área de- Leixões, até este momento, apenas uma simples hipótese, se o ilustre autor do relatório, sempre tão preciso e claro, tivesse ponderado, em particular, o caso da siderurgia, não cairia no grosseiro vício de lógica de não registar o carácter incerto para Leixões desse elemento de cálculo.
Não merece, porém, a pena perder tempo com isto. Para encurtar razões, eu aceito a afirmação do nosso colega. Simplesmente, com a humildade de quem não ostenta capelo em matéria; portuária, eu pergunto, note-se, pergunto somente, se merecerá a pena sobrecarregar com o movimento da siderurgia - indústria que exige grandes volumes e grandes tonelagens de materiais - um porto que caminha, apesar de todas as obras projectadas, a passos largos, como VV. Ex.as viram pelas declarações autorizadas do seu director, para a saturação?
Não conviria mais reservar o espaço que a siderurgia (se aí for instalada) vai ocupar para a multidão de interesses comerciais e industriais que de dia a dia, naturalmente, crescem na cidade do Porto?
Já que as circunstâncias me obrigaram a falar neste assunto da localização da siderurgia aproveito para fazer também o meu depoimento - simples contributo para resolução de um problema.
Pessoalmente, é-me indiferente que ela fique aqui ou ali. Peço apenas, como habitante de Lisboa, que ela não seja instalada nesta querida cidade. Para martírio já basta a Sacor. Os exemplos da Sacor em Lisboa e da Celulose em Cacia são, a despeito de todos os esforços técnicos a de todos os recursos modernos, suficientemente gritantes para podermos dizer: «Deus nos livre de maus vizinhos de ao pó da porta». Deseja o Porto esta vizinhança?
Lamento pelo Porto, tanto mais que os ventos dominantes na região costeira do Norte do País agravarão consideràvelmente o problema. Razão tiveram os técnicos da Gamara de Matosinhos quando, antes de as estreitas reclamações regionalistas terem perturbado este assunto, consideraram com plena serenidade e plena objectividade a instalação da siderurgia no primeiro local previsto para esse fim contrária à urbanização do concelho. Quando eu era vereador da Câmara Municipal de Lisboa, o meu amigo e colega Ortigão Ramos, perante a fatalidade da Sacor na capital, sintetizou ironicamente o problema: «Agora só nos resta, meus senhores, mudarmos a cidade».
Sob a impressão deste comentário visiono o dia em que (se a siderurgia for para a área de Leixões, densamente povoada) muita gente, que hoje aplaude o nosso estimado colega Dr. Urgel Horta, diga: «Via-se logo que o sítio era impróprio; nem ao menos podem alegar ignorância, pois em Portugal já havia exemplos; o
Urgel é que as arranjou ... e nós é que as pagamos». Não se iluda o Sr. Deputado Dr. Urgel Horta, as multidões são sempre inconstantes.
Se, como cidadão, peço que não maculem a nossa amável Lisboa com mais esta praga -perdoe-me a siderurgia o termo, pois eu estou neste momento apenas a encarar o problema pelo ângulo urbanístico -, peço, como português, que evitemos estrangular, à força do cada um querer a siderurgia no seu quintal, esta iniciativa, tão necessária à nossa economia.
Já em 1914 demos, neste capítulo, um triste espectáculo quando Scott tentou, depois de sérios estudos, montar entre nós a indústria siderúrgica, por sinal no local preferido agora pela siderurgia nacional para a sua instalação -Alcochete.
Tantas foram as discussões, as complicações, as sentenças, as malquerenças, que mima conferência sobre o assunto, que corre impressa, o engenheiro Pedro Vieira lembrou que, mais do que a ele, pertencia a outro engenheiro ilustre explicar em público os estudos realizados para a siderurgia, mas que este não quis, receando a suspeição que actualmente, como nunca, campeia à solta neste meio de desorientados, que parece não saber o que querem, nem o que fazem, muito menos o que dizem». Isto compreendia-se naquela época turbulenta, carregada de rancores ê facciosismos e politiquices, mas não se percebe hoje, em que há ordem mas almas e nas ruas ...

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Não façamos reivindicações sentimentais; prestemos testemunhos objectivos. Por mim, confio plenamente que o Governo, que tem à sua disposição numerosos, elementos técnicos e que tem a consciência da importância do problema, resolverá o assunto conforme os superiores interesses da Nação, indiferente ao crepitar das paixões.
Uma só coisa ele não pode fazer: é agradar a todos, pois, meus senhores, têm sido tantas as soluções sobre este capítulo da localização da siderurgia apresentadas a público que só eu já coleccionei mais de uma dúzia. É bem certo que governar implica quase sempre descontentar. Felizmente o Governo tem hoje autoridade imoral para resolver em verdade, e não em função de pressões ou de ruidosos, mas efémeros, aplausos.

Vozes: - Muito bem, muito bem!