10 DE DEZEMBRO DE 1933 133
pena foi que a História da Medicina e n Deontologia, embora já adiantadas na escala, não pudessem fiou r como remate sintético e ético ila formação do médico.
O novo plano de estudos das Faculdades, de Medicina repara, depois, a falta de algumas disciplinam. Certas delas foram suprimidas pela reforma de 1948 e a experiência voltou a impor o seu restabelecimento. Fazem realmente, falta linha de terapêutica geral e noções de ortopedia como, ainda mais a semiótica radiológica, indispensável no juízo diagnóstico, e a pneumotisiologia cuja particularidade de condições a deixa isolada da parte geral da clínica médica». Mas outras são introduzidas, pela primeira vez no curso médico.
Ergueu-se a bibliogia médica para através do estudo da matéria viva, dos factores de actividade e das correlações estruturo-funcionais, da ontogénese, da filogénose é das mutações, chegar à unidade do homem, e, pelo caminho da hereditariedade e do anexo se atingir a genética, com as constituições e predisposições transmissíveis. Impossível é penetrar na eugénica e na medicina preventiva sem esta luz inicial e com bom acerto a ela só juntou o aprendizado das noções fundamentais estatística quer dizer, como em biologia se deve jogar com os fenómenos qualificativos e quantitativos, nas suas distribuições e nas suas relações.
Esta valiosa projecção do homem na linha biogenética geral culmina no novo plano do ensino com a inclusão da psicologia e da medicina social. Passa-se a estudar o homem para além dos órgãos e da soma dos órgãos, considera-se que outras forças entram e se movem na sua equação de vida - que ele também ama, sofre e luta no particularismo do seu mundo próprio e na comunidade do moio que o circunda. São do notável diploma legislativo estas palavras que glosam a melhor medicina de hoje:
Pela primeira vez se inclui no elenco do curso médico a disciplina de Psicologia. Esta medida, a transformação da cadeira de Higiene o Epidemiologia. em Higiene, e Medicina Social e a autonomia e índole atribuídas à Deontologia (questões morais e, sociais da medicina) denunciam a tendência para imprimir à formação do médico, com o espírito científico, o sentido social o preventivo que por toda a parte vai ganhando, ao mesmo tampo que reafirmam o sentido espiritual da profissão; o médico tom de tratar doentes que podem não o ser apenas do corpo e tem de considerar, para lá do caso clínico, o homem na plenitude e na dignidade do seu composto.
E até que enfim ! O que havia, o quo se aprendia, estava senil e o mais ultrapassado, não representava n nossa posição actual. Se é bem certo que o doutrinarismo médico espelha, pelos tempos fora, o conceito psicológico do homem que sobro ele incide, não menos verdadeiro se mostra que a psicologia dos nossos dias, mesmo com todos os seus desencontros de - raiz, vai cada vez mais olhando o homem como uma unidade, um lodo solidário, produto da conjunção dos factores pessoais com os da herança e os do meio.
Há realmente um esforço decidido para considerar esta. plenitude de valores. Não é passar do erro do homem individualizado para o erro oposta do homem socializado, ambos visões parciais, mas abraçar a realidade do homem, abrangendo a totalidade do composto. O homem não é só ele, mesmo que o dignifiquemos num bloco carne-espírito é ele e as realidades naturais em que se integra, desde a família, desde a profissão, até à cidade.
Vozes: - Muito bem, muito bem!
O Orador: - Já era tempo, mais que tempo, de sobre o nosso ensino médico irradiar a luz fecunda deste conceito antropológico. Os que tratamos homens, os que lhes custodiamos a verdade dos passos, ganhámos há muito o direito de querer a doença oficial em outro aspecto, em outras proporções, e sabíamos, sentíamos que em horas de acabar com o desacordo entre o homem-manequim, parcial e desarticulado, tal qual se ensinava e se aprendia nas escolas, e o homem que encontramos cá fora na experiência da clínica, lutando e sofrendo na sua totalidade e na sua unidade. Exalto este sentido humano dado ao ensino médico pelo diploma governamental, mas, como das suas melhores riquezas, destaco também os moldes em que ele talha a prepararão do mediou. Vai esta reforçar-se nos conhecimentos nucleares e não se descaminhar na sedução do pormenor ou na preferência do bocado, antes subordinar-se ao conjunto, à visão global. O que se pretende é formar médicos, criar médicos, e, como diz o próprio diploma, so ensino das especialidades só subsidiariamente deve participar na formação do clínico geral através de pequenos cursos em que se ministrem os conhecimentos indispensáveis para o exercício profissional daquele, com exclusão de tudo o que é do foro do especializado».
Vozes: - Muito bem!
O Orador: - Sem dúvida que a especialização em medicina é uma necessidade que temos de aceitar. Mas a especialização e, como ela, os serviços especializados devem ajudar, completar, e não deformar a preparação do médico. Havemos de nas escolas ensinar ao médico que uma observação especializada tem sempre de
medir-se no balanço geral das conveniências. Temos de formar o médico em termos, em perspectivas de, num abraço alto de fusão e de síntese, saber interpretar em relação ao modo total e uno da pessoa doente.
Essencialmente reside aqui a função das Faculdades de Medicina: criar o médico geral, o clínico que venha para o contacto do homem capaz de o abarcar e de o compreender na sua inteira e verdadeira dimensão. E neste trabalho se devem ordenar todos os passos do ensino médico, desde a morfologia, pelas funções, pelas propedêuticas, pelos quadros mórbidos, até aos cimos altos da clínica: sempre aos serviços há-de imprimir-se um cunho geral; sempre os professores terão de sacrificar as inclinações ou os cultivos pessoais, e não converter o ensino do todo na preferência de uma parte.
O ensino das especialidades, que é um aperfeiçoamento, uma melhoria, uma valorização das habilitações conferidas pelas faculdades, vem depois, e já não entra obrigatoriamente na função essencial das escolas de medicina. Pode estar nelas por acréscimo, por extensão, como disso há tempos nesta Assembleia; mas pode estar fora, sem que elas sofram na sua legítima razão de ser.
O novo plano de ensino do curso médico-cirúrgico defende os alunos contra os «exageros de escolaridade», fixa o número do horas de aula. 4:0111 o propósito de que haja tempo para o «trabalho individual e reflexão» e para so aperfeiçoamento da cultura geral». Era de facto, exageradamente absorvente o horário das aulas; ao espírito dos que frequentavam as escolas de medicina não restava vagar para a meditação nem era possível distrair-se para a aquisição de cultura extra médica. Fica-lhe agora mais ensejo para o fazer, - e oxalá que as Universidades, no cumprimento do seu justo mandato, se esforcem por diminuir a nossa crise do valores culturais, guiando os que por - elas passam até um -enlace geral e hierárquico dos conhecimentos.