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132 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 100

Ora, se toda a discussão assentou nesta certeza, ir localizá-la agora noutro sítio equivaleria a cometer um erro político. E, como dizia José Fouché, não sei
se com razão se sem ela, os erros políticos são piores do que crimes.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Pedi a palavra para responder a uma pergunta que o Sr. Dr. Mário de Albuquerque formulou: valerá a pena sobrecarregar o porto de Leixões com - a siderurgia nacional? Quero dizer-lhe que vale a pena, pois que, com as obras de ampliação que estão a ser realizadas, o porto de Leixões irá ter uma capacidade para 6 milhões de toneladas. Isto vem no relatório ...

O Sr. Mário de Albuquerque: - Não vem lá assim, mus sim que com os possíveis melhoramentos técnicos ...

O Orador: - Os cais acostáveis das novas instalações do porto de Leixões vão ter mais de 4000 m; com mais 1000 m ali existentes, haverá mais de 5000 m de cais acostáveis.
Ora, como cada quilómetro de cais acostarei pode movimentar 1,5 milhões de toneladas, o porto de Leixões ,vai ter, pois, uma capacidade de 6 a 7 milhões de toneladas.
Para se fazer uma ideia dessa capacidade basta dizer que ela ultrapassará o dobro da que tem hoje o porto de Lisboa.
Ora, nesta formidável capacidade de 6 ou 7 milhões de toneladas cabem perfeitamente, não só a siderurgia nacional, mas todas as indústrias satélites, dependentes, conexas, parentas e afins da siderurgia.
Quantas toneladas vai movimentar a siderurgia nacional?
400 000 t.
Portanto, a siderurgia quase não ocupará espaço no porto de Leixões. E, de resto, no relatório referente às obras de ampliação já se coutou com a siderurgia, e com todas as actividades que ela fomentará.
Aliás, numa troca de impressões havidas entre o director-geral - do porto de Leixões e os administradores da Siderurgia Nacional essas dúvidas que tinham sido levantadas acerca da capacidade do porto de Leixões ficaram inteiramente desfeitas.
A própria administração da Siderurgia Nacional considerou mortas e definitivamente enterradas as dúvidas que sobre esta matéria tinha de princípio levantado.
O Sr. Dr. Mário de Albuquerque não conseguiu ressuscitá-las e não acrescentou com as suas palavras nada de novo ao assunto.

O Sr. Mário de Albuquerque: - Nem tinha mesmo que acrescentar fosse o que fosse. Reproduzi apenas uma opinião particularmente autorizada, pois é a do próprio director-geral do porto de Leixões.

O Orador: - Nem tem que acrescentar. A Câmara Corporativa estudou o Plano de Fomento; a Assembleia Nacional discutiu-o e aprovou-o. Em todas as suas afirmações feitas numa e noutra Câmara se partiu sempre da certeza incontroversa de que a siderurgia nacional seria localizada no Norte do País. A Assembleia Nacional não podia nem poderá ir mais longe.
Tenho dito.

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Manuel Cerqueira Gomes: - Sr. Presidente: já perto da reabertura desta Assembleia Nacional, em 20 de Outubro última, foi publicado no Diário do Governo um decreto-lei que estabelece o - novo plano de estudos do curso
médico-cirúrgico das nossas três Faculdades do Medicina.
Outras vozes mais categorizadas do que a minha se levantaram desde aí para celebrar o acontecimento, como especialmente se verificou na recente visita de cumprimentos que os professores da Faculdade de Medicina de Lisboa fizeram ao Sr. Ministro da Educação Nacional. Mas, porque o novo plano de estudos abre para o curso médico-cirúrgico propósitos e caminhos que eu também defendi nesta Assembleia e fora dela, entendo do meu dever não silenciar nem a minha alegria nem o meu aplauso, e, por cima deles, sempre superiormente u eles, o valor doutrinarão, formativo, escolar e até nacional que encerra o mesmo diploma.
Há quase dois anos, em Fevereiro de 1954, ou dizia na tribuna da nossa Câmara:

Não quero agora indagar, porque me desviaria do sentido, se no regime actual das Faculdades de Medicina esta formação basilar do médico está devidamente assegurada. Só em breve apontamento posso dizer que o não está: além da má organização cronológica das disciplinas, com erros palmares, a visão do homem é ainda apenas somática e isolada; estuda-se somente o orgânico e o orgânico desconectado de quanto o influencia; falta a perspectiva da biologia geral, falta todo o aspecto psicológico, falta o enquadramento 110 domínio social, partes necessárias para chegar a real dimensão do homem, ele e as suas circunstâncias. No ensino médico estamos ainda com o dualismo cartesiano, alheios ao ressurgimento da síntese global dos valores humanos. O homem continua partido em duas metades distintas e para as disciplinas do ensino médico só o corpo continua a interessar.

E há precisamente um ano, na bela festa de consagração da medicina, a que se dignaram presidir os ilustres Chefe do Estado e Chefe do Governo, eu repetia ainda:

Ouvi um dia ao Sr. Presidenta do Conselho que as nossas Faculdades de Medicina caminharão cada vez menos pura a especialização e cada vez mais para o reforço das disciplinas nucleares mi formação geral do médico. Nade. mais certo pode desejar u medicina de hoje. Só falta que o nosso ensino deixe de estar agarrado ao orgânico, de ser exclusivamente somático, de inspirar-se e modelar-se num dualismo há muito ultrapassado. E preciso dar-lhe as perspectivas da biologia geral, da psicologia médica, do aspecto social da medicina para que acompanhe este novo movimento de ressíntese do homem.

Ora a decreto-lei de 20 de Outubro passado corrige primeiro os erros flagrantes quê desde a reforma do 1948 se mantinham na ordem de colocação das disciplinas.
Não podia continuar a estudar-se a anatomia microscópica sem se saber a macroscópica, nem obrigar-se a compreender o funcionamento dos órgãos sem estar inteirado da sua constituição. Também não tinha cabimento a História da Medicina no primeiro ano de curso; se em Direito assim pode ser, porque a História do Direito serve de introdução ao conheci mento dos sistemas jurídicos, na medicina o desfiar cronológico dos conceitos e das interpretações exige luzes prévias das entidades sobre que repousam. Ouviram-se, afinal, as reclamações dos conselhos escolares; a ordenação das disciplinas passa a fazer-se com mais lógica nos primeiros anos, e