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13 DE DEZEMBRO DE 1955 147

O Sr. Manuel Vaz: - Sr. Presidente: pedi a V. Ex.ª a palavra porque me sinto no dever de transmitir publicamente ao Governo da Nação os sentimentos de profunda gratidão das populações da província de Trás-os-Montes, que foram duramente atingidas por tremendos temporais a partir dos fins do Maio último e, desgraçadamente, se prolongaram até aos começos do inverno deste ano.
Em particular, e porque tenho a honra, imerecida aliás, de presidir aos destinos administrativos do concelho de Chaves, desejo manifestar-lhe o reconhecimento da sua gente por nesses momentos angustiosos de cruel provação lhes haver dado, com o carinho de uma solidariedade espiritual, reveladora dos sentimentos cristãos de todos os seus membros, o amparo moral e o auxílio material de que o infortúnio as tornou necessitadas.
E este auxilio e este amparo foram, por assim dizer, fulgurantes, praticamente instantâneos.
Na tarde de 31 de Maio deste ano uma furiosa trovoada desabou sobre a zona sudeste do concelho. A chuva caía em catadupas, com uma violência inaudita, impelida por ventos ciclónicos, junta ao ribombar do trovão e ao fuzilar dos relâmpagos, logo acompanhada pelas quedas de forte e compacta saraivada, cujas pedras chegavam a pesar mais de 220 g e com tal quantidade que uma semana depois, em certos sítios, ainda se podiam carregar às toneladas.
Quando a trovoada passou puderam ver-se os estragos causados. Foram totais na área atingida.
As águas tinham levado quase tudo.
As searas desapareceram, as sementeiras perderam-se e as vinhas foram destruídas.
Em vez delas viam-se apenas montanhas de areia e vastos cemitérios de pedregulhos enormes, numa confusão diabólica.
A terra arável fora levada pelo ímpeto das águas e surgira em seu lugar a ossatura granítica, que ela ocultava a muitos metros de profundidade.
Os leitos dos ribeiros tinham desaparecido, cobertos por montões de entulhos e destroços, e as suas águas corriam livres, talando os campos, em desordenada correria, derrubando muros, arrancando árvores, destruindo pontes, cortando as comunicações, tornando intransitáveis os caminhos, levando açudes, presas, moinhos, lagares e até algumas moradias.
Um pavor.
E a tragédia repetia-se no dia imediato, ali e noutras terras do concelho e da província, com igual violência, com idêntica sanha.
Pois bem. Logo no dia imediato, mal a notícia se tornara conhecida, o Subsecretário da Assistência telefonava de Lisboa, inquirindo, pedindo informes, para ordenar socorros imediatos, que não tardaram a vir, pela forma de subsídios eventuais.
E não contente, e para mais rapidez, deslocava-se de avião até ao Porto e surgia nos locais da catástrofe, horas depois, para ver, inspeccionar e tomar as medidas necessárias que era urgente tornarem-se.
E foi assim possível, quase imediatamente, alimentar os famintos, vestir os nus, alojar famílias e reconstruir as moradias pobres, de pobres que ficaram sem nada.
Simplesmente bela esta sua atitude.
Por sua vez, o Sr. Ministro do Interior prossegue na obra iniciada pelo seu ilustre colaborador, reforça substancialmente os subsídios concedidos, dando possibilidades às autoridades locais de actuarem rápida e energicamente na solução dos graves problemas emergentes do estado de coisas criado pelas calamidades que flagelaram a província.
Mas a acção do Ministério não se quedou por aqui.
O Sr. Ministro das Obras Públicas, com idêntica e exemplar presteza, ordena que se tomem as medidas que se impunham para o restabelecimento da situação, na medida do possível.
E, através de subsídios às câmaras dos concelhos atingidos e dos serviços a cargo do seu departamento, inicia-se a reparação das estradas e caminhos, a limpeza dos ribeiros, a reconstrução das pontes e de outras obras de interesse local, dando trabalho, que é a forma mais nobre de dar pão a quem dele carece.
Todos os serviços públicos, espontaneamente, se oferecem para colaborar nos auxílios a prestar, tanto civis como militares.
A Igreja não fica indiferente. A imprensa e até os simples particulares acorrem de todos os lados a prestar ajuda.
Sr. Presidente: o mal não esquece, mas o bem também não.
As horas da tragédia passaram. Oxalá que não voltem. Mas há uma coisa que fica sempre nas almas e nos corações bem formados.
E a lembrança do bem que se recebeu.
E a gente de Trás-os-Montes não é ingrata.
Ela recordar-se-á das horas de aflição por que passou, mas lembrar-se-á também do amparo moral recebido e do socorro material que lhe foi dado naquelas horas amargas por todos, com especial relevo para aqueles ilustres membros do Governo, a quem deste lugar e em nome dela, singelamente, sentidamente, à boa maneira transmontana, eu digo com reconhecimento:
Bem hajam! Deus lhes pague.
Tenho dito.

O Sr. Urgel Horta: - Sr. Presidente: com infinita mágoa pedi a V. Ex.ª me fosse concedida a palavra para rapidamente, em ligeiro apontamento, trazer à Assembleia Nacional o amargurado o revoltado sentimento da população do Porto e da região do Norte do País que aqui represento.
O facto, na sua essência é inteiramente conhecido através da imprensa que o noticiou e o comentou dentro de normas orientadas por um espírito de liberdade e de independência sempre adoptado.
No Porto devia ter-se realizado ontem um dos mais importantes encontros de futebol para disputa do campeonato nacional.
A semana havia passado em constante agitação, na ânsia de aquisição de bilhetes que permitisse a assistência ao grande prélio. Viviam-se horas de inquietação, tudo se preparando para receber condignamente os visitantes, que ali iriam satisfazer o interesse dedicado à sua causa.
Hotéis, restaurantes e pensões abasteceram-se largamente, como prevenção adequada às necessidades do momento. Todos os meios de transporte da região haviam sido contratados para servirem as pessoas que se deslocassem ao Porto.
A cidade no próprio sábado acusava já um extraordinário movimento de forasteiros. E tudo decorria dentro das previsões do facto que se aguardava.
Inesperadamente, a hora adiantada da noite, tudo se transforma. O Porto-Sporting, com grande surpresa, era adiado para o dia de Ano Bom. Esquecem-se leis e regulamentos elaborados para serem cumpridos. Desprezam-se direitos defendidos pelas leis e por esses regulamentos.
Não se consulta, não se atende, nem se respeita a situação criada a uma grande colectividade, com uma população de mais de 30 000 associados, onde sacrificadamente se luta e se trabalha. Como não se atende nem se respeita a população inteira duma grande cidade, que sempre através dos tempos tem dado lições do maior civismo.
Menosprezam-se interesses, enjeitam-se responsabilidades, esquecem-se todos os prejuízos de ordem despor-