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25 DE JANEIRO DE 1956 321

ocupado na minha vida - e confesso me tem preocupado.
Todos saltem que desde os tempos antigos o capital pecuário era o produto que resultava da criação do gado, a coisa que quase sem trabalho se acumulava, pois com o trabalho já em tempos antigos pouco se ganhavam.
Mas a pecuária em nossos dias tem vindo a diminuir - estou certo de que as novas estatísticas neste campo serão desoladoras, especialmente no campo estatístico dos bovinos.
Mas porque os nossos meridionais países são tão deficientes em carnes?
É simples a resposta:
A região do norte de Portugal, mais bem alimentada de águas e que poderia produzir anais gado, alimenta uma densissíma população humana vegetariana, que produz e tira da terra, com a batata, o milho, o feijão e a couve, o que necessita para a sua vida, obtendo três vezes mais calorias do que se criasse e vendesse gados ou leite, livrando-se, com o consumo directo, de intermediários, corporações, taxas e outros encargos.
O Sul tem um clima tal que a sua produção vegetal resume-se à de Abril e Maio, o que corresponde a um sexto de uma produção anual completa, como é a da Irlanda, por exemplo, de modo que a capitarão de gado novo por hectare é de 40 kg, quando a das boas zonas pecuárias (Sul da Inglaterra. Normandia, Bélgica, Norte de Itália) chega a ser de 2000 kg.
Todavia, mesmo com essa abundância de pastoria, os únicos países que não importam carnes são a França e talvez a Holanda, a Dinamarca e a Suécia, onde grande parte da alimentação cárnea é fornecida pelos suínos.
E em Portugal, onde a capitação de gado por hectare é tão escassa que no Alentejo são necessários 10 ha para uma vaca e 4 ha na lezíria de Vila Franca, acresce que toda a produção bovina não chega para a criação de animais de trabalho, de modo que, sendo esta espécie de animais de preço mais elevado que a sua carne os animais têm de ser explorados para o trabalho de preferência a ser sacrificados.
A tarda idade das matanças, porque se teve de amortizar o mais tarde possível os animais, e o facto de terem de ser animais duros de trabalho c resistentes a um clima inclemente, explica a má qualidade da carne do Sul.
Além disso a nossa arte culinária, talvez por razões higiénicas, talvez pela dureza do material cozinhado, leva a cozedura a um ponto tal que as carnes que não são estufadas ou fervidas são sempre coriáceas e duras.
O que nos vale é que ao longo da nossa costa um planalto marino, fértil em peixe, é o nosso mais rico prado, para fornecimento de matérias ricas de azoto animal.
Creio não errar dizendo que Portugal, com peixe da nossa costa e de Marrocos e com o bacalhau da Gronelândia, é o maior consumidor de peixe do Mundo e está a par da Noruega, Islândia e Japão.
É o que nos vale.
O fornecimento de carne à gente da cidade foi sempre um grave problema.
O fornecimento de Lisboa especialmente.
Porque a província, com o porco, a cabra e a ovelha, tem-se governado sempre.
O Norte, e especialmente o Porto, também se tem mais ou menos governado.
Lisboa foi sempre deficitária, mesmo desde a Idade Média.
Não é o caso agora de fazer a história deste problema, mas já aí pelo começo do século para assegurar este fornecimento fez-se um contrato conhecido pelo do Sr. Martins das carnes.
Posto o mercado de Lisboa na mão de um trust, a criação bovina do Sul foi sacrificada - tanto mais que o aumento da cultura trigueira concorria pura diminuir as zonas destinadas à pastoria.
Redução de pastos e baixo preço deram um grave golpe na criação de gados, pois esta deixou de interessar.
Grande foi a oposição ao contrato, de modo que, findo ele, não se renovou.
Um período de liberdade, pelas habilidades do comércio, que procurava especular, levou à constituição da comissão reguladora, e dai noras dificuldades à lavoura, um preço fictício e uma baixa de produção. Em Lisboa, crise de carne.
Matavam-se cerca de 100 cabeças grandes antigamente, com uma Lisboa de 300 000 almas, e matam-se 50 , com uma Lisboa de l milhão, e agora, bem que não seja o lugar, direi que a matança de porcos para carne fresca era de 8000, quando hoje não chega a 5OOO. Mas isso a seu tempo.
Esta organização artificial deu por resultado que a carne que tem afluído ao mercado de Lisboa tem sido em pequena quantidade e que o gado é fornecido quase só por negociantes, e como isso resulta num baixo preço nu produção, esta tem-se estiolado.
Tão sensível é a questão de preços que nestes últimos dois anos. quando a manteiga se podia render a 40$, foi necessário exportá-la e a 35$ foi necessário fazer importações.
Mas, em Lisboa, enquanto se seguir o actual condicionamento de preços de matança, será difícil um bom abastecimento. De tacto, Lisboa tem a matança mais cara do País.
A carne paga uma taxa por cada quilograma e a pele, sangue e esterco são da matança; não sei bem o regime de miudezas, etc., mas fora de Lisboa estas partes dos animais são do negociante, e isso explica que tanta carne seja importada em Lisboa para ganhar estas diferenças nos pequenos matadouros suburbanos.
E, já que estamos neste capítulo, uma das complicações que torna inconveniente a matança em Lisboa para o lavrador do Sul é o sistema dos manifestos, visto que difícil é ao lavrador fixar o dia da entrega, mas muito mais difícil obter entrada no momento conveniente, visto que os marchantes, que têm sempre gado para apresentar e parques de concentração na lezíria, açambarcam as entradas o casos há em que um manifesto de fim de Maio só foi satisfeito em fim de Junho ou Julho, ou mais tarde, ao lavrador, quando o seu gado já perdera peso e custara muito mais caro a manter.
Bem sei que legalmente o lavrador-produtor tem preferência, mas há negociantes-lavradores, há trabadores que se prestam a ser testas de ferro, e o lavrador faz um manifesto por ano e o negociante todos os dias, e il y a toujours des accoonmodements arec le ciel. De modo que eu, por exemplo, optei pela venda a negociantes, tantos foram os inconvenientes, perdas e danos da venda directa.
Tudo isto, até agora, é para preparar o panorama à situação presente:
Não há carne porque não é conveniente.
Por conseguinte, o remédio é claro, o que pode é não ser conveniente.
Ter carne é uma questão de preço.
Se o preço for convidativo, haverá mais carne.
A carne é, em tinia a parte, uma alimentação cara.
Naturalmente, onde a natureza é pródiga de boas pastagens, onde a população é ainda escassa e a terra custa pouco, a carne pode ser relativamente barata;