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322 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 116

exemplos: Argentina, Estados Unidos, Canadá, França, Irlanda, etc.
Porém, quase toda a Europa tem falta de carne. A Inglaterra importa do Canadá, Argentina, Austrália e Nova Zelândia.
A Itália, da França e Jugoslávia.
A Espanha tem escassa população e ainda se basta.
Nós somos deficitários.
Todavia, se nos Açores não tivessem, desgraçadamente, prejudicado a criação e exportação, durante muitos anos, com o receio de uma suposta peripneumonía exsudativa, e se em Angola estivesse bem organizado o sistema de matança, frigorificação local e transportes terrestres e marítimos frigorificados e recepção em depósitos do mesmo sistema, a questão da carne seria em grande parte remediada; e se em Lisboa a aceitação do gado fosse feita no momento da oferta, com guarda em frigorífico, para o momento do consumo, teríamos certamente uma notável melhoria.
Todavia, não pensem que a melhoria possa ser de preços para o consumo, porque a carne entre nós não pode ser barata, sendo a sua produção cara; e se o acréscimo que se espera for por meios artificiais mais cara será ainda.
A nossa carne de vaca é actualmente a mais barata da Europa; a espanhola é mais cara entre 60 e 100 por cento, a inglesa cerca de 50 por cento e a italiana três a quatro vezes.
A carne é um artigo que se pode considerar de luxo, e o que nos rale é termos peixe borato e o grosso da população ser quase vegetariana, visto que se alimenta de legumes, hortaliças, trigo, milho e batatas.
Mas ramos agora ver um pouco o problema da produção de carne.
As suas fontes são: o porco, a vaca e a ovelha, pois a cabra, os solípedes, os animais de capoeira e a raça são problemas que agora me parece não interessarem ao caso.
A criação de porcos é de todas a mais fácil, e tanto assim é que depois da guerra os efectivos porcinos têm aumentado em todo o mundo.
Entre nós o porco bísaro supre facilmente as necessidades das populações do Norte, visto que é o mealheiro dos refugos da vida caseira.
O do Sul é um admirável aproveitador dos resíduos culturais. Vive de ervas, de resíduos das culturas cerealíferas, e aproveita, com pouca despesa, o produto dos montados, prestando-se facilmente à engorda com milhos.
A sua produção é fácil e pode ir muito longe, tendo só o contra de ser um porco com excesso de gorduras.
Pode modificar-se, porém, com um tratamento artificial e com a transformação das suas aptidões (exemplos: o Tamucorth inglês e o Duroc Versey americano, que dele derivam por meio de alimentação e selecção e por cruzamento). Mas há um senão.
Os países industriais, com alimentos mais baratos, mais bem estudados e mau acessíveis, produzem mais barato e melhor, o que dificulta a nossa exportação.
Nós cada vez consumimos menos carne de porco porque a nossa dietética tem mudado, pois, apesar de a população ter aumentado, consome menos porcos vivos (Lisboa de 8000 baixou para 5000), e porque não sabemos fazer boas carnes de conserva e a nossa população se não adaptou ainda ao uso destes produtos, como na Alemanha, Itália e França, com que poderia dar aplicação e consumo o uma produção de porcos industrializados de alta qualidade de carne.
Fica agora a questão da produção de carne de vaca.
A produção geral, no que respeita aos gados do Norte, naturalmente seria aumentada se os preços melhorassem, e a do Sul sentiria a mesma influência, mas hoje pensa-se em utilizar para produção forraginosa as águas das novas represas, que não podem ser utilizadas nu produção de arroz ou milho, já superabundantes.
Não sendo permitida por lei a cultura da beterraba sacórnia, por razões da cultura do açúcar no ultramar, e sendo duvidosa a possibilidade algodoeira, por razões climáticas - tarda maturação por falta de calor e excesso de humidade (nocturna?) -, pensa-se na fixação de população ou de produção de carne para utilizar as novas irrigações.
Enquanto a mecanização não fizer sobrar a criação de bovinos de tracção, neste campo pouco há a esperar. Todavia, no campo da produção de animais especializados de carne penso ser conveniente dizer alguma coisa.
Desde antes de 1910 experimentei a introdução da raça francesa charolesa e bovinos indianos (zebu), como actualmente se faz na Brasil e nos Estados Unidos.
Depois de 1927 utilizei cruzamentos com Salers (uma raça francesa de trabalho e carne pouco especializada), mas as experiências não foram felizes, porque estes animais mal se adaptavam ao ambiente alentejano e como tractores eram inferiores.
Vi depois introduzir touros Hereford, Aberdeen, Augus e Durham (Shorthorn) e sei que ultimamente se têm importado charoleses, limosinos, de França, Deron, South Deron e Hereforde de Inglaterra.
Quando passo na lezíria de Vila Franca vejo a tentativa da Companhia das Lezírias e verifico que eles deixam que os novilhos cruzados se tornem adultos.
Deve ser uma consequência da questão do preço, que considera vitela só o animal com menos de 100 kg e aplica acima deste peso o preço mais baixo de adulto.
Nos países de intensa produção de carne matame o gado muito novo, quando dá 150 e 180 kg de peso limpo, porque este sistema, que permite uma produção intensa, também permite utilizar o leite, e especialmente leite magro, para estes animais, conjuntamente com erva e concentrados, nos primeiros cinco ou seja meses de vida.
O uso dos touros precoces ingleses, especialmente o Hereford, que é o mais robusto, permite criar vitelos ou jovens bezerros com bastante peso, utilizando qualquer mãe e mesmo as vacas leiteiras.
É possível que este sistema dê resultado, mas não com os preços actuais.
Lembro-me de ter ido a Taliga, terra que, como Olivença, já foi nossa, ver a criação de um meu bom amigo, o Dr. Gregorio Moreno, de Jerez de los Caballeros.
Ele criava só ternera (12 a 18 meses), que vendia depois de uma preparação de engorda com farinha de aveia, e com esse sistema, não tendo de criar novilhos, tinha setecentas vacas, quando eu, tendo de criar novilhos até 4 anos, só tinha cento e cinquenta vacas. Quer dizer: tinha quadruplicado a sua produção.
Sr. Presidente: vou concluir esta longa oração, que proferi paru que os meus colega:), dos quais muitos não conhecem estes assuntos, fizessem uma ideia mais concreta. Sou de opinião que é absolutamente de louvar a iniciativa de S. EX.ª o Sr. Ministro da Economia, que tanto procura acertar nestes assuntos ; todavia, creio que é necessário um estudo atento, tanto no limite dos preços como nas variedades de forragens a introduzir e ainda nos sistemas de criação, e se será do caso a introdução de métodos novos e raças precoces a utilizar; finalmente. as modificações a introduzir nos sistemas comerciais e de matança, não esquecendo que Portugal é o único país onde o talhante não pode escolher a carne que necessita vender e tem de se sujeitar à qualidade, quantidade e peças que lhe são distribuídas, o que é um sistema