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9 DE FEVEREIRO DE 1956 463

Nós vivemos na terra que o herói, discutindo-a com a ponta da espada, conservou em definitivo para Portugal. E definitivo só pode querer dizer «para sempre».

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Trabalhamo-la com o mesmo amor que os soldados de Mouzinho puseram na sua ocupação. Sobre nós está o mesmo sol de África que queimou de escuro a pele dos seus homens e os nossos pés, como as nossas charruas, andam naqueles tandos e machongos que o sangue desses portugueses tornou indiscutíveis para os outros e para nós.
Nessas terras três vezes portuguesas - porque as descobrimos, porque as civilizámos e porque, vitoriosamente, só discutimos a nossa soberania pela única forma que é possível discuti-la a um povo digno- erguem-se as nossas igrejas, onde se reza como em Portugal; constróem-se as nossas casas, onde vivem famílias em tudo portuguesas; levantam-se as nossas escolas, onde os nossos filhos se preparam para continuar Portugal.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Viveu Mouzinho os momentos duros mas gloriosos da reacção nacional, de que foi obreiro e símbolo, contra as violências que em Moçambique atingiram os nossos direitos.
Viemos nós, os de hoje, a viver orgulhosamente a reposição em Moçambique de uma justiça que nos foi reconhecida, até pela via do prestigio nascido de um conceito nacional de política de que se pode afirmar ter sido Mouzinho um precursor.
Do capitão de África, do governador que traçou rumos sempre actuais, guardamos nós ali a presença dum grande exemplo dedicado a um grande ideal. Um e outro conservamos para nossos guias.
É certo, Sr. Presidente, que a figura de Mouzinho pertence ao património de todos os portugueses e que esta intimidade com o meio onde se vincou a sua acção não dá especiais direitos a invocá-lo aos portugueses de Moçambique. O que lhes dá -porque lhes impõe- é particular dever em segui-lo. E isso, porque é da nossa honra, não o deixamos discutir a ninguém.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Não sei que fundamentos presentes ou suposições doentias quanto ao futuro possam levar a formular conclusões ou previsões acerca da fidelidade dos portugueses de Moçambique -dos de hoje ou de amanhã- ao espírito de Mouzinho e, consequentemente, à unidade da Nação.
Mas o certo é que algumas vezes surgem tais afrontas à nossa dignidade, quer murmuradas insidiosamente, quer mesmo escritas, com mais ou menos clareza, consoante o atrevimento ou inconsciência dos seus autores.
Quero crer, ainda, que a formulação de certas dúvidas - e duvidar, nesta matéria, é sempre ofender - tenha como base apenas uma observação apressada, assente em preconceitos prévios, assimilados não sei como e que procurem limitar-se a sugerir orientações com vista ao futuro, na convicção de que é preciso aconselhar os governantes a prever, não medindo o abismo que medeia entre prever mal e prever bem.

O Sr. Carlos Moreira: - O facto de ter estado durante quatro anos ligado a Moçambique leva-me a dar alguns esclarecimentos a V. Ex.a
Não creio que possam justamente lançar-se acusações sobre as comunidades portuguesas dos nossos territórios ultramarinos, mas há que fazer algumas restrições, em homenagem à verdade.
Certos elementos dirigentes ou, quando não dirigentes, associados por interesses, e quantas vezes por razões ocultas, deixam aos portugueses que por lá passam a impressão de que bastam alguns para perturbar o sentimento geral dos portugueses de Moçambique.

O Orador:-Como V. Ex.a afirmou, ninguém poderá com justiça acusar os portugueses de Moçambique, mas o certo ë que com injustiça se formularam dúvidas.

O Sr. Carlos Moreira: - Decerto que os portugueses de Moçambique merecem o nosso respeito, e o meu já há muitos anos que lho tributo. Mas é de admitir-se a existência daqueles indivíduos ou organizações a que me referi, com atitudes menos aconselháveis, com reservados intuitos, prejudicando por essa forma a verdadeira unidade nacional dos portugueses dessa grande província ultramarina.

O Orador:-Mas a generalização de quaisquer casos que se fizesse em relação a Moçambique é tão injusta e absurda como a que se poderia fazer acerca da posição que na metrópole possa ser assumida, como o é, por certos indivíduos ou organizações.

O Sr. Carlos Moreira: - Estou perfeitamente do acordo com V. Ex.a nesse ponto.

O Orador:-Sem discutir neste momento a intenção, os termos e a via dessa deturpação da verdade, quero repudiá-la neste lugar, com toda a energia, em nome de uma província portuguesa que não suporta dúvidas quanto ao que tem como o mais sagrado dos patrimónios.
E, sem referir qualquer caso concreto -até porque me desgostaria fazê-lo-, quero lembrar que, com Mouzinho, aprendemos em Moçambique a forma de tratar os que parecem querer discutir com palavras aquilo que o capitão não consentiu ao poderoso vátua que discutisse com azagaias.
Nem aos de fora nem aos de dentro admitimos que nos perguntem onde está a nossa honra de portugueses. E quando respondemos pela nossa respondemos também pela dos nossos filhos.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Se os rapazes e raparigas de Moçambique são forçados a estudar no estrangeiro por falta de possibilidades de ensino nacional, se os colonos e funcionários não vêem facilitado o seu desejo de se deslocarem à metrópole, se certos problemas económicos ou administrativos não foram ainda encarados pela forma que ambicionamos, se certos anseios tardam em ser resolvidos, se somos mais vivos em expor algumas sugestões ou protestos, em tudo isso não se pode ver mais do que a existência de problemas que aspiramos ver solucionados e que nos esforçamos para que o sejam.
Pelo mérito das causas, esperamos que elas sejam atendidas com a prontidão possível, mas nunca nos passou pela cabeça invocar, para as ver deferidas, o argumento dos riscos da desnacionalização nem passámos procuração a alguém para o fazer.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Devem os nossos problemas alinhar-se entre as preocupações de quem governa, mas não porque as soluções imperfeitas ou demoradas nos façam menos portugueses. Sabemos ainda, em Moçambique, distinguir