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18 DE JANEIRO DE 1962 407

Mostra-se, pois, que a depauperada região flaviense desfruta, afinal, de excelentes condições para se tornar num categorizado centro produtor de beterraba sacarina, que, e ainda segundo um minucioso desenvolvimento de cálculos revelado pelo mesmo engenheiro agrónomo no seu citado artigo, poderia colocar no mercado interno açúcar a 4$30 o quilo, contra o actual preço médio de 6$90 o quilo.
E fácil depreender quais os extraordinários benefícios de ordem económica e social que adviriam para a região em causa com a introdução da nova cultura. Mas é bom não esquecer que esses benefícios só poderiam concretizar-se duradouramente se, dentro ainda do plano de emparcelamento integral, logo se montasse a respectiva industria açucararia, com uma unidade fabril perfeitamente equipada e apta a realizar todas as tarefas que lhe devam ser exigidas.
Ficariam, na região os subprodutos de grande valor económico: a polpa, que constitui um excelente alimento para os gados, e que por isso fautorizaria o desenvolvimento da pecuária regional; os melaços, de que poderia extrair-se o álcool, em destilaria a funcionar como elemento da mesma instalação fabril, e os vários resíduos provenientes da extracção e da destilação, que seriam utilizados como fertilizantes da terra.
Por outro lado, a laboração dessa indústria importaria numa enorme vantagem no campo social, pois permitiria a absorção, preferencial, do excedentário em braços que a operação de emparcelamento naturalmente provocasse.
Mas não era tudo.
Emparcelada a terra, em obediência aos melhores princípios que devem presidir a tal operação, construída a indispensável rede de acessos amplos e cómodos, aproveitada e, se necessário, adaptada, a obra de rega já existente na veiga de Chaves, executadas quaisquer outras obras que fossem julgadas convenientes, de enxugo e drenagem, por exemplo, electrificada satisfatoriamente toda a área, montada a aludida indústria açucareira e criado assim, em moldes técnico-agrários perfeitos, um importante núcleo de exploração agrícola, o remate ideal para ele só poderia ser o da sua integração num regime cooperativista.
Não vejo outra solução para garantir a continuidade e o êxito dos resultados conseguidos com uma operação de emparcelamento.
Conseguida a estruturação ideal do agro, melhoradas as condições da sua exploração, incrementada a produtividade da mão-de-obra, possibilitada a introdução da máquina e do motor, aumentada a produção, industrializados os produtos, elevado o nível do trabalhador rural - seria rematada loucura permitir que o proveito único e substancial de toda essa magnífica obra fosse parar às mãos insaciáveis dos intermediários que astutamente se interpõem e escalonam entre a produção e o consumo, impedindo o progresso da lavoura e tornando dura a vida do consumidor!
Há que acabar com essa causa prevalente de asfixia da agricultura portuguesa.
E um dos melhores remédios para o mal é, precisamente e a meu ver, o cooperativismo.
Devidamente orientado pelos seus associados e com o apoio eficaz do Governo, traduzido em facilidades de organização, em isenções de contribuições e impostos, em assistência técnica e administrativa e em auxílio financeiro, o cooperativismo constitui, na realidade, meio adequado de defesa dos interesses que lhe são submetidos, permitindo, muito em especial, obter o melhor
aproveitamento económico e financeiro dos produtos e, portanto, que eles se vendam no produtor ao melhor preço possível.
Não pode ser outro o resultado, desde que se pondere que a cooperativa produz, que a cooperativa industrializa o produto, que a cooperativa transporta o produto, que a cooperativa coloca e vende directamente o produto ao consumidor.
Os lavradores de Soure e Montemor-o-Velho já se decidiram também, segundo estou informado, a acabar com o cancro dos indesejáveis intermediários. E ei-los, entusiasmados, a organizar-se para a constituição de uma cooperativa açucareira, com vista à industrialização da produção do açúcar de beterraba.
Exemplo a seguir por outras regiões do País, tê-lo-á de ser forçosamente pelos lavradores do futuro núcleo de emparcelamento da veiga de Chaves, a submeter à cultura intensiva da beterraba sacarina. O que não impedirá certamente, e antes encorajará, a constituição de outras cooperativas na área do concelho de Chaves.
Uma cooperativa de produtores da batata de consumo, por exemplo, a interessar todas as zonas em que esse tubérculo continuasse a ser cultivado, pareceria medida de alto significado para a economia da região flaviense, pela possibilidade que ofereceria de adjuvar, se não completar, a solução para os problemas da lavoura local que não ficassem contemplados pelos resultados do emparcelamento.
Mas cabe-me aqui fazer um reparo.
Quer a futura constituição da cooperativa dos produtores da beterraba sacarina, quer a da cooperativa dos produtores de batata de consumo, devera verdadeiramente merecer do Governo o melhor apoio. E esse apoio, para além de isenções de ordem fiscal, de auxílios financeiros e de assistências técnicas, deve concretizar-se em reais facilidades de organização.
Atentos os importantíssimos fins económico-sociais a atingir pelas cooperativas, não pode admitir-se que à sua constituição se oponham quaisquer entraves. E são entraves, por exemplo, em meu entender, quaisquer exigências no sentido de obrigar as cooperativas a contribuir com percentagens (que podem ir até 50 por cento) sobre os seus lucros líquidos para os grémios da lavoura, a título de subsídio!
Esta circunstância não pode deixar de funcionar como óbice muito sério à expansão dos ideais cooperativistas, e funcionou, efectiva e decisivamente, quando, em 1958, um determinado sector da lavoura de Chaves pretendeu organizar a sua cooperativa agrícola. Constituiu-se a respectiva comissão, fizeram-se reuniões, a que presidiu sempre um desbordante entusiasmo, alimentaram-se as mais sadias esperanças, elaboraram-se os estatutos, a partir do modelo geral, e quando tudo e todos se preparavam para festejar o nascimento da Cooperativa Agrícola Flaviense, eis que a brigada técnica da III região, a que foram submetidos, para aprovação, os referidos estatutos, decreta que dos lucros líquidos da Cooperativa deveria ser retirada suma percentagem nunca inferior a 50 por cento como subsídio ao Grémio da Lavoura de Chaves»!
E o resultado foi que essa Cooperativa não se constituiu, porque, como então se escreveu num ofício dirigido pela comissão organizadora àquela brigada, «desde que o lucro não fique todo na Cooperativa e seus associados, as futuras direcções não terão grande interesse em apresentar balanços finais com lucros apreciáveis, e isso impedirá a constituição de reservas necessárias ao desenvolvimento de qualquer associação desta natureza».