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9 DE FEVEREIRO DE 1963 2081

tempos que ainda conhecemos, afinal, para este frenesim de movimento que domina tudo e todos. E, no entanto, é ainda o mesmo homem que se move ao compasso das suas pernas (5 km por hora) e assim viveu milénios. Pobre dele, talvez não tenha tido tempo ainda de se adaptar ao ritmo fulgurante que o nosso século lhe impôs.

O Sr. António Santos da Cunha: V. Ex.ª não quis restaurar a diligência?!

O Orador: - Mas gosto ainda de lembrar.
Não sei que pensador fez notar esse desfasamento e a inadaptação da estrutura humana ao ritmo actual e às velocidades supersónicas no ar (mach 1, 2 e seguintes...), mas já também consideráveis em terra.
Tenho para mim que o espírito humano e as suas reacções psicofisiológicas levarão tempo ainda a sincronizar-se com a aceleração a que o submeteram.
Reparo no entanto na diferença entre a geração a que pertenço, a que a antecedeu e a que desponta quanto às suas reacções em relação ao mundo mecânico, em que esta foi já nascida e criada.
Quantos adolescentes de hoje se mostram capazes, quase instintivamente, de conduzir um veículo motorizado, de colocar esquis aquáticos e arrancar atrás de uma canoa automóvel, ou de entrar num avião de jacto (1000 km/hora) sem a menor crispação de surpresa ou medo?
Só não sei se será legítimo concluir se esse processo de adaptação se está a fazer naturalmente e que o mundo que surge será diferente, veloz, sintético, sem sentir sequer a frenagem das limitações ancestrais, apto a novos voos insuspeitados ...
E será progresso ou regresso?
Essa é afinal a incógnita dramática de todas as gerações, através dos tempos.
Lembro-me de ter visto há tempos uma deliciosa caricatura, parisiense em que desfilavam pelos Campos Elísios as costumadas filas compactas de automóveis. E dois marcianos, esses pedestres, comentavam cheios de espanto:
Não há dúvida - os habitantes da Terra têm cabeça, dois braços e quatro rodas.
E é esse afinal o nosso problema ...
Disse.

Vozes: -Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Sousa Birne: - Sr. Presidente, Srs. Deputados: razões de vária ordem resultaram em que suba a esta tribuna sob o terrível peso de uma contribuição que nada acrescenta, peso que duplamente me intimida pela elevada consideração por VV. Ex.ªs e pela alta dignidade desta magna Assembleia.
E só venho impelido pelo dever, perante a relevante importância e a permanente- oportunidade deste aviso prévio, que o ilustríssimo. Sr. Deputado Cancella de Abreu em boa hora e tão brilhantemente apresentou. Para pouco mais venho, na verdade, que para felicitar vivamente o mesmo Sr. Deputado e para manifestar o meu integral apoio à magnitude do assunto.
É que o País não vê quebrar o ritmo ascendente e cada vez mais tenebroso das desgraças que, diariamente, ensombram a rede das nossas estradas, e respectivamente das mais meritórias e deliberadas campanhas que à pugna constante e judiciosamente dedicam a imprensa, os órgãos associativos e o Governo da Nação, campanhas que quase de per si deveriam ser eficazes se só pelas estradas andasse quem soubesse andar.
Mas tantos são os loucos, os inconscientes ou os ignorantes, que transitam com criminoso desprezo por regras, por deveres, até pelos mais elementares princípios de educação cívica, que o País tem de continuar a preocupar-se séria e perseverantemente se quiser ver restringido aquele calamitoso ritmo de dor, de luto e de tremendos prejuízos materiais.
Já aqui foi dito, e não queria de forma nenhuma maçar com repetições, que os elementos estatísticos nos anunciam a ocorrência em 1961, nas rodovias nacionais, de 20 756 acidentes, acidentes que ocasionaram 738 mortos e 17 197, feridos. Só meditando um pouco se abre a frieza numérica para nos dar a justa e enorme medida da sua significância em danos morais, sentimentais e afectivos, danos que se consomem no silêncio íntimo dos lares, em sofrimento, em dor e em choro por irreparáveis perdas de entes queridos.
E quem desejar debruçar-se sobre a expressão do valor material dos prejuízos que aquela acidentalidade de 1961 revela não terá dificuldade em encontrar um número da ordem superior a 200 000 contos.
Por outro lado, revelam-nos os mesmos elementos estatísticos o grau da tendência óbvia ao crescente agravamento futuro de uma situação já muito grave.
Com efeito, o ritmo dos últimos anos de evolução de existências faz prever que o parque de veículos (com exclusão dos de tracção animal), que em 1961 se constituía por 779 095 unidades, das quais 317 095 referentes a automóveis ligeiros e pesados, tractores e motociclos e 462 000 a velocípedes, com e sem motor, o ritmo da evolução faz prever, repetimos, que este parque das 779 095 unidades de 1961 passará a ser da ordem de 1 120 000 em 1970 e a ser duplo do actual em 1980, com 1 540 000 unidades. Isto sem contar com a progressividade do índice evolutivo, que se desconhece, mas que deve existir.
E se proporcionalmente progredir a evolução da acidentalidade - e é lógico admitir que o aumento de tráfego, intensificando embaraços e problemas de trânsito, a relevará muito mais ainda, se não for acorrentada - o quadro negro será cada vez mais negro e a tenebrosa lista das vítimas poderá atingir dentro de alguns anos grandeza anual superior a 1000 mortos, e 25 000 a 30 000 feridos.
E assumirá assim também cada vez mais impressionante severidade aquele elevado montante de prejuízos materiais resultantes, que já hoje tão improficuamente assoberba o rendimento do País.
Desta forma se reveste o problema dos acidentes de viação, pelo que já é e pelo calafrio da sua crescente e tenebrosa amplitude, da magnânima autoridade que o torna credor de todo o carinho e preocupação, nem que carinho e preocupação signifiquem agressividade coerciva para os que teimarem em querer matar.
Era intenção nossa apreciar com algum pormenor a natureza e o seu índice de influência das causas específicas que a leitura da imprensa e o exame da estatística nos revelam e confirmam estar na origem da quase totalidade dos acidentes.
Essa apreciação já foi no entanto aqui brilhantemente feita com toda a propriedade e com alto conhecimento da causa pelo Sr. Deputado Cancella de Abreu.
Abstenho-me, assim, de a fazer para não incorrer de novo numa repetição, com certeza ainda por cima altamente desvalorizada, dos mesmos conceitos.