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19 DE MARÇO DE 1964 3717

algumas obras começadas têm de ser suspensas por falta de verba até que se consiga o reforço necessário. Entretanto, os técnicos, que não são poucos e que não são dos mais mal pagos, continuam a vencer, absorvendo as dotações que lhes são destinadas e que saem desses investimentos, sem produzirem o que podem e devem produzir - estou certo mesmo: o que queriam produzir, por brio e dignidade profissional.
Evidentemente - diga-se, em parêntese - que esses técnicos contratados não podem deixar de perceber o que pelos contratos lhes é devido. Não têm culpa de que falte o dinheiro para a mão-de-obra ou para o material, e certo é que têm de manter a sua vida normal.
Do que não há dúvida é de que destes atrasos resulta, por vezes, a perda de trabalhos já executados, mas que não se completaram e que a acção do tempo se encarrega de destruir. Daí a necessidade de se repetir ou, pelo menos, de recompor trabalhos já feitos, o que, se não representa uma duplicação de dispêndios, constitui um acréscimo escusado a reflectir-se nas contas públicas, em aumento de despesas de que não podem tirar-se resultados correspondentes.
E quanto a técnicos, há uma pergunta que ocorre e que todos formulam: não haverá técnicos a mais em Cabo Verde, em prejuízo dos investimentos ou em prejuízo da materialização das obras?
É de notar que uma grande parte desses investimentos destina-se aos técnicos. Que fica para a mão-de-obra e para os materiais?
Eis um factor a ponderar.
Claro que não pretendo a realização de obras sem planos técnicos e sem a orientação e fiscalização especializadas.
Contudo - est modus in rebus - , parece que as coisas transcendem os limites desejáveis, e o povo, na sua velha sabedoria, já trata todo o funcionário que desembarca por "Sr. Engenheiro ...".
Em Coimbra, Sr. Presidente, todos somos "Sr. Doutor"; em Cabo Verde, cada um de nós é para o caixeiro, para o engraxador, ou para o catraeiro, o "Sr. Engenheiro". Isto define um estado de alma, se não uma ironia a dar significado ao desusado número de técnicos que nos últimos anos têm entrado na província.
Ora, admito e aceito que seja de certo modo justificável essa avalancha de técnicos que nos transformou a todos em confundidos engenheiros. Mas admito-a para o início dos empreendimentos, para lhes dar o impulso necessário. Uma vez, porém, montada a máquina técnica, uma vez em funcionamento o sistema técnico, há que reduzir o número de especializados, de forma a estabelecer o justo equilíbrio em face das realidades e possibilidades que se oferecem, para não estarmos a esbanjar dinheiros numa ostentação técnica que não compensa.
Técnicos? Sem dúvida que sim! Mas em número e qualidade impostos pelas realizações em curso e sempre - mas sempre - tendo em vista que os investimentos não podem ser absorvidos pelos técnicos e que a acção destes é necessàriamente limitada pelas disponibilidades existentes.
De outra forma continuaremos com obras por completar e, portanto, sem os resultados desejáveis.
De resto, enquanto técnicos de todas as categorias e especialidades ocupavam as várias brigadas que se deslocaram à província, os serviços normais de obras públicas, por exemplo, quase sempre com um único engenheiro e um reduzidíssimo quadro de auxiliares, produziram no arquipélago obras que ficam a atestar uma actividade notável e que bem merece da gente de Cabo Verde. Com esses elementos tão reduzidos, construíram-se edifícios públicos, como o Palácio da Justiça e o edifício para o Liceu da Praia, casas para funcionários, edifícios escolares e muitas outras obras de vulto, sem necessidade de espaventosos quadros técnicos, supridos pelo chefe dos serviços, Eng.º Tito Esteves, e seus colaboradores do quadro próprio, nem sempre totalmente preenchido, como disse, e, pior do que isso, a ganharem menos que os funcionários das brigadas.
Aliás, as obras públicas de Cabo Verde, sob a chefia do Eng.º Tito Esteves - digam o que disserem - , produziram de forma a merecer encómios e reconhecimento. Obras caras? Mas estão lá. Com defeitos? Sem dúvida ...
A perfeição não é apanágio dos homens, mas houve um saldo positivo palpável e, em Cabo Verde, quando isso acontece, é de se agradecer e aproveitar a lição.
Esta realidade convence-me da necessidade de rever o assunto do número de técnicos indispensáveis, e nesse sentido se está actuando em Cabo Verde.
Esperemos que em consequência, o material e a mão-de-obra tenham maior primazia na aplicação dos dinheiros investidos, para que se avance mais depressa e mais cedo se colham resultados.
No que respeita ao desenvolvimento económico de Cabo Verde, está assente que a agricultura não pode satisfazer só por si as necessidades do arquipélago. A agricultura é em Cabo Verde não a arte de empobrecer alegremente, como vulgarmente se diz, mas a de empobrecer ainda mais e bem tristemente. As condições do clima, por de mais conhecidas, não favorecem, e as estiagens são um flagelo que não vale a pena desenvolver como tema, tão dolorosos e repetidos têm sido os seus efeitos nas ilhas que se tornaram lugar-comum a estigmatizá-las como arquipélago da fome.
Há, portanto, que industrializar as ilhas, aproveitando no máximo tudo o que a Natureza, tão pouco pródiga para elas, se não lembrou de lhes tirar e até a sua situação geográfica, para a industrialização de outros produtos, que, não sendo próprios, podem ser ali explorados em condições de rentabilidade, como seja o descasque da castanha de caju. além da tão desejada refinaria e outros.
O Sr. Eng.º Araújo Correia preconiza como um dos caminhos para essa industrialização a pesca e seus derivados.
Eis, Sr. Presidente, uma riqueza que inexplicavelmente temos descurado e de que até os Japoneses, vindos lá do longínquo Japão, se têm aproveitado.
Parece que vamos despertar desta letargia.
Duas grandes empresas - grandes em qualquer parte e mormente na relatividade do meio - pretendem instalar-se em Cabo Verde, dando um impulso sério e decisivo à respectiva indústria.
Estou certo de que serão facilitados todos os meios necessários para que estas iniciativas se concretizem, convencido como estou, por informações fidedignas, de que qualquer delas está suficientemente apetrechada em pessoal e material para evitar um malogro que os capitais a investir - 250 000 contos cada uma - não podem admitir que se presuma possível. Ninguém vai para Cabo Verde com tanto capital e com o entusiasmo, com o interesse, com a esperança que toda esta gente - Portugueses e Alemães - manifesta pelas nossas ilhas.
Só visto e ouvido, Sr. Presidente. Tenho estado em contacto com eles e sei que o seu entusiasmo se baseia em estudos sérios que abrangem todos os aspectos concernentes, incluindo prospecções decisivas em moldes científicos que não podem deixar dúvidas acerca das finalidades a atingir.
"Aquilo chega para todos - dizia-me há dias um técnico alemão - , chega para as duas empresas e até chega para terceiro concorrente que queira e se disponha a colher a