19 DE MARÇO DE 1964 3713
Mas houve e há mais fornecedores; as indústrias metropolitanas têm comprado cada vez mais u Rodésia; de cerca de 1800 contos em 1954, passou a ser de quase 10 000 contos a posição desta no mercado metropolitano em 1962, e só no último ano abrangido no estudo a transacção duplicou de volume, atingindo quase metade do total comprado a Moçambique.
Numa breve digressão que fiz em 1962 pela zona do Chimoio e de Manica, fui informado de que era de uso entre os produtores o concorrerem aos locais de concentração da Rodésia com os seus tabacos do tipo "Virgínia"; davam-lhe ali boa aceitação agentes americanos de firmas ou entidades que comandariam grande parte do comércio internacional do tabaco; dessas firmas, a planta passaria, já americanizada, aos contingentes requisitados pela indústria de diversos países, incluindo a nossa; a ser assim, teríamos de admitir que algum do tabaco que se fuma por esse País fora já terá viajado mais do que os seus primitivos donos ou os últimos fumantes - até pela terra dos arranha-céus.
Por força de vicissitudes da vida colectiva da lavoura da região, andaria então quase perdido, se não de todo, o rumo da Rodésia. E todos se queixavam - como certamente ainda hoje - da calamitosa preferência dada pelas indústrias da metrópole ao mercado americano.
Na produção de Manica e Sofala vai tendo já também seu peso a cultura dos colonos de Sussundenga, sob a orientação da brigada técnica do aproveitamento e povoamento do Revuè, cujas instalações modestas abrigam um grupo de homens dedicados e competentes. A brigada proporciona assistência aos colonos enquadrados na área do aproveitamento (europeus e africanos) e, de uma forma geral, à região do Chimoio e de Manica e já ali se obtêm produtos perfeitos e capazes de ajudarem a satisfazer o considerável volume das exigências europeias, se não de um momento para o outro, ao menos a passo rápido, se se não mantiver aqui na Europa o velho hábito de não dar um passo em frente para responder aos apelos da população e dos governantes, pressurosos, aqui como na província, de impulsionarem a libertação da economia nacional do pesado jugo que sobre ela ainda exercem as economias estrangeiras e sempre prontos a acudirem aqui, além, onde quer que vejam aflição.
A lavoura do distrito em que resido tem todas as razões para estar grata ao Sr. Governador-Geral, e até ao Banco Nacional Ultramarino, que a reergueram do desmaio. Considero obra de alcance nacional tudo quanto se faça para a transformar numa colaboradora eficaz no próprio fortalecimento da economia do conjunto; ela quer ter o seu papel na grande empresa; restará talvez que o queiramos todos, numa digna e corajosa compreensão do movimento de recuperação e reagrupamento a que lançou mãos o Governo pela pessoa do Sr. Ministro de Estado.
Um jornalista brasileiro, creio que Caio Júlio César Vieira, que visitava Moçambique depois de ter visitado Angola, o ano passado, a convite do nosso Governo, ao comentar a forma de dar realidade à tão desejada reaproximação luso-brasileira recordava que as comunidades não poderiam subsistir se fossem obrigadas a viver apenas agarradas a uma recordação; forçoso era dar-lhes realidade no vaivém da vida material.
No caso luso-brasileiro convinha desde já estudar um plano de intensificação do intercâmbio, que ele iria para a sua terra advogar nos seus jornais. A este intercâmbio dava ele o nome pitoresco de "política de secos e molhados"; desde que nada de essencial estava perdido na comunidade das duas pátrias irmãs, restaria concretizar mais o apego, que até no campo internacional havia de fazer sentir o seu peso.
Aprovei cordialmente a sugestão; também os governos a aprovam; também os povos. Mas recordo a semelhança das situações: estamos nós, cá dentro do País, Governo e cidadãos, empenhados na mesma "política de secos e molhados" entre as várias parcelas do território nacional. Pois saibamos intensificá-la, fazê-la uma realidade activa e temerosa, diante da qual se detenham os intrusos e os intriguistas da dissolução ou do amuo. Bem haja o Governo, as instituições, as entidades, por todos os passos dados no caminho da total integração portuguesa.
E, para começar, aí temos esses dois campos: o algodão e o tabaco.
Entendo dever deixar à observação dos Exmos. Colegas de melhor domínio dos problemas económicos do que o meu um quadro que me alarmou e de que o relatório apresentado à Assembleia contém um comentário elucidativo no § 9.º da parte introdutória. Esse quadro comporta precisamente a comparação dos valores totais da importação e exportação metropolitanas ao longo de 34 anos de actividade nas relações internacionais.
Em tão longo período apenas três anos a fio, 1941, 1942 e 1943, e graças a circunstâncias especiais da vida internacional, apresentam saldo a favor de Portugal; os restantes 31 anos são de perda, por vezes considerável, e um dos últimos, 1961, mostra-nos do lado da importação o dobro do que se vê do oposto (18 863 000 contra 9 373 000 contos); ainda em 1962, o excesso das importações sobre as exportações é superior a 6 milhões de contos e, se nestas últimas se atingiu uma posição levemente melhor do que a do ano anterior, a verdade é que trabalhámos mais caro, ou antes vendemos mais caro.
Há dias, no número de 6 de Março corrente da edição atlântica da revista Time, a minha atenção foi atraída para uma caricatura: a figura do Primeiro-Ministro de S. M. Britânica agitava na mão um rolo em que se via o título "Economia" e alargava as pernas esgalgadas, de modo a ter um pé sobre cada um dos bordos de um abismo. Este intitulava-se "Beneficência de 9 600 000 contos no comércio"; tratava-se do comércio externo de 1963, e a falha tinha aproximadamente o vulto da que apresentam as nossas contas em 1961. Ao lado da figura havia um texto. VV. Ex.ªs provàvelmente já o conhecem. Citavam-se nele as medidas que o Governo Britânico tinha em vista para debelar o mal: primeiro, dissuadir os comerciantes de uma expansão demasiado rápida e principalmente de uma importação excessiva; depois, forçá-los a resistir aos aumentos de salários exigidos pelas uniões.
Aventava-se a hipótese de o Reino Unido aumentar a taxa de juro, mas acentuàva-se que esta decisão podia ser de consequências desagradáveis para os Estados Unidos, cujo Secretário do Tesouro pedira recentemente aos países europeus que não aplicassem este ano quaisquer medidas do género, para evitar que o gigantesco país recaísse numa sangria de divisas que se vinha como que tornando habitual e tanto custara a dominar. Acentuava-se que já actualmente, com uma taxa de juros mais elevada em 1.5 por cento do que a americana, os capitalistas americanos estavam a ser tentados a investirem no Reino Unido.
Se não entendi mal os números e as palavras da local, o Reino Unido tivera um deficit comercial de 9 600 000 contos no mesmo ano de 1963, com uma exportação de 326 milhões de contos, e andava por lá alarmada toda a população do Olimpo. Reduzi mentalmente as coisas à modéstia da nossa casa e vi que não podia deixar de reconhecer quanta razão se contém no relatório das contas que agora estamos a apreciar: ou a população diminuirá, acentuando-se a exportação de excedentes demográficos, com a família atrás de cada homem válido, ou baixa o nível do consumo e se reduz ainda a dieta magra de couves e bata-