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3994 DIÁRIO DAS SESSÕES N.º 203

A volumosa correspondência do Doutor Salazar - escrevia partas constantemente - e as célebres notas em papel de bloco que, sempre acompanhadas de um cartão, mandava aos Ministros e a tanta gente, devem ser montanhas, pois, não havendo orientação ou disciplina de partido, era ele que mantinha, num determinado rumo, a reunião das pessoas e a coerência das decisões.
Mas, além disso, quem conhece o seu método de trabalho, a forma como vivia, as suas reacções emocionais perante os grandes e os pequenos problemas, a sua caridade, o seu aprumo moral?
Quem sabe como defendeu a sua casa dos interesseiros, dos mal comportados, de toda a casta de arrivistas que sempre pretendem ser corte dos homens, poderosos?
Quem anotou, por exemplo, esse traço característico da sua maneira de ser que o levava a cumprimentar mais respeitosamente os humildes do que as pessoas da categoria e quem sabe como ia longe o seu espirito de independência e de elegância, como se vê do que me disse quando, sendo seu secretário, lhe entreguei pela primeira vez o ordenado de Ministro das Finanças, no dia 20 de determinado mês: «Não se importa de o guardar no cofre do Gabinete, até no último dia do mês, e trazer-mo só nessa altura? E que eu, se um dia tiver de voltar para Santa Camba, não quero levar comigo nem o pó dos sapatos, quanto mais Ter de fazer contas e de repor dinheiro.»
Quem ouviu, sem ser os que com ele lidaram de perto, os seus comentários de grande espírito, as vezes mordazes e mesmo sarcásticos? Quem notou que, céptico sobre a Humanidade, se isolava, não por desprezar as pessoas, mas para não se emocionar e estar calmo para o trabalho e para as grandes decisões?
A história do pensamento político do Doutor Salazar e da sua actuação de governante faz-se com documentos doa diferentes departamentos de Estado e com os seus discursos e escritos principais. Mas o seu perfil moral, o desenho da sua personalidade riquíssima, esse necessita do conhecimento da abundante correspondência particular e de toldos estes incidentes de pequena história, que é indispensável registar.
E o apelo que daqui faço, Sr. Presidente: que o Estado, a família, os amigos e colaboradores do grande estadista não deixem perder ou dispersar, anotem e compilem tudo o que diz respeito e interessa a crónica da vida portuguesa destas emocionantes quatro décadas.
Se todos assim procedermos, ajudamos não só a escrever a história de que todos fomos autores, mas asseguramos também, e muito justamente, que não se esfume nem deteriore a lembrança do Doutor Salazar.

Vozes: - Muito bem! Muito bem!

O Sr. Trigo Pereira: - Ao trazer a esta Câmara breve nota acerca da realização em 8 do corrente de um novo Arrolamento Geral de Gado, estou a ser motivado por dois dos aspectos fundamentais que envolvem a iniciativa agora tomada pelo Governo.
O primeiro será; como não pode deixar de ser, de natureza política, e digo política, pois é sem dúvida a expressão de uma atitude e de um desejo firme na procura de elementos certos e seguros, para sobre eles se alicerçar as tomadas de posição face aos graves problemas que afligem neste momento os responsáveis pela definição das grandes linhas que hão-de orientar a produção animal, no
sentido de esta vir a satisfazer, na medida do possível, a crescente procura de bens de consumo de que somos deficitárias.
O segundo advém da certeza de que só desta forma se sairá do campo das hipóteses, da elaboração fastidiosa e muito trabalhosa de cômputos e de índices sobre os quais temos desde 1955 arquitectado grande parte das especulações que se têm levado a termo neste sector importantíssimo do produto nacional bruto.
Em muitos casos é de espantar como se tem conseguido alicerçar planos de desenvolvimento, esquemas de ordenamento, de reconversão, de apoio financeiro, de sistemas de subsídios e até de planificação de importações, sem se dispor de um tão valioso como imprescindível elemento de trabalho como é um arrolamento actualizado.
Não me escuso por isso a deixar aqui registado o que os responsáveis pela matéria em causa escreveram em 1873, ao entregarem para apreciação no respectivo Ministro o Recenseamento Geral dos Gados do Continente do Reino de Portugal: «Convém que o andamento deste processo se registe, porque daí pode reflectir bastante luz, para esclarecer o» que de futuro forem chamados a inventariar a nossa riqueza pecuária.»
Historiando, direi que em 1849 Carlos Bonnet elabora a estatística da quantidade e valor dos gados nos três distritos do Alentejo;
Que a Repartição de Agricultura elabora e publica em 1854 as Estatísticas do Número de Cabeças dos Gados Existentes em 1852;
E que em 1870 se leva a efeito o extraordinário Recenseamento Geral de Gados, a que me tenho referido, e que constitui a pedra base dá nossa estatística pecuária e do conhecimento das raças exploradas no País.
De então para cá foram ainda realizados mais os seguintes: 1934, 1940 e 1955.
Depois desta última data segue-se o silêncio estatístico global em que temos vivido nestes últimos dezassete anos.
Que irreparável perda foi não se ter realizado o arrolamento que agora se vai fazer no ano de 1970! Teríamos coberto um século justo da história do sector pecuário, e reparai que os elementos que os homens de 1870 nos legaram chegaram para o fim que aponto, e se não vejamos: há pois em Portugal, na fé do recenseamento, 58 cabeças de gado por 100 ha absolutos; 208 por 100 ha cultivados, e 1361 por 1000 habitantes. Ora sendo esta relação para toda a Europa de 41 cabeças por 100 ha absolutos e 1420 por 1000 habitantes, Portugal, estando, quanto à relação de superfície, acima da relação europeia geral, figura assim então como um dos países da Europa de alguma importância pecuária.
Aqui deixo a nota.
Mas, para que agora possamos, chegar a elementos que inspirem confiança e sejam dignos de virem ocupar na história da estatística pecuária lugar semelhante ao dos arrolamentos: de 1870 e de 1940, desta bancada faço um veemente apelo a todos os possuidores de gado para que o manifestem, e a todos os responsáveis pela colheita daqueles elementos junto dos criadores e produtores que sintam o peso da responsabilidade que lhes cabe na elaboração de um documento que servirá de alicerce no IV Plano de Fomento à política de fomento pecuário.
Com a certeza de que bodos havemos de cumprir o nosso dever, estamos certos e seguros de que o sacrifício do investimento que esta iniciativa obriga será sobejamente compensado pela possibilidade de caracterização do valor numérico do nosso pegulhal, nas diferentes espécies produtoras, da estrutura do nosso rebanho e da sua capacidade actual e futura.