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27 DE ABRIL DE 1981 2129

Desta vitória depende, em grande parte, o Portugal mais justo, mais fraterno s mais livre que todos queremos, e havemos de ser.
Confiamos no futuro.
Confiamos na liberdade e na democracia.
Confiamos em Portugal.

Aplausos do CDS do PSD e do PPM...

O Sr. Presidente:- Tem a palavra o representante do Partido Socialista, Sr. Deputado Salgado, Zenha.

O Sr. Salgado Zenha (PS): - Sr. Presidente da República, Sr. Presidente da Assembleia da República, Srs. Deputados: Comemorar o 7.º aniversario da Revolução de 25 de Abril é para nós, socialistas, sobretudo um acto de fé e de esperança. Já muitos têm tendência para esquecer o que foi a vida melancólica, estagnada e angustiada dos Portugueses durante os longos anos da ditadura. O 25 de Abril rompeu com a noite do passado e inaugurou um período de claridade e de progresso, embora entrecortado por dúvidas, entrechoques e até convulsões. Mas todas essas crises de crescimento e consolidação da democracia se resolveram sob o signo da paz civica. Já se

Ttem salientado que a Revolução dos Cravos foi a

• revolução mais pacífica do Mundo. E é exacto. Mas

"poucas vezes se tem destacado que Portugal é neste momento uma das poucas democracias da Europa do Sul onde não existe a violência política generalizada. E nem se diga que esse capital da nossa jovem" democracia se deve â tradicional suavidade dos nossos "Costumes. 'Nada de mais longe da verdade. Os últimos anos da monarquia caracterizaram-se por uma repressão desapiedada dos chamados «crimes anarquistas», nomeadamente através da famigerada Lei de 13 de Fevereiro de 1896,...

Vozes do PPM: - Não apoiado!

O Orador: -... tão duramente fustigada pela propaganda republicana. A República, essa, então teve de se haver com uma vaga de atentados bombistas, sobretudo depois do fim da I Grande Guerra, que não foi capaz de debelar. Esse surto do que então se chamavam os «crimes sociais» contribuiu de forma decisiva para o sucesso do golpe militar fascista de 28 de Maio de 1926. Quando nesta data fatídica um grupo de militares reaccionários se sublevou contra o regime democrático por entre o cansaço de uma população flagelada pela inflação, a insegurança pessoal e a intranquilidade política, quase ninguém em Portugal teve a consciência de que esse grupo de coronéis obscuros, cujo nome a história mal regista, que recrutara à última hora para a conspiração o nome prestigiado de Gomes da Costa, iria inaugurar a ditadura mais longa da Europa Ocidental, dado que pouco lhe faltou para atingir o meio século. Gomes da Costa foi deportado para os Açores alguns : meses depois, mas a ditadura, essa, foi-se firmando, de modo a cobrir rapidamente com a sua sombra opaca todo o Pais, sem excepção. Eis a lição a extrair do que nos aconteceu: sabe-se sempre quando uma ditadura começa, nunca se sabe quando ela acaba. O sol da liberdade acabou por despontar de novo graças ao 25 de Abril, mas apenas depois de uma longa noite de quase meio século, em que a liberdade e a esperança de um povo jazeram sepultadas sob a opressão e o desprezo de uma oligarquia. Recuperámos a liberdade e dignidade, mas não se diga que são de pouca monta os problemas com que ainda nos debatemos. Bastará lembrar que, tomando apenas como termos de comparação a Espanha e a
Itália, a capitação do nosso rendimento é de cerca de 50 % da desses países, o que bem mostra o fosso extraordinário que nos separa mesmo dos nossos vizinhos mais próximos, a todos os títulos.
A este crónico atraso económico e cultural juntam-se outros problemas de todos conhecidos, dos quais os mais .sentidos são, indiscutivelmente, a alta acelerada do custo de vida, a elevada taxa de desemprego e o avultado défice externo.
Há uma longa tradição dos Portugueses para conquistarem ó seu lugar ao sol através da emigração. Primeiro, o Brasil, depois, a África ex-portuguesa e, finalmente, a Europa serviram de refúgio àqueles que não conseguiam encontrar na sua pátria o lugar a que tinham direito.
Hoje em dia, porém, essa porta de saída estreita-se cada vez mais. E será utópico pensar que a nossa adesão à CEE, em data ainda um tanto ou quanto
incerta, nos irá reentregar a chave perdida da porta almejada.
A crise mundial é hoje um facto, uma realidade, com tendência para se agravar cada vez mais nestes anos mais próximos. Não interessará dissertar sobre, as suas origens. Bastará apenas acentuar este facto. Nenhum estadista, nenhum economista, nenhum cientista, foi capaz ainda de apontar o caminho que nos leve mesmo que apenas ao princípio da inversão do movimento compressivo da crise. (E, no entanto, não há crise sem saída para um povo decidido a enfrentá-la e a vencê-la!).
Vários cavaleiros do Apocalipse percorrem e assustam agora o Mundo: fome, miséria, desemprego, guerra, corrida aos armamentos, armas nucleares. É também um factor de graves preocupações a instabilidade internacional de um mundo dividido em zonas de influência, cujos limites são permanentemente contestados por dentro e de fora, através de conflitos pontuais, por detrás dos quais raro se não descortinam as grandes potências, atentas, se não interventoras. E que dizer do Terceiro Mundo, o qual se poderá chamar sem receio o pecado mortal do
século XX? Bastará dizer-lhe que estão bem-aventurados no céu os que têm fome e sede de justiça? É evidente que os humilhados e os ofendidos reclamam algo de mais concreto, e ai daqueles que procuram abrigar-se no egoísmo da sua lareira para deste modo fingirem ignorar as labaredas de desespero que incendeiam o Terceiro Mundo! Assim como aquele que nos incertos dias de hoje queira reduzir a política a um capítulo da arte do espectáculo mais cedo ou mais tarde soçobrará no verbalismo inoperante, assim também o egoísmo daqueles que teimem em
ver as grandes correntes de fundo da nossa época como algo de que nos poderemos isolar, convertendo Portugal numa espécie de república das Berlengas, só , poderá arrastar o nosso país para o mísero destino a que nos conduziu D. João III, com a sua política mesquinha da contra-reforma e que tempos depois nos custou a perda da independência. Num belo livro Ramalho Ortigão estabelece o paralelo entre a Holan-