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2348 I SÉRIE - NUMERO 61

encontravam várias presos na Irlanda. Nessa votação unânime tivemos ocasião de dizer que votámos porque entendemos que a condenação da violação dos direitos do homem não pode ter restrições, sejam elas processuais ou invocadas como possíveis confusões de ingerência em relação a atitudes de Estados soberanos.
Não é isso que está em causa. O que deploramos são os abusos do poder por todo o mundo, seja na Europa, na América, na África e na Ásia. E fazemo-lo sem limitação ou sem fronteiras.

O Sr. João Lima (PS): - Muito bem!

O Orador: - Fazemo-lo hoje com a mesma autoridade com que em relação a outros locais do mundo condenaremos idênticas violações.

O Sr. César Oliveira (UEDS): - Muito bem!

O Orador - O voto que está em causa não é, do nosso ponto de vista, nenhuma posição em relação a mais do que uma situação concreta de violação dos direitos do homem, que se saldou tragicamente pela morte de um deputado eleito livremente. Nós não confundimos um governo autoritário com um governo democrático. Entendemos que o Governo Inglês merece da Câmara o mesmo respeito que nos merecem todos os governos democráticos, mas pensamos que também os deputados livremente eleitos pôr esta Câmara devem merecer do Governo Inglês e dos seus representantes o mesmo respeito com que nós respeitamos essas autoridades.

Vozes do PS e da UEDS: - Muito bem!

O Orador-Não admitimos, portanto - e nós é que não admitiremos -, qualquer forma de ingerência, seja ela feita através de uma chamada do embaixador português na Grã-Bretanha, sem que o Governo reaja eficazmente a essa chamada...

Vozes do PS e da UEDS: - Muito bem!

O Orador: - ... nem as cartas que o Sr. Embaixador da Grã-Bretanha em Lisboa resolva dirigir a deputados.

Vozes do PS é da UEDS: - Muito bem!

O Orador: - E repetiria, como em 17 de Dezembro, aliás recordando uma greve de fome feita por Mounier,. quando preso pelo regime de Vichi. Antigamente, as pessoas lançavam-se para baixo, da carruagem real. É extremamente importante que, no nosso tempo, seja preciso recorrer de novo a extremos, que se dê mais atenção a um homem que pode perder a vida do que a um homem a quem se tiram, ao mesmo tempo, os meios de vida, a liberdade e a honra.
Por isso, votámos em 17 de Dezembro, por isso apoiamos agora o voto da UEDS.

Aplausos da ASDI, do PS, da UEDS e do MDP/CDE.

O Sr. Presidente: - Para uma intervenção, tem a palavra a Sra. Deputada Helena Cidade Moura.

A Sra. Helena Cidade Moura (MDP/CDE): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Será dia de luto e, sobretudo, dia de renovada luta para todos os democratas, para todos os homens livres e, diria ainda, para todos os católicos aquele dia em que Bobby Sands entrega à causa já antiga do seu povo o último instante de uma vida inteira dedicada à liberdade de viver e à dignidade de poder existir.
Referimos no 25 de Abril que Bobby Sands era um símbolo da busca que o homem prossegue no sentido da libertação existencial; hoje, a sua morte dá-nos a medida da profundidade e da convicção dessa luta.
O mundo inteiro treme quando à morte se confere um sentido colectivo. A morte de Bobby Sands é um dies irae para às forças retrógradas, conservadoras, enregeladas em princípios fossilizados e ela é uma aleluia para os que acreditam no esforço do homem e na glória da sua capacidade de dedicação total a uma causa colectiva.
Para além de um povo que o elegeu e lhe conferiu 'a dignidade de seu próprio representante, Bobby Sands tem uma mãe que não só o ama, mas que o respeita profundamente como homem e como mártir.
Também naquela mulher a grandeza da vida vence a morte e a grandeza do amor vence a própria dor. Essa mãe de um homem a quem o Governo Inglês não dá o direito a estatuto de preso político concedeu ao seu filho o estatuto de mártir, de herói da liberdade e da resistência, de símbolo de luta do seu povo.

Vozes do PCP: - Muito bem!

A Oradora: - Ao perguntarem-lhe se não queria que o seu filho fosse alimentado quando entrasse em estado de coma, respondeu simplesmente que amava o seu filho como qualquer mãe,- mas que ele tinha de decidir e «nós temos de respeitar a sua decisão».
É a dignidade da vida, a dignidade da morte que se ergue perante a mediocridade dos conluios políticos servidos por frases despojadas de sentido, e verdades feitas de palavras vazias.
Ouçamos estas, por exemplo, autenticadas, e que nos permitimos não revelar a procedência:

No que respeita à decisão do Sr. Bobby Sands de entrar em greve da fome, gostaria de referir que a política adoptada pelo Governo Britânico não prevê a alimentação dos prisioneiros pela força. Infelizmente, portanto, o Governo não tem qualquer possibilidade de impedir a morte do Sr. Sands, se ele estiver de facto decidido a morrer.

Sands estava de facto decidido a morrer e morreu, melhor seria dizer: estava decidido a vencer e venceu.

Vozes do MDP/CDE e do PCP: - Muito bem!

A Oradora: - O povo português sentiu, entendeu a vida e a morte de Bobby Sands e os presos de delito comum da Irlanda, que a Inglaterra tenta há séculos explicar, continuam hoje a não ser entendidos pelos Portugueses.
Há cem anos em 1880 Eça de Queirós dedicou à luta e ao povo irlandês páginas que o MDP/CDE