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8 DE MAIO DE 1981 2349

evoca aqui hoje nesta Assembleia, com o sentido da solidariedade e em homenagem ao povo de Bobby Sands.
Escreveu Eça de Queirós:

Outra história melancólica é a da Irlanda. Quem não conhece as queixas seculares da Irlanda, da Verde Erin, terra de bardos e terra de santos, onde uma plebe conquistada, resto nobre de raça céltica, esmagada por um feudalismo agrário, vivendo em buracos como os servos góticos, vai desesperadamente disputando à une, à rocha, ao pântano, magras tiras de terra, onde cultiva em lágrimas a batata? Todo o mundo sabe isto - e desgraçadamente, esta Irlanda de poema e de novela é...

O Sr. Presidente, eu acredito que os Srs. Deputados não gostem da prosa de Eça de Queirós, mas eu gostava de silêncio...

O Sr. Presidente: - A Sra. Deputada tem razão na observação que faz. Eu peço aos Srs. Deputados o favor de fazerem um pouco mais de silencio para que a Sra. Deputada se possa fazer ouvir.

Uma voz do CDS: - É que é uma chatice!

A Oradora: - Muito obrigada, Sr. Presidente. Continua Eça de Queirós:

Todo o mundo sabe isto - e, desgraçadamente, esta Irlanda de poema e de novela é, em parte, verdadeira: além dos poucos distritos onde a agricultura é rica como em qualquer dos ubérrimos condados ingleses, além de Cork ou Belfast, que têm uma indústria forte, a Irlanda permanece o país da miséria [...]
[...] Os males da Irlanda, muito antigos, muito complexos, provêm sobretudo do sistema semifeudal da propriedade.
[...] Os proprietários, lordes ingleses ou escoceses, sempre ausentes das terras, não admitindo a despesa de um shilling para as melhorar; estão em Paris, estão em Londres, comendo pêssegos em Janeiro, e jogando pelos clubes o whist, a libra, o tento: os seus procuradores e agentes, criaturas vorazes, sem ligação com o solo nem com a raça, forçados a remeter incessantemente dinheiro a Suas Senhorias, interessados em conservar a procuradoria, caem sobre o rendeiro, levantam-lhe a renda, forçam-no á vendas desastrosas, enlaçam-no na usura, tributam-no feudalmente, apertam-no com desespero como a um limão meio seco, até que ele verta num gemido o último penny [...]

A Inglaterra, então como agora, Srs. Deputados, pronuncia-se em linguagem desumana e fria, esquisóide e pomposa, citamos ainda Eça de Queirós!

O jornal Standard, o venerável Stander, tinha há dias uma frase adorável: «Se, como é de temer, a Irlanda vier a esquecer-se do que deve a si e à Inglaterra!, é doloroso pensar que, no próximo Inverno, para manter a integridade do império, a santidade da lei e a inviolabilidade da propriedade, nós teremos de ir, com o coração negro de dor, mas a espada firme na mão, levar à Irlanda, à ilha irmã, à ilha bem-amada, uma necessária exterminação.»

Hoje, o estilo é menos adorável, mas a necessária exterminação parece continuar no horizonte deste país...

Cortada a palavra à oradora pelo controle automático.

O Sr. Presidente: - Terminou o tempo de que dispunha, Sra. Deputada.

A Oradora: - Sr. Presidente, peço mais alguns momentos para terminar a minha intervenção.

O Sr. Presidente: - Faça favor, Sra. Deputada.

Protestos do PSD, do CDS e do PPM.

A Oradora: - Obrigada, por me deixa: r continuar, Sr. Presidente. A luta pela libertação é uma marcha irreversível e, por isso, traz a incoerência, a insegurança e a desagregação...

Protestos do PSD, do CDS e do PPM.

Aplausos do MDP/CDB, do PS, do PCP, da ASDI e da UEDS.

O Sr. Presidente: - Bom, parece que, apesar de tudo, sou excessivamente tolerante...

O Sr. Mário Raposo (PSD): - Dá-me licença?

O Sr. Presidente: - Faça favor, Sr. Deputado.

O Sr. Mário Raposo (PSD): - É para interpelar a Mesa sobre um ponto, Sr. Presidente.
Eu concordo inteiramente com a disciplina que os meus colegas de bancada pretendem que seja observada nesta Assembleia. Devo apenas observar, pela minha parte, que a Sra. Deputada foi interrompida a certa altura e que esse tempo não foi descontado.

O Sr. Presidente: - O tempo durante o qual a Sra. Deputada foi interrompida foi descontado. Entretanto, a Sra. Deputada estava a três ou quatro linhas para terminar a intervenção, por isso eu lhe concedi a palavra por mais alguns segundos.

Protestos do PSD, do CDS e do PPM.

A Sra. Helena Cidade Moura (MDP/CDE): - Dá-me licença, Sr. Presidente?

O Sr. Presidente: - Faça favor.

A Sra. Helena Cidade Moura (MDP/CDE): - Eu desejava fazer um esclarecimento, Sr. Presidente.

Vozes do CDS: - Não pode.

A Oradora: - Eu queria explicar à Câmara a razão por que me senti à vontade para pedir mais meio minuto para terminar a minha intervenção. É que, dado o barulho em que os Srs. Deputados estão sem-