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17 DE JUNHO DE 1981 3269

rés, os seus caluniadores e, eventualmente, os seus perseguidores.
Numa écloga, a Écloga Alexo, faz referências às intrigas cortesãs que teriam estado na origem do desterro do seu amigo Bernardim Ribeiro. Um dos principais fidalgos da Corte, o conde da Castanheira, sente-se atingido e parece que Sá de Miranda, para não fugir à regra, teria sido incomodado e preso.
De qualquer modo, magoado, ofendido, desencantado com a Corte, Sá de Miranda retira-se para o Minho e, como ele próprio diz:

[...] Homem da um só parecer,
de um só rosto e de uma fé,
antes quebrar que volver,
outra coisa pode ser,
mas de corte, Homem não é.

Voz do PSD: - Muito bem!

O Orador: - Retira-se da Corte, vai para o Minho, recebe do rei a comenda das Duas Igrejas. E na Quinta da Duas Igrejas vai fazer grande parte da sua obra, com a sua escrita difícil, emendando, riscando muito, como ele próprio dizia:

Eu risco, e risco.

Daqui têm surgido alguns equívocos. Há quem considere Sá de Miranda um grande moralista, um grande renovador, mas um mau poeta. Penso que, como disse Salgado Júnior «[...] só podem pensar que Sá de Miranda é um poeta vulgar os que lhe fazem uma leitura vulgar. Sá de Miranda é um homem de escrita difícil, um homem que emenda, que corrige, não tem a fluência de um Diogo Bernardes, que faz decassílabos como quem assobia, mas a sua poesia é uma poesia de uma outra densidade; os seus versos são versos descarnados, reduzidos ao essencial, como disse Aubrey Bell, o grande estudioso inglês da Literatura Portuguesa: '[...] ele tem uma alta concepção da função do poeta e exprime os mais nobres sentimentos nas menos e melhores palavras».
Importa assinalar aqui a importância que tem as cartas em verso -escritas na medida velha, em redondilha a D. João III, a D. Mendes de Sá, seu irmão, que foi um dos fundadores da cidade do Rio de Janeiro, e sobretudo a carta a António Pereira, quando ele se ausentou da Corte, que é uma carta de uma grande importância histórica, onde Sá de Miranda atinge quase a dimensão de profeta. Critica a partida do campo para a cidade e da cidade para a índia e diz:
Ao cheiro desta canela, o reino se nos despovoa.
Há aqui como que um prólogo da fala do Velho do Restelo, e há aqui um tom profético. Alguns autores vêem no elogio que faz da vida dos campos e na defesa da vida simples dos lavradores uma atitude repressiva, se não mesmo reaccionária, o que penso ser um erro. Sá de Miranda critica a dissolução da Corte, critica a dissolução dos costumes e critica aquilo que mais tarde António Sérgio viria a considerar como a «política de transporte» por oposição à «política de fixação», ou seja a remodelação da metrópole pela fixação das suas gentes, pelo trabalho, pela justiça.
É que em Sá Miranda, contrariamente a outros humanistas horacianos, não há uma atitude de desprezo pelo povo. Sá de Miranda viu o trabalho dos camponeses, viu as suas misérias, e defendeu a igualdade perante a lei encarnada no soberano. Há assim, na sua obra, uma dimensão social que é raríssima nos homens do seu tempo.
Ao fim de algum tempo a vitória da reforma literária por ele empreendida estava assegurada, e Sá de Miranda recebe o apoio dos maiores poetas do seu tempo, como D. Manuel de Portugal, Pedro Andrade de Caminha, Diogo Bernardes e António Ferreira, e também de alguns humanistas, como Aires Barbosa, Diogo de Teive e outros.
Assim, abre novos espaços à poesia portuguesa e faz triunfar a medida nova, o dolce stilo novo, a escola italiana, em Portugal, transforma profundamente a poesia portuguesa e abre caminho ao próprio Camões. A grande vitória de Sá Miranda é própria obra que Camões a seguir viria a fazer.
É, pois, um homem íntegro, «um homem de um só parecer, de um só rosto e de uma fé», que fez a sua obra longe da Corte e contra a Corte, contra as intrigas, contra a inveja, contra a calúnia e o maldizer desta Lisboa oficial que sempre esteve contra a criação, contra a literatura, contra as grandes obras que neste país se fizeram. A sua vida é uma vida exemplar, de uma perfeita coerência entre o que escreveu e o que fez.
Sousa Viterbo descobriu, em 1895, uma carta de um tal Francisco Gil ao rei D. João III, onde ele afirma que «os almoxarifes são verdadeiros ladrões do povo» e recomenda que o rei faça seu arrecadador de impostos Francisco Sá de Miranda, homem de heróico e alto entendimento. Segundo Rodrigues Lapa, esta foi a maior homenagem que se lhe prestou.
Um grande poeta alemão - Holderlin - disse que «o que fica, os poetas o fundam». «Talvez a consciência disso incomode sempre os grandes homens do momento», para aplicar uma expressão de um poema de Álvaro de Campos.
Diogo Bernardes, louvando Sá de Miranda, profetizou:
Seu nome sempre se há-de ouvir.
Penso, portanto, que é justo lembrar Sá de Miranda, porque com a sua obra e com a sua vida foi um daqueles que fundaram aquilo que fica: uma língua, uma literatura e uma pátria.
Honra e glória, pois, a Francisco Sá de Miranda, um dos maiores portugueses de todos os tempos.

Aplausos gerais.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado José Manuel Mendes para um pedido de esclarecimento, certamente.

O Sr. José Manuel Mendes (PCP): - Congratulo-me com a intervenção que acaba de ser feita, em homenagem a Francisco Sá de Miranda, pelo Sr. Deputado Manuel Alegre.
Com efeito, a circunstância de se trazer a esta Câmara a grande personalidade literária, moral, humana e também política de Sá de Miranda cria-nos a responsabilidade de repensar um pouco o percurso