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3270 I SÉRIE - NÚMERO 83

intelectual que vem sendo trilhado ao longo da nossa história pelas suas figuras mais relevantes, Sá de Miranda foi não apenas o introdutor da modernidade formal, como também alguém que se não dissociou dos problemas do povo, que a eles se grudou, tentando interpretá-los - assumindo muitas vezes uma atitude de inconformismo, uma atitude de rebeldia, que para a sua época deve qualificar-se, indubitavelmente, como uma atitude progressista.
Sá de Miranda foi o poeta profundamente tocado pelo gérmen da mudança, a mudança quê era uma febre que o amedrontava, mas, do mesmo modo, o exaltava. Podem não ser profundamente líquidas as suas posições ideológicas diante de tal ou tal problema do Portugal do seu tempo, mas ressalta da sua integridade, da força das suas ideias, do modo como assumiu em si mesmo as raízes de um dado sentido de interpretação da Pátria, aquilo que merece fundamentalmente o nosso respeito.
Sá de Miranda entronca essa poderosa corrente de uma intelectualidade progressista no nosso país, profundamente ligada aos problemas reais do nosso povo, completamente ao arrepio daqueles que fazem da literatura um puro recreio de élites ou então uma arma para exaltação das classes opressoras de todos os tempos. Por isso mesmo, penso que associarmo-nos à homenagem que o Sr. Deputado Manuel Alegre prestou à figura de Sá de Miranda é tomar nas mãos a grandeza de uma obra,- a importância de um perfil e também o sentido que nesse perfil a nós próprios se lança: o repto de continuarmos para o futuro uma obra que nos não envergonhe daquilo que há de mais transformador, de mais positivo, de mais perene, no nosso passado cultural.
A figura regimental que estou a utilizar obriga-me a fazer uma pergunta ao Sr. Deputado Manuel Alegre: está de acordo com o que acabo de dizer, Sr. Deputado?

Aplausos do PCP, do MDP/C DE e de alguns de pujados do PS.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Silva Marques. O Regimento talvez permita abrir uma excepção para os poetas.

O Sr. Silva Marques (PSD): - Referia-se a mim, a mim, Sr. Presidente?

O Sr.. Presidente: - Referia-me a Sé de Miranda, Sr. Deputado.

O Orador: - De qualquer modo, também poderia ser a nós todos, pois que «de poeta e louco em todos nós há um pouco». Por certo, também o haveria em Sá de Miranda.
Mas o que pretendia dizer, Sr. Presidente e Srs. Deputados, é que o meu Grupo Parlamentar louva a iniciativa do Sr. Deputado Manuel Alegre, e por extensão do seu grupo parlamentar, a diversos títulos, mas sobretudo por duas razões.
Primeira: pela utilização da figura da declaração política para trata de um poeta e de um pensador.
Julgamos isso altamente salutar quando, sobretudo, se utiliza essa figura regimental, não para tratar matéria nova, mas muitas vezes para reproduzir registos de que todos estamos cientes e que pouco adiantam ao nosso conhecimento recíproco.
Segunda: porque a iniciativa do Sr. Deputado Manuel Alegre é inovadora e tem o seu «quê» de ir contra o statu quo mais ou menos cultivado pelos amadores do registo.
Por outro lado, e ainda por esta razão, nem sequer tenho a pretensão dê aprofundar a declaração e a exposição do Sr. Deputado, porque dessa fornia iria fazer, não direi a descabida figura, mas pelo menos a inútil pretensão de reproduzir o já dito e de tirar eventual glória para o meu grupo parlamentar daquilo que não lhe pertence, mas que aplaude e apoia.
É por isso que gostaríamos que ficasse claro que aplaudimos com satisfação é convicção a intervenção do Sr. Deputado, Manuel Alegre, não só pela utilização que fez da' figura regimental, mas também pela homenagem que ele muito justamente prestou nesta Casa a um grande poeta, a um grande pensador e a um grande português...

Vozes do PSD: - Muito bem!

Aplausos do PSD, do CDS, do PPM e de alguns deputados do PS.

Entretanto, assumiu a presidência o Sr. Vice-Presidente Nuno Rodrigues dos Santos.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o Sr. Deputado Barrilaro Ruas.

O Sr. Barrilaro Ruas (PPM): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Já ontem, numa declaração política que fiz sobre a cultura portuguesa, tive oportunidade de recordar em palavras, apenas de raspão, o momento histórico que se vive este ano, entre outros momentos históricos, ou seja, o 5.º centenário do nascimento de Sá de Miranda.
Louvo e regozijo-me com as palavras brilhantes e profundas que o poeta e deputado Manuel Alegre, em declaração política e em nome do PS dedicou à memória de Sá de Miranda e, em geral, ao papel da poesia na história e na cultura de Portugal.
Recordo as palavras do grande poeta Afonso Lopes Vieira: «a bem dizer, um poeta é voz porque um povo diz.» E, pensando nisso, recordo que, no momento histórico em que Sá de Miranda veio a este mundo e lhe foi dado viver e lutar, Portugal estava a viver uma época de crise profunda a crise da modernidade, a crise do termo da Idade Média, que em Portugal se prolongou talvez mais do que noutras partes do Mundo, ou pelo menos da Europa, e em que era visível uma transformação radical dos costumes, da mentalidade e até das crenças, que para muitos podiam constituir o sinal inequívoco de uma decadência ou da morte de uma época no que tinha «de essencial para o País que somos. Felizmente, homens como Sá de Miranda souberam, ao mesmo tempo que reagiam contra os desvios morais, espirituais e políticos do seu tempo, manter viva a essência da nacionalidade no que ela tinha, ao mesmo tempo, de dramático e de permanente.
Sá de Miranda, expressão de uma nobreza rural posta ao serviço do povo em comunhão com a terra e com os homens do seu tempo inimigo dos des-