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17 DE JUNHO DE 1981 3273

suas próprias estruturas militares, económicas, sociais e políticas.
Ou seja, a invasão perpetrada pelos Indonésios estava de acordo não só com os interesses dos Americanos e dos generais fascistas javaneses, mas também imediatamente com a preservação da ordem colonial, salvação dos timoratos «anticolonialistas e antimonopolistas» da nova-velha classe dirigente portuguesa, que tudo fez em Timor Leste para submeter a liberdade do seu povo ao imperialismo e a um neocolonialismo exterior que ela própria era incapaz de garantir.
A Administração Portuguesa, entre os «comunistas da Fretilin» - como diziam os gritos reaccionários da UDT e Apodeti, que, entretanto, regressam à sua placenta Indonésia e criam o Mac (Movimento Anticomunista) - e os generais fascistas javaneses, escolhe estes, mais próximos, aliás, das tradições do exército colonial português.
Assim, as incursões indonésias contra Timor Leste têm o suporte dos apelos de Lemos Pires em Ataúro e como resposta a Fretilin, as Falintil e o povo de Timor, que, como uma muralha intransponível, vai infligindo derrotas aos invasores.
A opção objectiva da autoridade colonial de transição pelos generais javaneses e pelos planos americanos, traduzida no abandono da responsabilidade inerente ao processo de descolonização, o controle total do território pela Fretilin, apoiada na mais ampla organização popular, e a ameaça de invasão concretizada pelas acções ofensivas que sucessivamente os Javaneses vão empreendendo através da fronteira impõem à Fretilin uma única solução, um único caminho para defenderem a sua pátria e o seu povo: a proclamação da independência de Timor Leste, a proclamação da RDTL em 28 de Novembro de 1975. Correspondendo certamente ao grande interesse demonstrado pelas autoridades portuguesas, recebendo, nomeadamente, p general javanês Ali Murtopo, as autoridades indonésias e, decerto também, Ford e Kissinger, aquando da sua visita a Jacarta, informaram, em tempo, a data e hora da invasão maciça, por forma que os representantes da soberania portuguesa pudessem abandonar o território em tempo. E, assim, a 7 de Dezembro, os fascistas indonésios, com as armas fornecidas pelos Americanos, invadem brutalmente a RDTL, encontrando pela frente a heróica e firme resistência do povo maubere e das Falintil, sob a direcção esclarecida da Fretilin.
Finalmente, os campos estavam claros: de um lado, a Indonésia, a UDT, a Apodeti e a potência colonizadora, sem coragem de deixar a ambiguidade, apesar de, na prática, com o abandono do campo, ter reconhecido a independência de Timor Leste; do outro lado, o povo maubere, decidido a defender a sua independência à custa de todos os sacrifícios, seguindo o exemplo dos seus antepassados, narrado, ano após ano, pelos Lia Nain, desde as guerras independentistas entre 1642 e 1912, à insurreição camponesa durante a Segunda Guerra Mundial e à revolta de 1959, afogada em sangue pelas autoridades coloniais.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Para as autoridades portuguesas o problema de Timor Leste deve ser resolvido pela Indonésia. Esta a única conclusão que
se pode tirar dos factos ocorridos desde que, no dizer de um velho Lia Nain, «os loricos voltaram a cantar», ou seja, desde que depois do 25 de Abril o povo maubere encetou o seu caminho irreversível para a independência. E isto apesar das proclamações, do reconhecimento do direito do povo de Timor Leste à autodeterminação e à independência.
Aliás, a conspiração de silêncio sobre o que se tem passado em Timor Leste só foi quebrada por Sá Carneiro e agora por Freitas do Amaral, não por estarem preocupados com o destino do povo de Timor - lá está o seu amigo Suharto para dele se encarregar-, mas apenas para utilizarem o famoso relatório secreto nas suas questiúnculas com Eanes na disputa da hegemonia da situação interna.
Apertado pela opinião pública internacional, que e levanta contra o genocídio do povo de Timor, o Governo português nada mais tem a dizer de que visa encontrar uma solução razoável e apelar para a ajuda humanitária. Santa hipocrisia! Uma solução razoável, que passará, no entender do Governo, pela realização de um referendo em terra ocupada militarmente, onde foram assassinadas milhares e milhares de pessoas, com dezenas de milhares em aldeamentos estratégicos, violentadas brutalmente nas suas opções culturais, políticas e religiosas, alguns milhares em prisões em Ataúro, Alora e Lira e no campo de extermínio de Kelicai, em Baucau - numa terra onde os que estão livres lutam heroicamente, sob a direcção da Fretilin, contra o invasor!
Que referendo? Mesmo que sob a fiscalização da ONU? Que referendo se pode admitir sem a retirada incondicional do invasor? Que natureza a de um referendo a um povo que ou está encarcerado ou luta de armas na mão?...
Neste momento, o controle automático de tempo desligou o microfone do orador.

O Sr. Presidente: - O seu tempo acabou; por isso, o microfone foi desligado.

O Orador: - Sr. Presidente, é certo que a culpa foi minha, mas, atendendo a que a luta do povo maubere tem estado silenciada, atendendo a que a sua luta pela libertação contra o genocídio e contra a invasão fascista indonésia tem sido calada, pedia ao Sr. Presidente e aos Srs. Deputados que me deixassem terminar a minha intervenção, porque, infelizmente, poucas oportunidades existem neste país para &e falar de tão heróica luta e de tão heróico povo.

O Sr. Presidente: - Quanto tempo precisa ainda, Sr. Deputado?

O Orador: - Cerca de dois minutos.

O Sr. Presidente: - Se a Câmara não se opuser, dou-lhe então mais dois minutos para concluir a sua intervenção.

Pausa.

Como ninguém se opõe, pode continuar, Sr. Deputado.

O Orador - O círculo vicioso, a conspiração imperialista para liquidar a RDTL, começa em Portugal e acaba em Portugal!