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2150 I SÉRIE - NÚMERO 54

grande patronato, impor o tecto salarial ou os aumentos dos serviços médico-sociais, onde vai buscar dinheiro para alimentar a ganância dos capitalistas.
Sr. Presidente, Srs. Deputados, Srs. Membros do Governo: A psicose do terrorismo e a provocação policial para criar o necessário clima de intimidação e repressão que permitisse ao Governo defender-se do justo ataque dos trabalhadores e que, pelos vistos, teve também os seus efeitos no funcionamento desta Assembleia, não chegaram para dissuadir os trabalhadores e em especial a classe operária de levarem a cabo uma grande jornada de luta da sua história.
O carácter insurreccional previamente atribuído pelo Governo à greve geral teve três objectivos essenciais que definem a política do Governo: primeiro, intimidar a população, o que falhou rotundamente pondo o Governo a ridículo; segundo, criar condições para a repressão durante e depois da greve; terceiro, poder proclamar o falhanço da greve geral vitoriosa a partir do momento em que não houve, naturalmente, insurreição.
Para dar um mínimo de base à invenção do Governo, Angelo Correia veio contar-nos da sua vitória sobre diabólicos instrumentos metálicos - vulgo pregos - terríveis envenenamentos - troca de componentes num lote de rações- e, infelizmente, mais prosaico mas mais trágico, sobre um atropelamento provavelmente provocado por inconfessável móbil etílico. Entretanto, havia feito intervir, à boa maneira fascista, a polícia de choque no Rossio e nós Aliados, no Porto, para impedir os grevistas de se movimentarem livremente e enviou os Choques e a GNR contra os grevistas e piquetes de greve, nas fábricas e empresas.
Em íntima articulação com a acção e propaganda governamentais surgiram naturalmente as provocações montadas pela direita, como as bombas antes da greve, o incêndio na Escola Secundária de Setúbal e o caso do carro com armas. Estas acções surgem sempre quando a luta dos trabalhadores cresce e é mais firme.
Sr. Presidente, Srs. Deputados, Srs. Membros do Governo: O dia 12 de Fevereiro ficou já na história do nosso povo e, espero, também na história do Governo AD.
Cerca de um milhão e meio de trabalhadores activos, representando o repúdio generalizado de milhões de pessoas, paralisaram todo o sector produtivo fundamental do País e grande parte dos serviços.

Vozes do PSD e do CDS: - Eh!

O Orador: - A classe operária com a sua adesão maciça, entre os 80 e os 100 %, demonstrou o seu carácter de classe de vanguarda e do futuro, de classe que mais sofre as consequências directas e indirectas da política capitalista representada pela AD e o seu Governo e da classe que mais disposta está a lutar pelo bem-estar de todos os trabalhadores, mostrando que é possível lutar a nível nacional, elevando a consciência dos trabalhadores acerca da sua solidariedade objectiva, abrindo novos caminhos para unir o povo e derrotar a direita e os seus governos.
Os sectores dos serviços e empregados, naturalmente mais afectados pela demagogia e pelas ameaças terroristas do Governo, aderiram em percentagem bastante mais reduzida, à vota dos 20 e 30 %; mas é bem demonstrativo do isolamento cada vez maior do Governo o facto de, que, da parte daqueles que não aderiram à greve, não houve qualquer hostilização à mesma. Apesar de ter sido insinuada, fomentada, pedida, implorada manifestações de hostilização na televisão do Sr. Proença de Carvalho nem uma conseguiram. Esta apenas foi hostilizada e caluniada pelos Ministros, pelos capitalistas e seus lacaios, pela direcção amarela da UGT e por Mário Soares. Ficarão bem no mesmo caixote das velharias irrecuperáveis.
Pela primeira vez entraram em luta alguns sectores como nas minas do Nordeste com grande percentagem de adesão e, factor importante, os assalariados rurais do Douro responderam com firmeza a apelo da central sindical.
Um dos factores mais importantes desta greve geral foi a generalização de piquetes de greve firmes e combativos de que é exemplo alto o da Siderurgia Nacional composto por cerca de 2 mil operários, o que tornou impotente o aparato policial provocatório concentrado junto à fábrica.
Os caciques da UGT tiveram papel destacado como o Lorga da CP do Barreiro que mandou chamar a polícia e Torres Couto e o deputado Janeiro que se desmultiplicaram, sob protecção policial, para levarem trabalhadores da Carris a furarem a greve.
Mas o que ficou demonstrado de forma insofismável foi o facto de que a adesão à greve ultrapassou em muito os aderentes da CGTP, conseguindo unir-se trabalhadores socialistas, comunistas, revolucionários e sem partido em torno da palavra de ordem de greve geral contra a política do Governo e pelo seu derrube.

Uma voz do PSD: - Foi brilhante!

O Orador: - Foi de facto uma grande jornada não só de censura mas de repúdio pelo governo AD. A classe operária ganhou autoridade e peso político como não tinha desde o 25 de Novembro. Contribuiu de forma decisiva para a radicalização da luta, arrastou sectores da pequena burguesia, deu passos certos e firmes na criação de condições para derrubar o Governo, agudizando ao mesmo tempo as contradições no seio dos partidos reformistas entre as cúpulas e as bases.
A CGTP saiu reforçada desta luta e abrem-se maiores perspectivas para a acção da corrente sindical de classe não reformista no seu seio, quer pelo esforço de vanguarda desenvolvido na preparação e prossecução da greve quer por ter sido ela quem soube, desde há muito, interpretar as verdadeiras necessidades do movimento sindical e apontar de forma inequívoca para a necessidade da realização da greve geral.

Uma voz do PSD: - Isso é paranóia!

O Orador: - A direcção UGT ficou definitivamente desmascarada como manobrista, divisionista, amarela, falando cada vez mais apenas consigo própria e com os seus patrões.
A greve geral, do dia 12, o seu carácter político, a ampla adesão, foram um exemplo concreto da unidade popular levada à prática.