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3292 I SÉRIE-NÚMERO 78

Sabemos, porém, que neste campo não estamos sós e que por vezes falsas cargas ideológicas, antepondo-se a uma visão concreta dos problemas, ou impossibilitam mesmo o encontrar das soluções mais eficazes.
Porém, em vários sectores desta Câmara há democratas que se encontram apreensivos com a marcha da democracia e que reconhecem a existência de perigos que ameaçam as instituições democráticas.
Não é fácil, porém, encontrar no plano político soluções que concretizem os desejos maioritários dos democratas desta Câmara e de fora dela.
No entanto, a própria agudização das condições vai propiciando a convergência.
Verifica-se, por isso, abrirem cada vez mais perspectivas favoráveis a que democratas com diversos posicionamentos políticos e ideológicos consigam encontrar os planos de consenso indispensáveis para enfrentar os graves problemas do País e alcançar o imprescindível empenhamento dos Portugueses no esforço de recuperação económica que se impõe, fortalecendo as instituições democráticas, num espírito de tolerância e clareza de propósitos.

O Sr. Herberto Goulart (MDP/CDE): - Muito bem!

O Orador: - Comemorar Abril é manter intacta a capacidade de sonhar, mas é também perguntarmo-nos com o poeta:
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros estão os nomes de reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?

Nas praças, ruas e aldeias deste país o povo saúda Abril, porque Abril é o povo.
A convergência de quantos comungam no espírito de Abril será possível e autêntica se tiver o povo como sustentáculo e os seus interesses como objectivo.

Aplausos do MDP/CDE, do PS, do PCP e da UEDS.

O Sr. Presidente: - Tem a palavra o representante da UEDS, Sr. Deputado Lopes Cardoso.

O Sr. Lopes Cardoso (UEDS): -Sr. Presidente da República, Sr. Presidente da Assembleia da República Sr. Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Srs. Conselheiros da Revolução, Sr. Primeiro-Ministro e Srs. Membros do Governo, Srs. Deputados: 25 de Abril de 1974.
Oito anos volvidos, quantas vezes não teremos colocado a nós próprios a mesma pergunta: que é feito das esperanças de Abril? Qual é afinal a realidade que Abril nos trouxe?
Perante uma situação de crise: crise política, crise económica e crise social, não são infelizmente poucos os que, ou porque nunca acreditaram em Abril, ou porque dele esperaram milagres que a transformação social não comporta, esquecidos ou ignorantes de que essa transformação é um longo processo de empenhamento colectivo, feito de avanços e recuos, confundem o seu cepticismo e a sua vontade de deserção com a vontade colectiva, como ontem confundiram a impaciência do seu vanguardismo com essa mesma vontade colectiva.
Para uns, para aqueles que nunca o quiseram, há na invocação repetida dos insucessos de Abril o desejo de ver desfeito um pesadelo incómodo; para outros, a procura de álibis que justifiquem um retorno, mais ou menos tranquilo, ao tempo de ontem, à vida vivida para dentro de círculos estreitos, à teia dos conformismos cúmplices, entretecida pela teorização dos seus próprios desencantos.
Houve erros? Multiplicam-se as dificuldades?
A democracia não é o «abre-te, Sésamo» de uma vida instantaneamente transformada.
Oito anos depois da revolução perfilavam-se por detrás do Poder os que foram poder antes da revolução?
É uma verdade de sabor amargo. Só que o Poder já não é o mesmo, o País é outro, nada é igual ao que foi.
Há conquistas que o 25 de Abril nos trouxe e que, integradas no quotidiano de um povo, só quando pela força se espezinhe a vontade desse povo podem ser, e mesmo assim passageiramente, destruídas.

O Sr. César Oliveira (UEDS):- Muito bem!

O Orador: - Olhemos este país que é o nosso, estes homens e estas mulheres que lutam por uma vida melhor e mais digna e esqueçamos, por momentos, o muro das lamentações político-intelectuais em que tantas vezes deixamos que esbarre a nossa atenção.
Que fazem eles quando voltam para casa após um dia de trabalho? O que discutem? O que pensam? O que sonham?
Ficam todos a rever-se com delícia ou indiferença na televisão do Sr. Proença de Carvalho. Encasulam-se na discussão dos seus próprios problemas pessoais? intoxicam-se com os sedativos das receitas médicas seladas a 25$ a peça?
Talvez alguns, aqueles excessivamente acabrunhados pelas dificuldades do dia-a-dia, mas nem todos.
Senão, como teriam florescido e como poderiam viver tantos e tantos milhares de actividades colectivas que se multiplicam por esse país fora?
Senão, como haveria escolas de música que surgiram do nada para as crianças das aldeias, criadas e animadas, quantas vezes, por homens que de música nem uma nota sabiam?
Senão, de que vontade seriam feitos os grupos de animação cultural que vão nascendo e renascendo, sem outro apoio que não seja o entusiasmo dos que neles se empenham? Como seria possível a redes-coberta de um património cultural enterrado ao longo de decénios no conformismo do folclore asséptico para consumo da Emissora Nacional e manipulado com um provincianismo tolo na exaltação das «virtudes da raça».
Como se constituiriam, quase sem incentivos, com meios limitadíssimos, os grupos desportivos que enquadram os- atletas de domingo?
Como seria possível a persistência teimosa, contra ventos e marés, das experiências autogestionárias e cooperativas?
Como seria possível a resistência dos trabalhadores rurais do Alentejo e do Ribatejo, o empenhamento de tantos milhares de militantes políticos e sindicais?
Para além dos erros, dos insucessos, do que se quis e não se alcançou, é esse também o país real; são