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3492 I SÉRIE - NÚMERO 83

A razão é só uma, é não querer tirar ensinamentos da greve geral de 12 de Fevereiro, é não querer que o proletariado e os trabalhadores trilhem esse caminho de verdadeira unidade e reforço do movimento popular, é não querer que a democracia burguesa seja subvertida. E, no fundo, ceder às provocações do governo AD e do seu Ministro Angelo Correia. É actuar em subordinação ao capitalismo liberal que é hoje, como se sabe, uma utopia em si mesmo. É submeter o proletariado e os trabalhadores aos liberais burgueses liderados por Eanes!
O discurso do general Eanes aqui nesta Assembleia, no passado dia 25, é a resposta aos mil e um apelos e propostas para que demita o Governo.
A AD aplaudiu com entusiasmo «quanto baste» o discurso do Presidente, porque Eanes não fez mais do que dar a mão ao Governo: aconselhou-o a aplicar-se com maior empenho e eficácia na defesa dos capitalistas. Tentar descobrir nas suas palavras as cores de uma oposição inequívoca à AD não passa de uma tentativa de pôr os trabalhadores em sentido diante do General do 25 de Novembro.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: O l.º de Maio tem de reforçar com a unidade operária, a unidade antifascista alcançada no 25 de Abril. Só a classe operária e os trabalhadores farão da unidade antifascista a força de combate contra a direita e o seu Governo.
O derrube do Governo - inadiável - será fruto apenas da unidade dos trabalhadores, sem esperar que um salvador faça aquilo que aos trabalhadores compete.
Neste l.º de Maio, os trabalhadores têm de retirar as lições da luta política dos últimos meses; contarem em primeiro lugar com as suas próprias forças, conquistarem e defenderem o direito a seguir uma política independente, de acordo com os interesses dos operários, dos camponeses, dos interesses populares e avançarem para a preparação e realização de nova greve geral.
Só desta forma valeu, de facto, a pena a greve geral de 12 de Fevereiro.
Só assim se tornará o 1.º de Maio um dia de luta de unidade combativa, de impulso para uma intervenção decisiva dos trabalhadores na evolução da política nacional.
Que o l.º de Maio não seja apenas o culminar de um processo de lutas, rico de experiências e ensinamentos, mas também o trampolim para o derrube do governo AD e para uma viragem decisiva na vida do povo português no caminho do bem estar e liberdade para todos os trabalhadores e da independência nacional.

O Sr. Presidente: - Inscreveram-se para pedir esclarecimentos os Srs. Deputados Herberto Goulart, Fernando Condesso e Cunha Dias.
Tem a palavra o Sr. Deputado Herberto Goulart.

O Sr. Herberto Goulart (MDP/CDE): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Não vou usar da palavra para um pedido de esclarecimento, mas sim para um protesto.
Naturalmente, será um protesto em termos amáveis, com o objectivo único de repor a verdade numa afirmação que o Sr. Deputado Mário Tomé fez e que é inverídica.
O Sr. Deputado Mário Tomé disse que o MDP/CDE apelava à mobilização das populações sob a liderança do PS.
Esta afirmação tem que ser corrigida.
Não seu onde é que o Sr. Deputado Mário Tomé foi descobrir tal procedimento do MDP/CDE. Ele não existiu da parte de nenhum dos nossos dirigentes, nem em qualquer comunicado do meu partido.
A propósito disto, gostaria de acentuar que o nosso partido, face a esta situação grave que o País atravessa e que imputamos à governação AD - incapaz, incompetente, virada contra os interesses do nosso povo -, encara naturalmente a necessidade de uma alternativa democrática na qual possam ser envolvidas, por aproximação de pontos de vista, por confluência de esforços, possíveis no seio do campo genuinamente democrático, várias forças políticas.
Naturalmente que tal alternativa tem que desembocar numa perspectiva futura de um governo que seja de alternativa a este Governo que vai conduzindo o Pais à ruína, liquidando as perspectivas e as esperanças que o 25 de Abril trouxe.
Logicamente que, nesta base de unidade democrática que perfilhamos, temos consciência do papel determinante do Partido Socialista, mesmo numa perspectiva de formação de um futuro governo efectivamente democrático. Temos a consciência da força eleitoral do Partido Socialista, pelo que esse partido deve ter uma posição de peso, uma posição determinante nessa formação do Governo.
Esta é uma situação muito diferente daquela que se induziria da intervenção do Sr. Deputado Mário Tomé, de que o MDP/CDE amarra a luta popular do nosso país, expressa nas formas de movimentação social mais diversas, a uma condução exclusiva do Partido Socialista.

O Sr. Presidente: - Para um pedido de esclarecimento, tem a palavra o Sr. Deputado Fernando Condesso.

O Sr. Fernando Condesso (PSD): - Sr. Deputado Mário Tomé, o seu discurso é, como habitualmente, um discurso cheio de lugares comuns.
Vai-se até notando que o Sr. Deputado - como aliás, já aconteceu com outros deputados da UDP que aqui têm estado presentes - começa a não fazer apelo a todo o seu esquema ideológico e revolucionário, iniciando-se nas regras do jogo democrático.
Fez, contudo, algumas afirmações que eu gostaria que o Sr. Deputado comentasse.
Referiu-se ao 25 de Abril, que é uma data histórica com um significado político para todos os portugueses e todas as forças políticas representadas neste Parlamento, que, efectivamente, tem aceite e jogado o jogo democrático em termos que são de procura de melhores caminhos para o Pais.
O Sr. Deputado refere o 25 de Abril como data, refere-se às suas manifestações e diz que houve uma unidade de manifestantes contra a AD. Mas, Sr. Deputado, como é? Uma unidade de manifestantes para derrubar a AD, que è maioria por vontade do povo português? ... Derrubar a AD com uma manifestação, ainda por cima, no 25 de Abril, que é uma data de todos?!