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3 DE MAIO DE 1982 3493

O Sr. Deputado vem novamente falar na greve geral, referindo não haver condições para uma nova greve geral. De facto não há condições, Sr. Deputado, talvez porque não haja, da parte da população portuguesa - como sabe e como já se viu -, receptividade às motivações que uma certa esquerda pretende explorar. E isto porque estamos em tempos difíceis, tempos de austeridade, de crise, que o Governo entende como tempo de desafio. A população portuguesa vai seguindo essas dificuldades e sabe que elas têm que ver com o que estava antes da AD tomar o poder e com o contexto internacional. Assim, apesar de sentir as dificuldades e as medidas nem sempre populares do actual Governo, o povo vai acompanhando-as sem desesperar, antes acreditando na Aliança Democrática.
É por isso que as perspectivas de greve geral, apesar dos apelos que aqui e ali se vêm fazendo - e às vezes até das tentativas de experiência para a levar a cabo -, são sempre um falhanço.
Também o Sr. Deputado falou na crise, dizendo que ela não tem solução com a AD sem se arrancarem as suas raízes. Que raízes são essas Sr. Deputado?
Falou ainda do acordo de revisão constitucional, atacando algumas forças que estão fora da maioria governamental, dizendo que esse acordo iria permitir revitalizar o Governo. Sr. Deputado, penso que já é altura de todos aprendermos, sobretudo todos nós que estamos inseridos no jogo parlamentar, que uma coisa é revitalizar o Governo e outra revitalizar o regime.
Não entende assim, Sr. Deputado?

Aplausos do PSD e do PPM.

O Sr. Presidente: - Para um pedido de esclarecimento, tem a palavra o Sr. Deputado Cunha Dias.

O Sr. Cunha Dias (PSD): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Também eu gostaria de fazer um protesto, mas possivelmente não tão amável quanto o do Sr. Deputado Herberto Goulart.
De facto, o Sr. Deputado Mário Tomé habituou--nos aqui, nesta assembleia, a determinado tipo de frases, de chavões, tais como «a frente da direita», «contra a AD», «a greve geral», «apelar para Eanes»...
Sr. Deputado, apele para quem deve apelar!
Apele para o povo português que foi quem deu o voto à maioria, pondo-nos aqui neste lugar.
A ele deve o Sr. Deputado apelar!
Gostaria também de protestar contra as afirmações inqualificáveis que o Sr. Deputado no dia em que tivemos a honra de aqui ter presente S. Ex.ª o Sr. Presidente da República relativas à vinda do Papa.
Foi uma vergonha o que aqui se passou nesta Assembleia e que eu não podia deixar passar em claro.
O Sr. Deputado devia ter usado outros termos quando se referiu à vinda de Sua Santidade a Portugal, tanto mais que, além de ser Papa, é também um Chefe de Estado quem nos vem visitar.

Aplausos do PSD, do CDS e do PPM.

O Sr. Presidente: - Para responder, tem a palavra o Sr. Deputado Mário Tomé.

O Sr. Mário Tomé (UDP): - Sr. Presidente, Srs. Deputados: Respondo em primeiro lugar às questões levantadas pelo Sr. Deputado Herberto Goulart do MDP/CDE.
Quero dizer-lhe que não disse que o MDP/CDE apelava para a movimentação popular sob a liderança do PS, até porque uma movimentação popular, com as características que entendo que esta deve ter, não existe sob a liderança do PS. O que poderia existir seria uma adesão a uma certa política seguida aqui e acolá.
No entanto, eu não disse isso. O que referi foi em termos de movimentação da oposição sob a liderança do PS. O Sr. Deputado Herberto Goulart disse, claramente, que para defender o regime democrático haveria que considerar o facto de o PS ser o maior partido da oposição. Quero, todavia, dizer-lhe o seguinte: o problema não é o de tirar ou não ao PS o seu papel de maior partido da oposição. Não é disso que se trata. O problema reside em saber se o nosso povo, os trabalhadores, os operários e os camponeses devem estar à espera daquilo que a direcção política do PS - que quer entrar para a CEE, com todas as tragédias que isso vai trazer para o nosso país, que quer estar na NATO, com tudo o que isso significa de tragédia para Portugal, que aceita a recuperação socialista, embora diga que esta está «temperada» pelas nacionalizações, quando sabemos que a existência da iniciativa privada aliada às multinacionais é, efectivamente, o desenvolvimento dos monopólios, da concentração capitalista e das falências em série, as quais estão já a abater-se sobre o nosso pais - pretende fazer.
O nosso povo não pode deixar-se subordinar a esta política. O nosso povo tem, efectivamente, que tomar nas suas mãos - e foi isso que eu disse - os seus próprios destinos, defender intransigentemente os seus interesses, como ele sabe e tem demonstrado de Norte a Sul do País.
Quando os seus interesses são postos em causa, o povo português enfrenta as medidas do Governo, mesmo que tenha votado na AD, e enfrenta as arbitrariedades e a repressão da GNR, mesmo que veja que esta è mandada, como é, pelo Governo AD. O nosso povo sabe defender os seus interesses.
É nesse sentido que apelo para a unidade do povo, porque desde os camponeses aos operários e aos trabalhadores em geral os interesses são os mesmos e devem ser defendidos de forma firme e unida. É este o meu apelo.
O que quero dizer é, portanto, que não podemos ficar à espera daquilo que diversas políticas já mostraram ao que conduziam. Temos que tomar em mãos os nossos próprios destinos.
Em relação ao Sr. Deputado Fernando Condesso, devo dizer-lhe, a propósito de lugares-comuns, que a necessidade de saída deste Governo do poder é, também, já um lugar-comum. É natural, portanto, que a forma de dizer isso não possa ser, sistematicamente, diferente e inovadora, embora eu faça um esforço nesse sentido.
O 25 de Abril foi comemorado na unidade contra a AD, quando esta devia representar a maioria do povo português. Ora, a questão è - já o disse aqui várias vezes - que a AD já não representa essa maioria, porque a própria AD se pôs de fora do