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11 DE MAIO DE 1982 3599

Sr. Presidente, Srs. Deputados: Um dia depois da eleição do Papa João Paulo II, foi assim que a Assembleia da República o saudou e lhe exprimiu os sentimentos dos representantes do povo .português.
A 2 dias da sua visita a Portugal, achamos que a Assembleia da República .não «poderá ficar silenciosa nem indiferente a acontecimento de tão alto relevo e importância. Por isso subimos a esta tribuna. Por isso declaramos em nome pessoal, em nome da bancada dos deputados Sociais-Democratas Independentes e em nome de todo o nosso partido, em consonância com a deliberação do seu Conselho Nacional de 8 do corrente, que é geral a nossa alegria pela visita de João Paulo II ao nosso país; que o saudamos, não só como o Chefe visível da Igreja Católica a que pertence a maioria de nós, mas ainda como ver o símbolo da Paz, do entendimento fraterno entre os homens e a justiça possível neste mundo.
Estamos em crer que com os nossos sentimentos comungam não só os cerca de 90 % dos portugueses que se reclamam do catolicismo, como os demais portugueses que professam outras religiões ou que, no seu agnosticismo, não deixam, todavia, de considerar o Homem como pessoa, carecida de ser libertada de toda a espécie de alienação ou exploração, no que todos os homens de boa vontade podem e devem coincidir.
Por tradição, somos um povo de raiz e cultura católica. Desde a fundação da nacionalidade que, com episódicos eclipses, têm sido estreitas, amistosas e frutíferas as nossas relações, como Estado, com a Igreja Católica, havendo Portugal merecido, mesmo, o epíteto de Nação Fidelíssima.
Hospitaleiros também, como somos, como não haveríamos de esperar de todos os nossos concidadãos o máximo de simpatia e de respeito pela honrosa visita que nos vem fazer o Papa João Paulo II?
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Ainda não decorreram 4 anos de pontificado de João Paulo II e já dele sobejam, para a história da Igreja e do Mundo, factos que, mesmo de passagem, temos de sublinhar como reveladores de um estilo muito pessoal e inovatório, numa tentativa constante de aproximação dos homens entre si e de reconciliação ou encontro destes com Deus, através da sua Igreja.
Como se sabe, o apostolado de João Paulo II tem sido rico de exemplos no que respeita à inserção do próprio Papa no mundo dos homens e dos seus problemas.
Nessa sua preocupação se inserem as múltiplas viagens feitas através de todos os continentes a países os mais diversos, das mais diversas religiões, cultura, organização política e social ou estádio de desenvolvimento.
Se o cunho religioso e evangélico caracteriza, predominantemente, essas visitas, a verdade é que delas sempre fica aos visitados a mensagem de Paz, de solidariedade entre os homens, e uma palavra de estímulo para constante aprofundamento e prática da justiça social.
A este Papa peregrino, que vem fazendo seus os males do mundo, não escapa a percepção de que é preciso que os homens sejam ou se tornem bons para que os tempos conturbados em que vivemos deixem de ser maus.
E assim colocado bem perto dos homens, não só pela palavra e pelo seu magistério, mas ainda pela comunhão de presença no mesmo sofrimento e nas angústias de cada um e de todos, o Papa torna-se esperança -uma rara e senão única esperança - do concerto deste mundo angustiado.
Mas esse desejado concerto só poderá ter lugar, como condição primeira, se formos capazes, universalmente, de preservar a Paz.
João Paulo II não se tem poupado a esforços para que no mundo seja lançado esse inestimável dom da Paz.
É com esse espírito de missão que se desloca à sede da Organização das Nações Unidas e é ainda disso simbólica expressão a sua visita ao Japão, em cujas ruínas de Hiroshima formulou o seu veemente apelo à Paz, no dia 25 de Fevereiro de 1981, de que transcrevemos esta passagem:

Embora só uma parte das armas disponíveis fosse usada, temos de nos perguntar se estamos deveras conscientes da espiral que isso poderia provocar e se não é uma possibilidade real a destruição pura e simples da humanidade...
Face à calamidade para o Homem, que é toda a guerra, há o dever de afirmar e reafirmar, uma e outra vez, que a guerra não é coisa (impossível de evitar ou modificar. A humanidade não está destinada à autodestruição.
Arauto da Paz, pregador contra todas as formas de violência, tem sido afinal, o próprio Papa, vítima de violências.
As suas visitas ao México e aos Estados Unidos da América, em 1979, foram ensombradas com prisões de confessos terroristas, que declararam, desejar matá-lo.
Em 1981, no Paquistão, uma explosão violenta deflagrou junto do altar em que momentos depois iria celebrar Missa.
E em 13 de Maio do mesmo ano, em Roma, no momento em que acabara de entregar aos pais uma criança de 2 anos, depois de a acariciar, cai baleado por mãos assassinas.
Como é cruenta, afinal, a condição humana!
E como interpelou sabiamente os sentimentos de toda a gente de bem aquela criança que perguntava ao pai, pouco depois do atentado: «Se o Papa é tão bom, porque é que o querem matar?»
Mas a lição magnífica de bondade e de perdão é dada pelo Papa, quando, apenas 4 dias depois, ainda em estado grave, diz na sua mensagem transmitida pela rádio aos peregrinos na Praça de S. Pedro:

Rezo pelo irmão que me atingiu, a quem já perdoei sinceramente.

Vozes do PS: - Muito bem!

O Orador: -De onde o Papa deseja sempre encontrar-se perto é dos seus irmãos mais carecidos, dos pobres, dos humildes, de todos os oprimidos.
Vai ao seu encontro na favela do Vidigal, no Rio de Janeiro, cuja pobreza o emociona e onde tirou do dedo o seu anel de Bispo de Roma para ser vendido a favor daquela gente humilde, num gesto carregado de amor e de simbolismo; vai ao Sul de Itália, sacudido