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12 DE MAIO DE 1982 3655

terra e pelos valores perenes da sua região, o cuidado da preservação dos seus usos e costumes e a paixão pela sua identidade cultural. Estes factos, segundo ele, revelavam o gosto pela independência e sentiam-se como o filho que atinge a maioridade e está próximo da emancipação, devendo, para isso, lutar por ela.
A recordação destas conversas de caserna foi-se esfumando com o tempo e do meu antigo clarim apenas recebia espaçadas notícias, através de modestas cartas, onde participava o nascimento de um filho, o melhoramento do balneário, a construção de uma nova unidade industrial e os desaires e vitórias do Clube de Futebol de Vizela. Duvidava mesmo que os rigores do dia-a-dia do trabalho ainda permitissem ao meu amigo sonhar alto com a emancipação municipal. Porém, mais tarde, pude constatar que assim não acontecia e que ele não era um sonhador à procura de quimeras e sim a simples expressão do querer de milhares de pessoas de todas as categorias sociais, que há sucessivas gerações buscavam, debalde, a concretização dos seus anseios regionais. Não era o meu amigo um pobre e romântico cavaleiro da triste figura a pelejar contra os moinhos de vento do centralismo, rodeado pela indiferença de vizinhos e amigos. Era, sim, uma voz firme, a expressão do brado telúrico que, vindo das entranhas de toda uma região, clamava pelo direito de talhar os destinos da sua própria terra. Era, enfim, toda uma colectividade que desde tempos imemoriais pedia as liberdades concretas dos antigos forais. Era toda uma comunidade que, ultrapassando o mesquinho bairrismo local, se achou com capacidade e direito à plena liberdade administrativa, ao progresso e ao desenvolvimento equilibrado, sem as limitações estiolantes contra as quais vinham desde sempre lutando. Era toda uma região que pretendia, muito simplesmente, a obtenção da liberdade municipal, da qual Alexandre Herculano dizia ser a única que tem existido no mundo e talvez a única possível.
Sr. Presidente, Srs. Deputados: Com a criação do concelho de Vizela, são minimamente afectados 3 concelhos: Guimarães, Felgueiras e Lousada. Todos eles têm uma população superior à média nacional, mesmo incluindo nesse quantitativo os principais concelhos urbanos. O concelho de Guimarães ficará ainda com 68 freguesias das 73 que possui actualmente. As freguesias de Infias, São João (Caldas de Vizela), São Miguel (Caldas de Vizela), Tagilde, São Paio de Vizela, Regilde, Santo Adrião de Vizela, Santa Eulália (Barrosas), Santo Estêvão (Barrosas), a incluir no futuro novo concelho, constituem o chamado vale de Vizela, perfeitamente delimitado, a norte pela serra de Santa Catarina, que o separa das terras de Guimarães, e a sul pela serra do Calvelo, que o separa das terras de Lousada. Estas 2 serras têm, respectivamente, 500 m e 700 m de altitude. O vale de Vizela vai-se estreitando na fronteira com Felgueiras, que já fica na bacia do rio Sousa, e na fronteira com Santo Tirso, que fica em plena bacia do rio Ave. Todas as freguesias do novo concelho ficam mais perto de Vizela do que das anteriores sedes de concelho.
Convém referir que o vale de Vizela constitui uma região natural, conhecida desde o início da nacionalidade como Riba Vizela. As freguesias estão como
que voltadas uma para as outras e de costas para as suas actuais sedes concelhias, mostrando-se mais interessadas com a vida das gentes que com elas mantém uma maior identidade do que com as populações com que agora partilham um destino municipal artificialmente talhado. Desde a fundação que as populações de Riba Vizela vêm construindo um espírito de autonomia sedimentado na luta contra divisões administrativas alheias à realidade. As suas reivindicações acabavam por obter êxito. Mal se verificava a constituição do concelho, logo a gente de Riba Vizela embainhava a espada para voltar aos seus trabalhos de populações pacíficas e simples. Porém, a reforma de Mouzinho da Silveira, matando os seus sonhos, fruto do sacrifício de tantas gerações, veio abrir as feridas antigas e atirar novamente com uma comunidade inteira para o desespero e para a ânsia de independência administrativa.
E talvez seja pelo desejo de afirmação autonómica de toda uma população que ela revelou um espírito de iniciativa verdadeiramente notável. Já no século XVII existiu em Vizela uma conhecida espingardaria a que recorriam todos os clientes europeus mais exigentes à procura do último grito em matéria de armas sofisticadas. No início do século XIX funcionou em Vizela, pela primeira vez no mundo, uma fábrica de papel que trabalhava a partir da massa de madeira, conhecida pela Fábrica de Papel da Cascalheira, que foi incendiada pelas tropas napoleónicas aquando da segunda invasão francesa, como represália pelas surtidas demolidoras das rudes e patrióticas guerrilhas, constituídas por vizelenses e chefiadas pelo célebre "Frade Branco", de apelido O Pacheco.
Por outro lado, a existência de águas termais em enorme abundância, bem conhecidas desde o tempo da dominação romana, e a sua exploração em termos rendíveis desde o século XIX, permitiram o arranque económico de toda uma região e constituíram o embrião da progressiva indústria existente naquele vale. A par de uma agricultura forte e rica, existem unidades produtivas têxteis, de confecções e de calçado. Devo lembrar que para uma série de empresas vizelenses está prevista, para este ano, uma facturação superior a 1 000 000 de contos, sendo já difícil referir e enumerar as que facturarão valores superiores a 100 000 contos. E é devido a esse espírito lutador, a esse poder criativo, à iniciativa sempre revelada pelas gentes de Vizela, que, Sr. Presidente e Srs. Deputados, se não verifica desemprego naquela região.
Resta acrescentar que Vizela possui todas as estruturas essenciais para a restauração do seu concelho e funcionamento normal de uma edilidade moderna. Entre elas, não posso deixar de referir a Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Vizela, uma das mais antigas corporações do País, distinguida em 1905 por El-Rei D. Carlos, devido à sua eficiência na luta contra os incêndios. Enfim, os vizelenses têm apetrechado a sua terra, com todas as condições indispensáveis à criação do seu concelho. Como diz calorosamente o distinto escritor vizelense Júlio Damas: "Ninguém, em boa verdade e justiça, lhes. poderá cercear o direito de, ordeiramente, pedirem -e obterem- o que têm direito." Assim o pensa e deseja ardentemente o povo de Vizela; assim o pensa e deseja fervorosamente o Partido Popular Monárquico.