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3746 I SÉRIE-NÚMERO 90

e mulheres, velhos e crianças, ferindo e matando quase à queima-roupa e pelas costas.
Isto é inqualificável, Srs. Deputados. É que esta actuação da polícia não se põe em termos de saber se, perante uma alteração da ordem pública, ela usou simplesmente meios desproporcionados para restabelecer a ordem pública. A questão é muitíssimo mais grave, porque é a da polícia ter perseguido, agredido e assassinado cidadãos sem que nada, mas absolutamente nada, justificasse sequer a sua intervenção.

Aplausos do PCP, da UEDS, do MDP/CDE, da UDP e do Sr. Deputado António Arnaut do PS.

Não havia desordens entre pessoas, não tinha havido confrontos nem era previsível que então se verificassem; as pessoas estavam em local que lhes não era proibido; não houve desobediência a qualquer ordem legítima ou mesmo ilegítima da autoridade. Portanto, a polícia não actuou para restabelecer a ordem pública ou para prevenir que ela se alterasse.
A verdade é que foi a polícia que alterou a ordem, que subverteu a ordem pública, que sem qualquer motivo justificativo usou as suas armas contra os cidadãos do Porto e se lanço contra eles como se eles fossem inimigos que deviam ser abatidos.
E se pensarmos que horas depois, na tarde de 1 de Maio, sem ser precisa a polícia para nada, foi possível que na Baixa portuense a UGT continuasse a sua festinha com algumas centenas de pessoas na Praça de Humberto Delgado, enquanto na Avenida dos Aliados e na Praça da Liberdade dezenas de milhar de trabalhadores comemoravam o Dia Mundial do Trabalhador, sem que houvesse qualquer confronto, sem a mais pequena alteração da ordem, melhor se concluirá que a operação desencadeada pela Polícia de Intervenção, a mando do Governo, era corripletamente desnecessária.

Vozes do POP: - Muito bem!

O Orador: - Melhor se concluirá que, na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, a polícia desencadeou a frio, planeada, uma autêntica operação de terror político contra os trabalhadores portuenses. A polícia desencadeou-a, enquanto o Sr. Ângelo Correia e o Sr. Rooha Pinto esfregavam as mãos de contentamento.

Vozes do PCP: - Muito bem!

O Orador: - Uma operação tão injustificada e revoltante que bem se compreende a pressa com que a reacção se empenhou logo nos dias seguintes ern baralhar e confundir a opinião pública, inventando as mentiras mais descabeladas para a encobrir. Insinuou-se a existência de armas de guerra nas mãos dos populares, misturando o noticiário do 1.° de Maio com as notícias de terem aparecido na praia da Madalena, em Vila Nova de Gaia, caixas de munições de 9 mm e com o desaparecimento de pistolas da Alfândega de Lisboa. Negou-se a existência de polícias à paisana no meio dos populares, a fim de sugerir a existência de civis armados. Baralhou-se a questão do calibre das balas. E chegou-se até ao cúmulo, como fez o Sr. Marcelo Rebelo de
Sousa, de negar a presença da Policia de intervenção no Porto!
Estas manobras de mistificação e confusão são visivelmente orquestradas e destinam-se a impedir o esclarecimento da verdade. Da verdade que, todavia, ressalta desde logo com meridiana clareza do testemunho dos jornalistas presentes.
Só alguns exemplos: «O corpo -policial, vindo de Lisboa, não actuou em resposta directa a qualquer provocação ou agressão», diz o Expresso. «Vasta exibição de violência repressiva e gratuita... De repente, a polícia avança sem qualquer justificação», afirma o Portugal Hoje. O jornalista A. Queirós escreve: «Pura selvajaria contra gente indefesa». Não pareciam homens, pareciam animais», diz o jornalista M. A. Pina. E o jornalista Ernesto Gradim escreve: «Pareciam lobos ou cães raivosos.»
Nas ruas ficaram dezenas de cápsulas de G3 e de 9 mm, Srs. Deputados, mas não houve um só polícia ferido a tiro e, segundo a imprensa noticiou, a generalidade dos polícias tratados foram-no a torsões lombares causadas pela brutalidade com que usaram os cassetêtes.
Os mortos, porém, sabe-se como morreram. O Mário Emílio, quase ainda uma criança, estava escondido por detrás de um muro da Rua dos Pelames, na zona da Avenida da Ponte. Levantou a cabeça para espreitar e um polícia que estava próximo apontou e disparou calmamente. O Pedro Vieira corria também em direcção àquela Avenida. Um polícia motorizado, depois de se apear da motocicleta, apontou, fez fogo com a pistola e atingiu-o com um tiro pelas costas.
Ora é preciso que nos interroguemos, Srs. Deputados, sobre as razões que levaram a desencadear uma tão selvagem operação terrorista.
É preciso que nos perguntemos sobre quais os motivos que levaram a mandar a Polícia de Intervenção de Lisboa para encabeçar essa operação punitiva no Porto. E uma primeira resposta é dada por vários testemunhos, que referem terem ouvido alguns agentes policiais a gritar que era preciso acabar com os «malditos comunistas»!
Mas a história demonstra que quando se quer acabar com os «malditos comunistas» se quer depois também acabar com os «malditos socialistas» e depois com os malditos democratas. Quando se quer acabar com os «malditos comunistas», o que se quer é acabar com a democracia, o que se quer é a ditadura.

Aplausos do PCP. da UEDS, do MDP/CDE, da UDP e do Sr. Deputado António Arnaut do PS.

E é isto o que certas forças políticas e sociais desejam. E é isto o que já está por detrás da organização, recrutamento, preparação e treino de corpos policiais como a Polícia de Intervenção de Lisboa. Como são preparados os seus agentes? O que faz com que eles actuem como feras, se transformem em tresloucados que, uma vez soltos das carrinhas onde são transportados, perdem a dignidade humana? Quem são os responsáveis por isto? Que comandos têm? Que programas e directivas lhes são dados pelo Ministério da Administração Interna? Que ideologia se lhes incute? A simples formulação destas perguntas mostra como foi cínica a resposta que o Sr. Ângelo Correia me