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2674 I SÉRIE - NÚMERO 74

dobra. Mas sabemos, isso sim, que os desafios de uma concorrência económica globalizada são, particularmente, penosos para as economias mais dependentes e mais débeis.
Uma coisa é certa: a descolonização, que hoje mais do que nunca se reconhece ter sido a possível, nas circunstâncias em que teve lugar, deixou intactas as pontes. Os erros cometidos, antes e depois da independência das nossas ex-colónias, por colonizadores ou ex-colonizadores, como por colonizados ou ex-colonizados, não tiveram impacto sensível nas relações de amizade entre os respectivos povos. Nem a guerra, que teve culpados certos, nem as dificuldades posteriores a ela, conseguiram transformar-nos em inimigos. Está aí, a dar frutos, a CPLP, embora ainda não seja a árvore frondosa que há-de ser, está aí, pátria comum de ex-colonizadores e ex-colonizados, a maravilhosa língua portuguesa, essa sim, a verdadeira ponte para um futuro comum, e está aí o capital de afectividade que a história acumulou. Resta-nos transformar tudo isso em espírito de auxílio mútuo e construir, até onde formos capazes, um futuro solidário.
Sem recíprocos complexos coloniais temos de, mais do que nunca, rentabilizar o que nos une e secundarizar o que nos divide. Ao nível da cooperação interparlamentar - a que, neste momento, me diz mais directamente respeito - temos trabalhado bem. E, na primeira quinzena de Julho, terá lugar em Maputo a segunda cimeira dos Presidentes dos Parlamentos dos Países de Língua Oficial Portuguesa - braço parlamentar da CPLP.
Sr. Presidente, já por demais retive a sua atenção e todos nós estamos ansiosos por ouvi-lo, mas gostaria de não terminar sem duas mensagens de solidariedade. Uma dirigida ao povo mártir de Timor, que ainda não esgotou o cálice do martírio que a bárbara Indonésia continua a impor-lhe, embora já se vislumbre o alvorecer de um futuro de independência, liberdade e paz. Os timorenses são também nossos companheiros de jornada, são ainda nossos compatriotas. Assim, contribuir para a sua libertação é, para nós, um compromisso de honra, um dever de amizade e um impulso do coração. Estaremos à altura desses sentimentos!
Outra endereçada ao povo irmão de Angola, que continua a ser vítima da ganância e da cobiça que as fabulosas riquezas do território despertam. Vítima, ainda hoje, da recusa do salazarismo em descolonizar politicamente e a tempo; vítima de a aspiração emancipalista se ter dividido em três movimentos e outros tantos exércitos, cada um deles tendo as ambições de uma grande potência por detrás; vítima de na guerra colonial se ter enxertado uma guerra civil, que ainda dura, mesmo depois de eleições livres e democráticas - a que assisti como observador:- terem conduzido à formação de uma assembleia legislativa pluripartidária e a um governo legítimo.
Tudo porque a lógica dos interesses mais grosseiros continua a fomentar o tráfico das armas contra a lógica da contagem dos votos como única forma pacífica e justa da mediação de conflitos. Também sentimos a tragédia do povo angolano como se fosse nossa.
Quando se havia tomado legítima a esperança de um mundo sem massacres, limpezas étnicas e guerras de extermínio, eis que esses flagelos regressam. Temos de desensarilhar as armas dos velhos combates e recomeçar de novo. É consolador poder dirigir este desabafo a um ex-combatente pela libertação do seu país.
Seja bem-vindo ao Parlamento português, Sr. Presidente. Seja bem-vindo a Portugal, que mais não seja pela comunhão de língua, sinta-se, tal como eu em Moçambique, na sua segunda pátria.

Aplausos gerais.

Vai usar da palavra o Sr. Presidente da República de Moçambique.

O Sr. Presidente da República de Moçambique (Joaquim Chissano): - S. Ex.ª o Presidente da República Portuguesa;

S. Ex.ª o Presidente da Assembleia da República, S. Ex.ª o Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, S. Ex.ª o Presidente do Tribunal Constitucional, Srs. Deputados, Minhas Senhoras e Meus Senhores: Em primeiro lugar, gostaria de manifestar o nosso agradecimento pela oportunidade que nos é proporcionada para nos dirigimos a esta magna Assembleia. É com muita honra e satisfação que, através de vós, nos dirigimos à Nação portuguesa, para reafirmar os laços de amizade e de cooperação que unem os nossos povos.
Consideramos esta ocasião como um dos pontos mais altos da visita de Estado que efectuamos a Portugal, a convite de S. Ex.ª o Presidente da República Portuguesa, Dr. Jorge Sampaio, em retribuição da visita por ele efectuada a Moçambique, em Maio de 1997. Este é, sem sombra de dúvida, o momento oportuno de fortalecimento das relações históricas e culturais que ligam Moçambique e Portugal, relações essas que são o principal fundamento do entendimento sólido e privilegiado entre os nossos países.
Acreditamos que a nossa visita a Portugal é um momento privilegiado de continuação do diálogo franco e aberto existente entre nós, é mais uma oportunidade de conviver mais de perto com o povo português.
Tenho acompanhado, com especial atenção, o estado da cooperação entre a Assembleia da República de Moçambique e a Assembleia da República Portuguesa. Quero aqui expressar a minha viva satisfação pelo nível e qualidade das relações de cooperação que, VV. Ex.ªs e os parlamentares moçambicanos têm sabido forjar e concretizar. Não é por acaso que entre os meus acompanhantes se encontram Deputados da Assembleia da República, pertencentes aos três grupos parlamentares com assento neste órgão do poder moçambicano.
Sr. Presidente, a última vez que estivemos nesta magna Assembleia, precisamente há nove anos, Moçambique vivia uma guerra de desestabilização e um clima de instabilidade económica e social cujos efeitos se reflectiam negativamente em todos os aspectos da vida do povo moçambicano.
É com alegria que hoje trazemos a VV. Ex.ªs uma nova imagem do nosso país e estamos particularmente alegres por podermos transmiti-la a partir desta tribuna da Assembleia da República, o que acontece, como já foi dito, em raras ocasiões. É uma grande honra para Moçambique.
Em Moçambique continuamos a envidar esforços para tornar a paz e a estabilidade conquistas irreversíveis e desenvolver a democracia. É neste contexto que nos preparamos para realizar, durante o segundo semestre do ano em curso, as segundas eleições gerais multipartidárias. Será mais uma ocasião para os moçambicanos escolherem, livremente, aqueles homens e mulheres que julgam mais capazes de conduzir a realização dos seus anseios por um futuro de paz, de estabilidade e de desenvolvimento para todos.
O curso dos acontecimentos permite-nos concluir que estamos a trilhar um bom caminho e a um ritmo progressivamente positivo, aliás, foi com muito gosto que ouvimos essa avaliação feita pelo Presidente da Assembleia da República, como também ouvimos do Presidente da República e do Primeiro-Ministro e Portugal.
Prosseguimos com o nosso programa de recuperação económica, visando reduzir os níveis de pobreza abso-