26 DE ABRIL DE 2019
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Visão universal? Sim, querem-na, se significar um mundo mais aberto, mais dialogante, mais multilateral,
mais inclusivo, mais contrário a clivagens que separem, que humilhem, que desumanizem.
Mas querem-no em atos, em gestos diários, em vivências quotidianas. Cá, lá, por todo o universo!
Sabem que os tempos de medo explicam os fechamentos, a recusa do outro, do diferente, do estranho, mas
nasceram e querem realizar-se numa universalização humana e humanizadora, da diferença, não sob o
protecionismo da identidade forçada nos muros impostos.
E não se conte com eles para passadas ou futuras clausuras, fronteiras-prisões, interditos de circular e de
fazer circular pessoas, ideias e projetos de vida.
Democracia, sim! Não querem voltar a ditaduras, mas cultivam tantas vezes uma participação diversa,
amiúde inorgânica, sempre mais digital e queixam-se da dificuldade de os sistemas tradicionais saberem lidar
com essas novas formas de agir, interagir, intervir, influenciar, aspirar a decidir.
Essa sua inquietude torna-se apelo atrativo para ideias, movimentos, exigências, acelerações, disfunções,
que a democracia, nos seus contornos mais clássicos, de outro ritmo e de outra configuração, tem de
compreender e de saber conjugar, sob pena de se condenar a meras formas com cada vez menos conteúdo.
E não se conte com eles para passadas ou futuras sobrancerias, orgânicas obsoletas ou ineficazes,
clientelismos, adiamentos crónicos face a problemas sociais.
Desenvolvimento para mais e maior justiça social, sim! Mas esses objetivos gerais e abstratos valem menos
neste final da segunda década do século XXI, valem mesmo muito pouco, se não forem acompanhados de
escolhas, de passos, de marcos muito concretos e visíveis, e mais rápidos, na educação, na saúde e na
solidariedade social.
E não se conte com eles para passadas ou futuras indiferenças ou resignações comunitárias.
Os jovens de 2019 querem, além de tudo isso, respostas inequívocas para algumas perguntas urgentes.
Quando e como voltará Portugal a querer ser uma sociedade a rejuvenescer, pelos que nascem e pelos que
recebe de fora — digo bem, pelos que recebe de fora! —, e não a envelhecer a passo estugado, permitindo
finalmente a todos, os jovens, no seu dinamismo social, e os menos jovens, na sua luta contra a guetização,
uma esperança coletiva renovada?!
Quando e como esbateremos mesmo as desigualdades que ainda persistem, que continuam a minar a nossa
coesão, entre pessoas, grupos e territórios — sublinho territórios —, que atrasam o desenvolvimento, esvaziam
as descentralizações, juntam novos pobres aos velhos pobres?!
Quando e como anteciparemos o que aí vem, nesta era de revolução digital, no emprego e no trabalho,
perante mutações científicas e tecnológicas que vão, em 5 a 10 anos, mudar os sistemas produtivos, dispensar
pessoas ou rearrumá-las nas suas atividades e perspetivas do amanhã?!
Quando e como conseguiremos explicar aos menos jovens, e são muitos, numa sociedade a envelhecer, que
há mesmo alterações climáticas, que há mesmo deveres intergeracionais, que as pugnas pela chamada
sustentabilidade do desenvolvimento não são bizantinices de meia dúzia de iluminados ou de agitadores, uma
moda dos mais jovens, uma mera manobra conspirativa vinda de fora para beneficiar das indecisões ocidentais
ou europeias?!
A maioria destas causas não existia ou não era decisiva para os jovens de 74. Portugal era, ele mesmo,
jovem.
As desigualdades eram, de facto, mais chocantes, mas acreditava-se que o crescimento económico, por si
só, as iria resolvendo ou atenuando irreversivelmente.
O digital era uma revolução inexistente.
O futuro do trabalho e a atenção ambiental constituíam preocupações de minorias muito minoritárias.
O desafio dos jovens de 25 de Abril de 1974 era muito nacional e muito concentrado em três objetivos
cimeiros: a paz em África e, por isso, a descolonização, a democracia e o desenvolvimento, vistos a prazo mais
curto.
O desafio dos jovens de 25 de Abril de 2019 é muito mais global, muito mais complexo, muito mais exigente,
na diversidade dos fatores de que depende e do prazo alargado que envolve.
Mais ambição no Portugal pós-colonial.
Mais ambição na democracia.
Mais ambição na demografia.
Mais ambição na coesão.