898 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
menos prosperas, porque as vaidades de uns e as paixões de outros para isso contribuissem.
Acho-me n'uma posição especial n'este debate. Sou official do exercito, do que me honro; e honrando-me tambem de ser membro d'esta camara, n'ella me encontro exactamente quando se está discutindo assumpto de tanto interesse para o exercito. Tenho tambem a honra de ser lente em uma escola, onde se professam as sciencias militares.
Todas estas rasões fazem com que eu não possa deixar de intervir n'esta discussão.
Em taes circumstancias vou tratar a questão no cumprimento do meu dever, tranquilla e desapaixonadamente, occupando me do assumpto que muito importa ao paiz, e que, certamente, vale mais que os homens.
Os homens, por muito que valham, quando discutidos, podem azedar o debate, ou ser sempre molestados, quer a paixão leve a elogial-os, quer a censural-os. Porque não sei, realmente, para quem tem sentimentos bem puros e levantados, qual será muitas vezes mais incommodo, se ser injustamente accusado, se ouvir constantemente elogios, ou ver tanto Plutarcho a contar os seus feitos!
Parece-me que o abuso, o excesso n'um e n'outro caso, são igualmente mo'estos.
Posto isto, vou tratar de entrar na materia, segundo os principios que professo, e que são exactamente aquelles que, no desempenho das funcções que me incumbem, eu costumo ensinar aos que me dão a honra de ser meus discipulos.
Não tenho, já se vê, o proposito de fazer aqui uma dissertação academica, nem a pretensão de dar lições a quem sabe mais do que eu, ou aos que se precisassem d'ellas, iriam procurar mastro mais auctorisado.
O meu fim é simplesmente justificar o meu voto, procedendo segundo a minha, consciencia e procurando ser o mais breve possivel, unica qualidade por que poderei agradar.
Tem-se dito nos documentos enviados a esta camara, e tem se affirmado aqui, que o decreto da organisação do exercito tinha por fim pôr essa organisação em harmonia com as sciencias militares no estado de aperfeiçoamento em que ellas se encontram, e que esse mesmo decreto teve em vista obter uma organisação, posto que modesta, que nos collocasse em condições de em qualquer eventualidade, ter um exercito que attinja o numero e tenha a composição que a arte militar e o medo de fazer a guerra imperiosamente exigem.
N'um documento por certo o mais habilmente redigido, que é o relatorio sobre o bill, diz-se que não ha logar, por não o permittir a estreiteza do espaço, para enumerar todas as vantagens que hão de advir ao exercito da execução do decreto de 30 de outubro; mas que emfim, pode se dizer que d'ahi proveiu o seguinte:
«O alargamento e fixação dos quadros de modo a permittir em qualquer eventualidade uma facil mobilisação de um forte contingente de tropas.»
Disse eu que este documento, e isto honra o seu auctor que é um nosso collega muito intelligente, é dos mais habilmente feitos, porque está o mais cautelosamente redigido. A maneira por que elle se expressa podia, talvez, por em difficuldades a minha argumentação, visto referir-se não á mobilisação do exercito mas simplesmente á do um forte contingente de tropas; e allegar-se que o exigido para a mobilisação de todo o exercito estava ao menos disposto para uma fracção. Mas nem isso succede.
Acho perigoso e inconveniente o que se tem proferido n'esta camara e o que se tem referido em differentes documentos.
Tenho sempre muito receio de que no nosso paiz se possa repetir um dia o facto tristissimo, que se deu em Franca por occasião de se declarar a guerra á Allemanha, e onde o ministro da guerra, general Leboeuf, dizia que o exercito estava tão preparado para a campanha que nem faltava sequer um botão a qualquer soldado.
É preferivel fallar a verdade sinceramente ao paiz, pedir-lhe a sua cooperação na grande obra da restauração das nossas instituições militares, obra que não póde ser de um só homem, nem de um só partido, mas de todos; e que não poderá levar-se a cabo por modo a bem radicar-se, e desentranhar-se em bons fructos em menos de uma geração.
Creio que ninguem estará sinceramente convencido de que o que existe, o que se tem feito em relação ao exercito, nos colloca em condições de podermos mobilisar ao menos um contingente de tropas importante, ou que a organisação decretada em 30 de outubro corresponde áquillo que exigem os preceitos modernos da arte militar. (Apoiados.)
Não ha nem póde haver a mobilisação de que se falia, porque falta para ella exactamente a condição essencial: a divisão regional.
Sem ella como póde haver a mobilisação?
Não essa, de poucas semanas, a que o sr. presidente do conselho alludia aqui no anno passado, porque essa já não é dos nossos tempos; mas a que é preciso que se faça, a de poucos dias, a de horas, aquella a que o general Lewal chama uma crise violenta.
Hoje é necessario que a mobilisação se realise em muito pouco tempo, tanto menos quanto mais pequeno é o paiz, como é o nosso.
Entre nós é necessario que a mobilisação se realise, por assim dizer, de um momento para o outro, aliás não estamos em circumstancias de resistir ao invasor, aliás não podemos dizer que empenhâmos todos os nossos esforços para defendermos a independencia da patria. (Apoiados.)
Mas não póde haver entre nós essa mobilisação, porque nos falta a condição principal, porque falta n'esta reforma áquillo que já tivemos e que desprezámos, áquillo que esquecemos, em nome das paixões políticas, em nome das questões que dividiram este paiz em dois campos, questões que lho custaram tanto sangue.
Nós esquecemos completamente o que tinhamos, e, por que o esquecemos, admira-nos vel-o florirem outras nações! (Apoiados.)
Perguntâmos depois por que é que as instituições militares tanto decaíram em Portugal! Se decaíram, a culpa é nossa.
É preciso dizer isto, e creio que se póde dizer diante de todos que aqui estão, porque todos são liberaes. A culpa foi dos liberaes, embora se saiba que, se a commetteram, não foi com o proposito de prejudicar o paiz, foi obedecendo a outra ordem de idéas, ás preoccupações de momento.
Mas, como eu ía dizendo a v. exa., nós não podemos ter mobilização, porque não temos para ella a condição essencial, porque não temos no paiz a divisão regional para o recrutamento. (Apoiados.)
E isto não é idéa bebida nos livros estrangeiros.
O sr. Cypriano Jardim disse que a opposição ía procurar nos livros estrangeiros, ía buscar, por exemplo, ao livro de Vou der-Goltz as opiniões que vinha apresentar na camara.
Esta idéa que me refiro não se encontra só nos livros estrangeires; encontra-se muito antes na historia patria, nos nossos documentos officiaes, expressa em linguagem muito vernacula, em linguagem verdadeiramente portugueza.(Apoiados.)
Isso, que tivemos, já o não temos; e emquanto não o tivermos outra vez não podemos estar habilitados para mobilisar o exercito. (Apoiados.)
Para provar o que deixo referido, e para que se não diga que é esta uma questão que se foi estudar nos livros estrangeiros, peço licença para ler um trecho de uma publicação feita em Portugal, como o poderia fazer de muitas outras.