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14 DE JANEIRO DE 1955 307

e descarga, para reduzir ao mínimo a demora dos navios no porto.
Esta grande deficiência foi prontamente reparada pelo Sr. Ministro do Ultramar, comandante Sarmento Rodrigues, logo que dela teve conhecimento, ordenando a criação de um serviço autónomo de administração portuária à semelhança da medida recente que tomou para o porto de S. Vicente, na província de Cabo Verde.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - A criação deste serviço vai certamente melhorar a exploração do porto de Ana Chaves pela mais perfeita utilização do seu equipamento.
É benefício que S. Tomé ficará devendo ao Estado Novo e pelo que eu desejo tributar àquele Sr. Ministro o reconhecimento devido.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O Orador: - Mas, Sr. Presidente, aquilo que mais me impressionou acerca da resolução do problema portuário de S. Tomé foi, sem dúvida alguma, a visão do Governo ao decidir-se de entre numerosas soluções apresentadas. O Sr. Ministro do Ultramar optou por aquela solução que mais satisfez as aspirações da parte da população com os seus interesses mais directamente ligados com o porto de Ana Chaves.
Para me referir à solução do Governo é evidente que terei primeiramente de abordar considerações relativas ao meio portuário daquela ilha. Não se poderá formar um juízo suficientemente seguro, que nos possa conduzir a concordar ou discordar da solução adoptada pelo Governo, sem conhecer o meio de S. Tomé, quer sob os aspectos económico e do seu tráfego marítimo, quer sob a situação de fundos, abrigo, vaga e ondulação do mar junto à costa.
Não sei se hoje há elementos colhidos em observações de vaga ou de ondulação do mar de S. Tomé. Mas pouco importa à justeza das minhas considerações a falta do conhecimento desses elementos.
Sei, por observação directa nos anos que naquela província vivi e todos nós sabemos pelo conhecimento geral que temos da província, que durante a época da «gravana» os ventos sopram dos quadrantes do sul e provocam larga ondulação do mar, que em S. Tomé se denomina «calema», a qual obriga algumas vezes a suspender o trasbordo dos produtos e mercadorias e o movimento de passageiros entre a terra e os navios fundeados ao largo no seu ancoradouro.
Esta ondulação é frequente durante o período da estiagem, que na província é conhecida por «gravana» ou «cacimba» e se estende pelos meses de Junho, Julho e Agosto. Durante este período do ano pouco ou nada chove, mas o vento sopra com insistência no hemisfério sul: são os ventos alisados, a que se atribui a causa da calema.
Tanto aqueles a quem foi cometido o encargo de fazer o estudo portuário de S. Tomé e de elaborar sobre ele o seu parecer, como o Ministro do Ultramar, a quem competiu decidir sobre a adução mais conveniente, tiveram necessàriamente de atender à existência desta ondulação.
Porém, além da calema houve certamente ainda a considerar que durante a época das chuvas, constituída pelos restantes meses do ano, a ilha do S. Tomé por vezes é fortemente açoitada por tornados vindos de nordeste, das bandas da ilha do Príncipe.
A calema dificulta o tráfego e às vezes obriga a suspendê-lo; mas os tornados são mais perigosos, sobretudo quando se apresentam com excessiva, violência, a ponto de em terra partirem árvores e deslocarem telhas dos edifícios e no mar obrigarem os navios a garrar, quando fundeados.
Posso afirmar que assim é, pois fui testemunha ocular.
Os pescadores indígenas, quando, na faina da pesca, pressentem a ameaça dos tornados, recolhem apressadamente aos abrigos, e na baía de Ana Chaves muitas vezes se torna necessário reforçar a amarração das lanchas e suspender a manobra do tráfego.
Em todo o caso, é na baía de Ana Chaves que mentis se fazem sentir os efeitos dos tornados, devido ao baixio da baía e à direcção em que esta se abre para o oceano Atlântico.
A baía de Ana Chaves é formada pela ponta da fortaleza de S. Sebastião e pela do Quinguelharó, ou S. José; abre-se entre estes dois limites na direcção lés-nordeste e, portanto, fica com algum abrigo da violência dos tornados, os quais, como já disse, sopram de nordeste.
É curioso notar que, sendo a costa nordeste da ilha batida pelos tornados, é, contudo, devido à sua configuração, a que mais se presta à instalação de portos marítimos comerciais.
A costa nordeste da ilha de S. Tomé apresenta-se pouco acidentada e pouco elevada acima do nível do mar, ao passo que a restante costa é bastante alcantilada e, portanto, com maiores fundos, maior ondulação e pouco apropriada às instalações portuárias.
E acontece que ao centro da costa nordeste fica situada a baía de Ana Chaves, abrigada da calema, dos ventos e da ondulação predominantes de sul e su-sueste pela ponta onde fica situada a histórica fortaleza de S. Sebastião e abrigaria dos tornados que vêm de nordeste baixio e pela sua direcção lés-nordeste.
A calema sente-se mais ao largo, no mar fora da baía, onde não há abrigo.
Logo que as embarcações, ao demandarem a turra em dia de calema, dobram a ponta da fortaleza de S. Sebastião e entram na baía já não sentem tanto os efeitos da ondulação.
Podemos dizer, Sr. Presidente, sem o menor receio, que a baía de Ana Chaves foi sempre o porto da ilha de S. Tomé desde a época da nossa colonização e povoamento da ilha.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - É certo que a primeira povoação foi estabelecida em Água Ambé, junto de Ponta Figo, na actual freguesia das Neves, onde se fixaram os primitivos colonos e se experimentaram as primeiras ou culturas.
Mas sabe-se também que os primeiros colonos, pouco tempo depois de se fixarem em Água Ambé, reconheceram a excelência da baía que veio a chamar-se de Ana Chaves, e logo para si se transferiram.
Como há notícia de já existir uma igreja em 1504 na povoação junto da baía, temos de concluir que Ana Chaves é o porto de S. Tomé, pelo menos desde aquela data, isto é, há 451 anos.
Os nossos antepassados escolheram-na de preferência a todas as outras enseadas certamente pelas vantagens que oferece.
E tanto assim que junto dela ergueram a cidade capital da província e no cais construíram o majestoso edifício da alfândega, obra pombalina que durante muitos anos fez a honra de passadas gerações.
Pois foi no local mais abrigado da baía de Ana Chaves, junto à fortaleza de S. Sebastião, local com fundo e desviado da foz de Água Grande para evitar o assoreamento, e muito mais próximo do fundeadouro dos navios do que as actuais pontes de importação e exportação, que o Sr. Ministro do Ultramar ordenou a construção