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10 DE FEVEREIRO DE 1955 563

(...) tu, que não distingues uma couve de uma cebola, vais para a agronomia?».
Encolheu os ombros e nisso disse tudo.
Hoje está na Junta, e a cada passo discutimos os seus problemas; e eu espanto-me da convicção que o anima, o entusiasmo com que defende os seus trabalhos, da confiança com que actua, da fé que o inspira.
Já não vejo nele o simples técnico frio e sem alma; sinto nele, através das suas expressões, um verdadeiro e acérrimo defensor da terra.
Isto fez-me meditar e acabou por me incutir uma grande confiança no futuro, que só da terra nos pode vir, e então compreendi que o Instituto Superior de Agronomia se não limita a ser fábrica de técnicos, mas forma verdadeiros apaixonados da terra.
Entre nós encontra-se um dos seus mais eminentes professores, o engenheiro André Navarro, nosso distintíssimo colega, na pessoa de quem presto ao seu Instituto a minha homenagem de admiração e reconhecimento.

Vozes: - Muito bem!

O Orador:-Resumindo o meu apelo, Sr. Presidente, peço a V. Ex.ª transmita aos nossos ilustres Ministros das Obras Públicas e Economia a urgência inadiável de valer aos pequenos lavradores dos campos do Mondego.

O primeiro, que tanto cuidado tem dispensado aos problemas de Coimbra, como ainda agora demonstrou na visita que acaba de fazer à cidade, não deixará de prestar a sua atenção a este, pois todos nós, lá, ansiosa e confiadamente esperamos as suas prontas e inteligentes decisões.
Mesmo em frente de Coimbra o rio provocou estragos incalculáveis, que urge remediar, reforçando a sua margem esquerda a montante da nova ponte e restaurando a muralha de defesa a jusante, para que de todo se não percam os campos entre o porto das Lajes e o Álmegue, devendo-se ainda dotar a Direcção Hidráulica do Mondego com os meios precisos e imediatos para reconstituir as motas do rio quebradas pelas últimas cheias.

Ao Sr. Ministro da Economia pede-se instantemente que ordene a deslocação para os nossos campos de uma brigada da Junta de Colonização Interna com os meios necessários para afastar a areia com que as águas impetuosas do rio invadiram tantas terras, que, tornadas improdutivas, deixarão cair na mais trágica miséria pequenos proprietários, que mais não têm do que uma tira de terra para cultivar.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Esta brigada ou brigadas deveriam ficar permanentemente ao serviço dos campos do Mondego e, em colaboração com os servidos da hidráulica do Centro, prestariam um altíssimo serviço à Nação remediando os males que têm remédio e, sobretudo, educando os proprietários do campo, de modo a incutir-lhes no espirito a mística do combate sem tréguas com o rio.
Como disse o comandante Freitas Morna nesta sala: «o Mondego constitui um interessante problema de geografia humana», e por isso nada poderá ser feito sem a intima colaboração dos serviços com o próprio homem, que do campo vive e para o campo deve viver.
Os técnicos da Junta são as pessoas categorizadas para criarem a mística do rio, tão viva como os holandeses tom a dos seus canais; e então, com o concurso de todos, entusiástico e viril, a batalha do rio acabará por ser vencida pelos homens.
Disse.

Vozes: - Muito bem, muito bem!
O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Ricardo Durão: - Sr. Presidente: não pude ouvir ontem até ao fim o discurso do Sr. Deputado Cerqueira Gomes, mas li-o hoje nos jornais da manhã, e entendo que a sua brilhante exortação merece mais do que o silêncio indiferente ou a improvisação precipitada.
Aguardo a sua publicação no Diário das Sessões para devolver às razões do meu ilustre colega as objecções que considero necessárias e convenientes.
Como não sou improvisador nem quero ser precipitado, rogo a V. Ex.ª se digne conceder à minha intervenção a moratória de que preciso.
Um discurso que foi com certeza profundamente meditado requer também meditação e análise; e se o digo com esta antecedência é para assegurar à Câmara o meu interesse e ao nosso colega a minha lealdade.
Entretanto, Sr. Presidente, uma premissa desejo formular desde já: é que não há de facto uma causa republicana, porque a República não está em causa.
Tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!
O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Presidente: - Registo a declaração de V. Ex.ª Vai passar-se à
Ordem do dia

O Sr. Presidente: - Continua o debate sobre o aviso prévio apresentado pelo Sr. Deputado Paulo Cancella de Abreu.

Tem a palavra o Sr. Deputado André Navarro.

O Sr. André Navarro: - Sr. Presidente: as minhas primeiras palavras são do merecido louvor ao ilustro Deputado Dr. Paulo Cancella de Abreu pela forma superior como apresentou o importante aviso prévio sobre a crise vitivinícola nacional. É mais uma valiosa contribuição com que este ilustro Deputado enriquece os anais da Assembleia Nacional.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Subo a Esta tribuna, Sr. Presidente, apenas para fazer um breve discurso. E será breve, e não longo, porque o assunto a referir é de tal monta e tão vasto que obriga, de facto, a olhá-lo apenas de alto.

Ele é na realidade todo o problema do drama rural da nossa viticultura, o que quer dizer: do cultivo de boa parte da terra portuguesa. É assim, em suma, o do maravilhoso sonho que levou a uma expansão nos domínios do agrário que bem se coadunava com os anseios de progresso de uma agricultura pobre em terra pobre; sonho que surgiu na mente do cultivador como aurora salvadora, plena de promessas de melhores dias, mas que, mercê dos contrastes de fecundidade e de rusticidade da cepa, julgou encontrar nela própria o germe do desalento.
E é mister dizer ainda, e já, que foi esta a cultura que as velhas granjas do mosteiro de Alcobaça levaram mais além na sábia política da conquista do Sul para a colonização. E será ela que ainda há-de ser, em época que não virá longe, o elemento fundamental da fixação do camponês à terra alentejana.

Ouvem-se, porém, de facto, hoje - estamos na realidade ouvindo de todos os cantos da terra portuguesa - clamores pedindo justiça para que se salve tanto labor acumulado; esforço não só das actuais muitas dezenas de milhares, digo centenas de milhares, que labutam a terra com cepas mas também daqueles que acumularam, em