O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

10 DE FEVEREIRO DE 1955 565

Desde o compasso assaz diminuto para permitir fácil e generalizada motorização e mecanização, à frequência do míldio e do oídio, atraídos pelo viço e ao imprevisível da cheia, já não falando das Primaveras borrascosas, tudo tende aqui a cavar fundo o ressalto que separa a economia da produção destas baixas da de outros concorrentes aos mesmos mercados. E por isso esta torrente caudalosa de vinho acaba por invadir o Foço do Bispo - a nossa única bolsa de vinhos comuns -, sem possibilidades de caminhar mais além, excepto quando as aflições durienses nos anos de falta a atraem para envelhecimento dos seus generosos.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Este, em poucas palavras, o panorama da nossa vitivinicultura. E, resumindo, direi: vastos domínios de encosta, com custos de produção de vinho que atingem seis vexes os da várzea, e esta, embora diminuta em área em relação ao total plantado, e também diminuto o número de empresários que a cultivam, é, contudo, suficiente para dominar o mercado, provocando graves perturbações na economia da vitivinicultura nacional.

E isto, especialmente, é mais evidente nos anos terminados em 3 e 4, quando as produções ultrapassam ciclicamente um pouco mais as necessidades normais do consumo.

Mas também nos sinas de falta não esqueçamos o reverso da medalha. Então as aguardentes do Sul, mais baratas e não piores, são altamente desejadas pelos Durienses para o fabrico dos seus generosos. E já não é mesmo virgem a importarão de álcool vínico estrangeiro.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Este quadro, de cores tão carregadas, será repetido, e para lá se caminha, já, com outros produtos da nossa economia agrária - como o arroz -, no dia em que a produção do Sado, somada à do Tejo, doem ao País regular capitação. As baixas do Mondego e do Vouga serão então, sem que a qualidade neste caso seja elemento diferencial, o sacrificado Douro arrozeiro. Tudo isto apenas reflecte a irregularidade de um meio pobre e tão pequeno.

Está, porém, já feito u mal e não vale a pena citar, por já não ser do clima da época, medidas que noutros tempos furam realizadas para. restabelecer o equilíbrio entre a produção e o consumo vinícolas.

Hoje apenas se pudera, dentro do bom senso e para conservar riqueza já criada, lançar um grito de alarme e dizer: «Basta por enquanto de novas plantações».

Basta de novas plantações, mas que este «basta» seja draconianamente fiscalizado e que esta fiscalizarão se faça simultaneamente com a assistência técnica à viticultura.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - E irei mais longe: o problema não é apenas o da vinha produtora de álcool. Vejo acima dele, e talvez, dentro de poucos anus, muito mais difícil de resolver, o do álcool de outras origens que não o do vinho, e onde o do vinho só tília apenas como modesto concorrente.

De resto boje em França, problema similar está na ordem do dia da economia da sua viticultura, atribuindo-se também ao vinho apenas responsabilidade que não ultrapassa 10 por cento do total. Os 90 por cento restantes derivam, lá, da beterraba e de outros geradores do carburante alcoólico.

Ora em Portugal, por agora, é a figueira, de castas alcoolígenas, que se levanta como susceptível de transformar Torres Novas numa monumental babilónia de preocupações para o nosso agrário vitivinícola. Está-se, na realidade,- a plantar a esmo o figueiral. E para quê? Será a bela Esmirna, que exige aturado trabalho de caprificação para frutificar e para depois secar e tratar, lendo como único destino frutuosa exportação? Não. São, antes, castas adriáticas capazes de dar álcool e mais álcool, a não ser que se destine, e então está bem, esse figo exclusivamente, para sustento do gado. especialmente para engorda do suíno.

O Sr. Amaral Neto: - V. Ex.ª não ignora que justamente o que provoca, o interesse pela cultura da figueira, não só em Torres Novas, onde ela é mais intensa, como por quase lodo o Sul do País. é justamente a combinação do seu valor como forragem e do seu outro como fonte de produção de álcool.

Eu digo isto apenas, não para esclarecer V. Ex.ª, que conhece bem este assunto, mas sim paru informar alguns das Sr s. Deputados que porventura não tenham tanto conhecimento do problema, para que eles não pensem que é apenas o apetite alcoolígeno que determina a plantação desses figueirais.

O Orador: - Não é realmente o apetite ao alcoolismo, mas sim o rendimento que esse álcool produz.

Já terão, porem, sido tomadas medidas adequadas para evitar esta aterradora maré alta, já hoje previsível, e que ameaça destruir, dentro de breves anos, todo o já instável equilíbrio da nossa vida rural?

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Pergunta-mos ainda: não terá chegado já o momento oportuno para completar a orgânica corporativa, por fornia que o interesse geral não esteja, a cada momento, sujeito a estes e outras graves desatinos?

Lembremos, apenas, para medir a acuidade da crise que se pude gerar, de um momento para o outro, que o custo do nosso álcool industrial é hoje múltiplo, e de elevado multiplicador, do mesmo produto no mercado internacional e que o mercado interno está dele suficientemente abastecido. E não esqueçamos, também, que ele é hoje fabricado, em escala nunca vista, a partir do lenho, pelos países que herdaram, por processos violentos, grandes extensões florestais no Nordeste da Europa, produzindo este álcool industrial a preços sensivelmente inferiores a um terço dos do nosso álcool a 98º.

Sr. Presidente: depois deste apontar de alguns dos principais erros, e apenas de os apontar, e só alguns dos maiores, como me propus, o que fazer para debelar tão grandes males que se antevêem?

Repetirei: Como já disse atrás, não dar mais nenhum passo susceptível de ir agravar a crise latente do nosso ambiente agrário. E depois estudar a sério, a partir de dados de rigorosa prospecção agrária, o estímulo que leve a novos rumos.

Não há muitos, é certo, mas há alguns seguros, capazes de nos conduzir a uma melhor harmonia de interesses, e assim procurar tapar em primeiro lugar as falhas do sustento que seja possível fazer com o nosso esforço e desenvolver, por outro lado, actividades que nos permitam, de facto, concorrer, sem menosprezo do nosso trabalho aos grandes mercados externos. E encontraremos então, estou disso certo, desde a horticultura à silvicultura, alguns naipes para vencer esta difícil cartada. Mas estes aspectos não será hoje a altura de os dizer.