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10 DE FEVEREIRO DE 1955 567

(...) e sub-regiões e delimitando-as cuidadosamente, como base para futuras marcas comerciais de origem, correspondentes a valiosas massas vínicas; e, depois cooperativizar granjeios e fabricos, para se obter vinho mais barato e mais uniforme nas boas qualidades. E não se pretenda fabricar vinhos regionais, incaracterísticos e que nada digam, isto é, que não sejam espelho de situações tão diversas, como diversa é a terra dessas Beiras e da península estremenha.
E já hoje há marcas, definindo qualidades, que podem constituir bom princípio. Há, por isso, apenas, que continuar. E quando for preciso aumentar volumes de exportação, então, sim, acresçam-se as plantações, nos meios e com as castas mais convenientes.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Quanto às baixas de todas as bacias hidrográficas, do Mondego ao Tejo, há que encarar com coragem, mas a prazo mais ou menos longo, n sua transformação em verdadeiras fábricas de qualquer coisa valiosa que se possa exportar. E para tal, desde que se saiba reduzir custos de produção, haverá possibilidades grandes, desde os mostos para sumos vitaminados aos vinhos para mercados de largo consumo, licorosos ou comuns, à uva de mesa, mas própria para mesa, para comer em fresco ou passada. E não se esqueça a interessante possibilidade da reconquista de lugar proeminente no mercado americano dos brandes. E para tal chamem-se de França os técnicos desta produção, os que sejam mais competentes. E o fabrico da garrafa terá também de ser revisto, cuidadosamente, quanto a custos e qualidades.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - E isto quanto aos destinos externo e interno dos nossos vinhos. Separem-se, porém, para não perturbar, nos anos de produções elevadas, nos mercados internos, os, vinhos das várzeas da outra multidão oriunda de encostas, onde o barateamento de custos e assaz difícil de conseguir. Isto julgo ser medida a seguir. E esta separação será fácil quando o movimento de cooperativização estiver adiantado.
Assim se harmonizará melhor interesses tão [...]. E repito, de novo, a organização corporativa, desde que a tempo se preveja o despertar das crises cíclicas, o que não será difícil, deverá também estar habilitada a intervir no mercado no momento oportuno, por forma que se .salvem também os pequenos. Os grandes e o comércio têm nutra capacidade de resistência que permite mais demora no pensar.
Sr. Presidente: finalmente, quanto ao mercado ultramarino, hoje em notória ascensão, ele não deverá ser perdido à nascença por ilidiria nossa. Aí podemos, de facto, ensinar a beber o indígena e não o levar a gostos que lhe prejudiquem a saúde e que lhe perturbem o trabalho.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Exportem-se para lá os nossos melhores vinhos, para os trópicos, na nossa bela frota, pelo processo mais económico de transporte, centra lixando no destino convenientemente os acondicionamentos para a venda por grosso e a retalho. E quanto ao resto é só deixar desenvolver o espírito criador da nossa raça. E a respeito dessa virtude, no que ela representa de criador nos domínios da enologia, está bem exemplificado nesse precioso Madeira, que foi gerado para e pelas navegações. Apenas, por isso, mais um voto: que os actuais dessa pérola atlântica não deixem de reler o precioso livro da sua própria rotina. Ele evitará, estou disso certo, tentadores mas perigosos caminhos.
E para que dizer mais, neste momento e nesta Assembleia política, se a febre da crise já está a passar?
Por isso, tenho dito.

Vozes: - Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Daniel Barbosa: - Sr. Presidente: entendi de meu dever, como Deputado pelo Porto, não deixar de trazer também a minha modesta achega à discussão deste aviso prévio, em tão boa hora anunciado pelo nosso prestigioso colega Ur. Paulo Cancella, de Abreu; vou fazê-lo, sobretudo, como lavrador do Douro, que sente, e vive as enormes preocupações que atormentam esta região tão característica e mergulham na mais profunda ansiedade a esmagadora maioria daqueles que, sem desrespeito, poderíamos dizer que intensamente labutam para conseguir ajudar Deus no maravilhoso milagre de tirar das pedras desse solo tão rude um vinho de qualidade sem igual.
O que pretendo ao fazê-lo?
Envidar todos os esforços para esclarecer a momentosa questão que se ventila para proporcionar aos legisladores, sobre quem impende a grave responsabilidade das resoluções u tomar, todos os elementos de informação, para mostrar, finalmente, a todos os portugueses do Norte e do Sul que o Douro não pretendo locupletar-se à custa do resto do País.
Justifico desta forma a minha pretensão com palavras que, aliás, me não pertencem, visto fazerem parte de uma exposição dirigida em 1915 à Câmara dos Deputados e ao Senado por uma comissão de exportadores dos nossos vinhos do Porto.

Subscrevia-a nomes da maior respeitabilidade na cidade e da maior projecção neste ramo de comércio, tão tradicional e importante do velho burgo nortenho, nomes que ainda hoje perduram, pelo valor das suas casas, pela honradez dos seus processos, pela destacada posição das Mias famílias entre as melhores da sociedade portuense.

De todos sobrevive unicamente António de Oliveira Talem, e eu desejaria, Sr. Presidente, sem quebra de qualquer regra condutora desta Câmara, e ao iniciai-as considerações que vão seguir-se, lembrar aqui o alto apreço em que os Portuenses têm essa prestigiosa classe de comerciantes que só afirma nobremente como de verdadeira elite entre as actividades comerciais do País inteiro.

Vozes: - Muito bem!

O Orador: - Todos eles, de resto, viveram intensamente o angustioso problema da vitivinicultura Duriense, porque o sentiram como lavradores que eram por velhas tradições familiares que exemplarmente se prolongam em muitos paru quem, hoje em dia, o Douro continua a ser motivo de acrisolada devoção, numa luta, tantas vezes inglória, contra as intempéries ou as crises que o assolam e os homens responsáveis que o esquecem o« não compreendem.

E a lavoura Duriense bem merece do interesse de todos nós, até, porque mais não fosse, por traduzir na sua labuta intensa as mais altas qualidades da gente, da nossa terra.

É preciso, Sr. Presidente, ter percorrido demoradamente o Douro, não em mera digressão turística, em que só as belezas naturais se consideram, mas em períodos de larga permanência, que permitam considerar a sua alma, o seu drama, a sua vida, para sentir aquilo