21 DE MARÇO DE 1956 645
Posteriormente ao aviso prévio chegaram outras 200 t, desembarcadas no começo deste mês de Março, a 22$80 cada quilograma, além dos direitos. O total atinge, assim, 700t em 1955-1956, ao preço médio de mais ou menos 26$, sem direitos.
O preço da manteiga nacional, à saída, da fábrica, é de 31$60 cada quilograma (meio-sal).
Ora, o facto de se importar manteiga não constitui novidade neste país; porém, exportar é que representa uma novidade trazida pelo Estado Novo.
Valerá a pena saber porque se importou manteiga e como tal se conseguiu? É o que vou explicar e me obriga a tocar em produtos afins e a não ser tão breve quanto desejaria.
Para se avaliarem melhor as razões das importações e das exportações começarei por recordar, em breves palavras, as principais fases da História da produção da manteiga no País».
O seu fabrico praticou-se entre nós, desde tempos imemoriais, por processos caseiros de desnatarem espontânea, mas o seu desenvolvimento industrial coincide com determinados acontecimentos dos nossos dias que contribuíram para que os produtores de leite preferissem vendê-lo a quem ia utilizando os novos maquinismos, métodos mais rendosos.
No Boletim da Direcção-Geral da Agricultura (n.º 1, 11.º ano), após referências à Exposição e Congresso de Leitaria, efectuados na Tapada da Ajuda em 1955, pode ler-se:
O maior impulso, não na expansão da indústria, mas no aperfeiçoamento dos seus processos, coube, anteriormente, aos Decretos de 18 de Julho de 1888, do grande Ministro Emídio Navarro ...
o que me apraz recordar, na presença do seu neto, o nosso ilustre colega Prof. André Navarro.
Por esses decretos criaram-se então escolas de leitarias nos distritos de Santarém, Viseu e Aveiro - e aqui recordo a frutuária de Castelo de Paiva, minha terra natal -, que, aumentando a influência exercida anteriormente pelas várias quintas regionais do Estado já existentes, como a Quinta Regional de Sintra, a Quinta Distrital do Porto (em Alentém as dos distritos da Guarda e de Beja, contribuíram para difundir o uso do material aperfeiçoado daquela época.
Mas foram as consequências da crise financeira provocada pelo ultimato de Salisbury que, à semelhança de outras indústrias, fomentaram no nosso país o desenvolvimento das de leitaria ou de lacticínios, favorecidas pela reforma pautal de 1892.
Certo é que a importação de manteiga, tendo sido de 1200 t em 1890, baixou bruscamente para menos de 500 t em 1892 e era quase nula em 1909, data em que o consumo, subindo de par com o fabrico do continente e das ilhas, já se aproxima de 1500 t.
Segundo o referido Boletim, embora o custo da produção varia-se, conforme o sistema de exploração, entre 650 e 800 réis o quilograma no continente, os preços de venda ao consumidor orçavam por 1000 a 1100 réis cada quilograma para a manteiga salgada, atingindo 1400 réis os da manteiga sem sal. Verifica-se, portanto, uma margem de lucro de 300 a 500 réis por quilograma.
Por outro lado, o leite era comprado aos lavradores da localidade da fábrica ao preço médio de 32 réis o litro, isto é, baixava para 300 réis na Primavera, e parte do Verão e chegava excepcionalmente até 40 réis no Outono e no Inverno, recebendo as recoveiras 2 1/2 , réis por litro de leite transportado.
Se multiplicarmos estas cifras por 50, obtemos o equivalente em moeda actual, aproximadamente.
Mercê destes preços, certamente compensadores, que vinham daqueles bons tempos do reinado do grande e caluniado rei D. Carlos I, a produção do leite aumentou e com ela o número de fábricas. Por todas as regiões onde as condições eram mais propícias - nomeadamente em parte do Norte do País e nas ilhas adjacentes - o seu número cresce, registando-se no continente uma unidade com a laboração de 50 000 a 70 000 kg por ano e outra na Madeira vai em 160 000 kg, sem falar nos Açores.
Mais tarde a sua multiplicação efectuou-se desmedidamente, sobretudo quando despareceram os tabelamentos de manteiga originados pela guerra de 1914-1918 e devido também ao facto de ate 1924 (Decreto n.º 10 195) não haver qualquer regulamentação, bastando um simples requerimento à Direcção-Geral dos Serviços Pecuários pura obter autorização da fábrica de lacticínios, sem se exigirem os mínimos requisitos higiotécnicos; havia desnatadeiras instaladas sem cavalariças, estábulos, currais, quartos de cama, arrecadações, garagens e telheiros ao ar livre», (Boletim Pecuário» n.º 3, de 1939).
Em 1925 a manteiga já sobrava, mas os stocks, não podendo ser exportados - até por deficiências de fabrico -. ocasionaram a queda brusca dos preços. Estes descem abaixo dos da margarina, a fim de a manteiga ser absorvida no nosso mercado, com ruinosos reflexos no leite, e levando a lavoura a reduzir a sua produção, a ponto de o País voltar a importar centenas de toneladas daquele género e de, em 1926, o total dos lacticínios adquiridos no estrangeiro se elevar a 12 000 contos.
Até que, reanimados os preços, também, a produção voltou a dar sinais de nova vida.
Assim chegamos a 1928, data em que o Estado Novo começa a orientar a indústria dentro de princípios de higiene e estabelece a obrigatoriedade do licenciamento de todos os estabelecimentos de lacticínios (Decreto n.º 16 130).
Em 1938, dez anos depois, registavam-se 255 fábricas - se fábricas se podem chamar - e 477 postos de desnatação no continente, ao mesmo tempo que na Madeira existiam 60 fábricas e 1100 postos, li aros eram os estabelecimentos que satisfaziam aos requisitos modernos.
Perante a pulverização da indústria, foram então suspensos os novos licenciamentos e a Direcção-Geral dos Serviços Pecuários cria uma comissão de vistorias a estabelecimentos de lacticínios.
As fábricas, dispondo de pouca matéria-prima, haviam-se lançado de novo, por alturas» de 1930 a 1939, na concorrência desordenada, o que favoreceu, de início, a produção; mas em breve os stocks de manteiga - sem condições de conservação- já atingem 100 t, quantidade suficiente para originar o aviltamento dos preços. Foi o bastante para que o leite baixasse de $60 e $70 para $30 e $40 cada litro, enquanto a manteiga, de 18$ a 20$, descia até 9$ cada quilograma na fábrica.
Industriais há, todavia, que melhoram as suas instalações, e os seus produtos -mercê da nova orientação oficial - e enveredam pelo fabrico de queijos, conseguindo fazer reduzir a sua importação de 471 071 quilogramas em 1930 para 123 883 em 1938, pasmando a ser quase nula logo a seguir. Por sua vez, a importação de manteiga cai de 223,3 t em 1935 para 3.5 t em 1938. Neste ano o total de lacticínios importados (leite condensado, manteiga e queijo) é apenas de 146 t, no valor de 1311 contos, ao passo que a exportação foi de 1329 contos. (Relatório do Decreto-Lei n.º 29 749).
Sr. Presidente: recordei estes factos e deles se poderá tirar alguma lição: todas as vezes que a produção não era absorvida pelo consumo interno, surgia a crise de abundância e respectiva baixa de preços, tanto