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15 DE JUNHO DE 1956 1131

Só a cidade de Bruxelas tem quatro orquestras sinfónicas. O ensino e o gosto pela música penetram assim em todas as camadas sociais.
A Suíça tem cerca de trinta conservatórios, subsidiados pelos cantões: as Instituições Ondine e Musique des Cadets ministram ensino gratuito, além da própria Sociedade Federal.
Em grande número de países da Europa -Alemanha, França, Itália, Holanda, Suécia, Noruega e Dinamarca- se pratica o canto coral, com início na própria escola primária.
Na Alemanha e na Inglaterra aos diplomados com os cursos superiores de composição e instrumentação e leitura de partitura atribui-se o título académico de doutor.
Na Presses Universitaires de France, comentando a música estrangeira, André Hodeir escreve acerca de Portugal:
«Pouco há que dizer acerca da música portuguesa», e citam-se em seguida não chega a meia dúzia de nomes!
A invasão -a expressão não tem sentido desprimoroso - de músicos estrangeiros comprometeu as possibilidades de os concertistas portugueses se dedicarem à sua carreira, afirma o Sr. Director do Conservatório Nacional.
Na Gazeta Musical escrevia-se, com efeito, mui recentemente:

Começou a temporada musical em Lisboa. Pelos concertos já efectuados e por tudo o que se anuncia, ela não se mostra diferente das anteriores. O virtuosa estrangeiro vai novamente ser o senhor da situação, as manifestações a estrangeiros vão novamente constituir o foco de interesse exclusivo da vida artística da capital, as nossas sociedades de concertos vão novamente andar de compita para ver qual apresenta a mais retumbante celebridade internacional.

Sobre a música portuguesa, sobre os artistas portugueses nada consta, nada se prevê, tudo se passa como se não existissem ou, pior do que isso, como se fossem uma calamidade a evitar.
A que está reduzida, com efeito, a actividade nacional no campo da arte dos sons? A criação musical encontra-se, a bem dizer, morta por falta de tónicos para a manter ao menos dentro daquela já fraca vitalidade que tinha e os nossos virtuosos, cada vez mais diminuídas as possibilidades de se exibirem, são vítimas de uma concorrência em que couta menos o valor do que a propaganda. A tentativa da Orquestra Sinfónica de Lisboa parece que tem, lamentavelmente, os seus dias contados. Dos nossos organismos corais de nível, um, a Sociedade Coral de Lisboa, suspendeu as suas actividades; outro, o coro da Academia dos Amadores de Música, vegeta à míngua de estímulos. A Sociedade Nacional de Música de Câmara pode dizer-se ter passado a pertencer à história.
Em Lisboa, onde se concentra a cultura artística do País, não existe um único salão de concertos, vendo-se os artistas nacionais obrigados a implorar a esmola da cedência de uma casa de espectáculos em condições financeiras e acústicas uma* vezes insuportáveis para os artistas e outras vezes prejudiciais à arte. Este caso v do domínio público e já terá sido debatido na imprensa e nas sessões da Câmara Municipal de Lisboa.
Em Portugal há escassez, ao que parece, de bons professores de orquestra e de bons compositores, e diz-se que há abundância de bons maestros. É, porém, do domínio público, e a imprensa o tem noticiado, que se mandam para o estrangeiro aprender regência de orquestra alguns dos nossos melhores violinistas, que seriam utilíssimos no nosso teatro de ópera, por exemplo, como maestros auxiliares de coros.
Em 1953 subiu à cena em S. Carlos a ópera Ouro não Compra Amor, do compositor Marcos Portugal. Incompleta como estava, carecia de profunda revisão, e tudo indicava que essa revisão fosse confiada a um compositor português.
Assim não sucedeu e foi remetida para Itália e a um compositor italiano. Não haveria no nosso Conservatório quem, com idoneidade, o fizesse?
Afigura-se-me que seria conveniente estabelecer o princípio de as nossas orquestras sinfónicas incluírem nos concertos a efectuar em Portugal uma ou duas obras de autores portugueses.
A Itália assim o estabeleceu em certo tempo, mediante parecer prévio de um conselho de compositores.
No Brasil a lei impõe a inclusão nos programas de concertos de duas obras nacionais.
O que se passa quanto à carteira profissional conferida pelo Sindicato é, por sua vez, altamente lesivo do decoro nacional.
E permito-me citar um demonstrativo exemplo:
No ano transacto deslocou-se a Lisboa, para trabalhar num teatro, uma companhia de bailados. Contratada a orquestra, o maestro, de nacionalidade espanhola, verificou que os músicos careciam de competência. O contrato foi imediatamente rescindido e os bailado» tiveram de ser realizados só a piano, tocado pelo maestro contratado. São desprimorosos estes incidentes, como inadmissível é desconsiderar os valores nacionais só porque o são.
A análise sucinta do problema do nosso Conservatório Nacional, nos seus aspectos negativos, impõe um estudo construtivo indispensável à revalorização de uma escola com um prestigioso passado.
A substância da música é sempre a mesma, escreveu um conhecido musicólogo; o que varia são os modos por que se manifesta.
É indispensável estimular e congregar todos os valores nacionais, banir o predominante espírito de intriga, por vezes de pura maledicência e provocação, de modo a trair em vez de desclassificar.
Daqui me permito solicitar aos Srs. Ministro e Subsecretário de Estado da Educação Nacional, tão zelosos quanto esclarecidos, a sua intervenção para a promulgação da reforma do Conservatório Nacional, como ponto de partida para o estudo e publicação de outras medidas complementares que tendam para a resolução da grave crise musical e teatral portuguesa.
«The words of my book - escreveu Whalt Whitman - are nothing; the drift of it is everything». As palavras do meu livro nada são; a intenção é tudo.
Tenho dito.

Vozes:- Muito bem, muito bem!

O orador foi muito cumprimentado.

O Sr. Pinho Brandão: - Sr. Presidente: não estive presente na sessão desta Assembleia Nacional de 5 do corrente mês, na qual o nosso ilustre colega Sr. Dr. Urgel Horta, Deputado pelo circulo do Porto, se congratulou pela adjudicação da empreitada relativa à construção da chamada «ponto da Arrábida» e pela próxima construção dos respectivos acessos.
Com muita razão e oportunidade, realçou o ilustre Deputado a grandeza dos empreendimentos e a sua projecção na vida da cidade do Porto e até na vida do Pais.
Não tenho a honra de representar nesta Câmara o circulo do Porto, mas, como homem do Norte e ainda como homem natural e residente num concelho que desde sempre manteve as suas mais importantes relações econó-